O exemplo Corbyn…


A frase pronunciada no Parlamento por David Cameron dirigindo-se ao chefe da Oposição trabalhista diz tudo sobre a nebulosa política que envolve Londres depois do referendo sobre a UE. Textualmente, o primeiro-ministro britânico, ainda em exercício, disse: “For heaven’s shake man, golink (Pelo amor de Deus, vá-se embora, homem) link.

Pondo de lado a invocação divina, que a Direita gosta sempre de introduzir nas suas proposições, a tirada de Cameron é surpreendente no quadro das relações partidárias. Quer goste ou não do estilo de Jeremy Corbyn o ‘homem’ é o líder do Labour e a sua permanência ou destituição está dependente da vontade dos militantes trabalhistas e não de jogos parlamentares (que aliás já começaram a ter expressão).

Cameron é um dos derrotados do referendo sobre o Brexit (não é obviamente o único) mas este acto plebiscitário não caiu do céu. A via referendária foi utilizada por David Cameron como um instrumento para consolidar a sua situação de primeiro-ministro tendo por detrás um partido dividido. Acossado por uma Extrema-Direita que não ousa afrontar com políticas diferentes do nacionalismo, soberanismo e populismo socorreu-se do referendo para dirimir questões políticas. 
Começou por bater o pé à Europa mantendo-se num equilíbrio instável (ora dentro, ora fora), conseguiu obter da UE um estatuto de excepção (que recolheu amplas cumplicidades na Comissão Europeia e no Conselho Europeu) e depois avançou ululante para o referendo (que de acordo com projecções julgava ‘estar no papo’). 

Na realidade o referendo visava frenar o desgaste interno do partido Conservador acossado pelo dogmatismo anti-europeu e xenófobo do UKIP (Partido da Independência do Reino Unido). Na verdade o Partido Conservador é dominado por uma multidão de antieuropeus mesclados com alguns eurocépticos (onde se deve incluir o próprio Cameron).

No partido Trabalhista o referendo – inevitável depois dos resultados da últimas eleições gerais britânicas – acentuou uma velha fractura entre uma ala liberal (blairista) apoiante da NATO, do domínio americano e da contemporização com a city e uma outra mais à esquerda herdeira das tradicionais ligações aos sindicatos, defensora do Estado Social e internacionalista.

Claro que o Brexit não tinha reflexos só para o Partido Conservador. Era estratégico em termos de perduração do poder mas os respingos vão atingir todos os cidadãos britânicos. 
Por outro lado, o partido Trabalhista mantinha (vigilantes) no seu seio um rol de inconciliáveis contradições que 'nasceram' da derrota da candidatura dos sociais-liberais à liderança. 
Não admira, portanto, que face aos actuais caminhos trilhados pela Europa um expressivo número de sindicatos (transportes, ferroviários, indústria alimentar, etc.) se tenham manifestado contra as políticas europeias que iria contaminar a dicotomia ‘Sair’ ou ‘Permanecer’, introduzindo-lhe outras variáveis. 
A Esquerda deixou-se envolver no chamariz da Extrema-Direita que, estrategicamente, centrou o referendo nas políticas sobre emigração. E aí entrou em força o populismo que viria a condicionar os resultados referendários.

Não está em causa a defesa intransigente da permanência de Jeremy Corbyn na liderança dos trabalhistas. Apesar do seu distanciamento da génese deste referendo, aceitou-o e passou a fazer parte do lote dos derrotados. 
A demissão de Corbyn não seria uma atitude escandalosa em termos de rotina política. O escandaloso é ela ser ‘exigida’ pela Direita Conservadora. Por um demissionário líder que quer arrastar tudo na sua derrocada.

Na digestão dos resultados nunca ouviremos qualquer farpa da Direita lançada a Nigel Farage apesar de, no acto referendário, os conservadores terem doado o bolo ao ‘inimigo’. 
Contudo, a 'ira populista' vai dirigir-se toda para onde cheire a socialismo ou a social-democracia. A ‘ultraliberalização’ política, económica e financeira da Europa é o desígnio último. Mais uma vez os resultados terão danos colaterais. 

Corbyn, muito provavelmente, vai deixar de poder liderar mudanças estruturais (verdadeiramente estruturais) para a Esquerda, como sejam: defesa do Estado Social, combate à financeirização da economia, consagração de direitos laborais (contratação colectiva) e reversão da propriedade dos transportes e energia para o domínio público. 
Estas questões não estavam expressas nos boletins do referendo mas vão estar presentes nas políticas futuras decorrentes dos resultados, porque esse é o programa político da Direita (seja a civilizada ou a extremista).

De reter, para futuro, a evidente perigosidade dos métodos referendários, pejados de controversos contornos maniqueístas. Os problemas actuais - decorrentes de uma devastadora globalização - são cada vez menos dicotómicos. Interessa avaliar em que medida as soluções opostas - sim versus não - traduzem verdadeiras escolhas ou se, pelo contrário, conduzem ao 'esplendor' do populismo.
 
Corbyn, sem jeito para mártir, vai ser um exemplo de como se pode sacrificar um homem às ambições políticas de outrem e depois, descaradamente, mandá-lo para casa…

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