BREXIT: algumas inacreditáveis ressacas …


Começa a ser cansativo olhar para um país que põe os seus interesses à frente de tudo e todos.
O ‘Brexit’ foi uma escolha colectiva dos cidadãos britânicos e como todas as opções tem as suas consequências. Tudo começa pela declaração de Cameron, na saída imediata das eleições, que diferiu a sua incontornável demissão lá para o Outono, mantendo a consequências políticas do referendo em 'banho-maria'. 
Na verdade, o processo de saída da Grã-Bretanha da UE, ou seja, a evocação do badalado artº. 50º do Tratado de Lisboa, só no próximo Outono, tinha uma justificação plausível – embora interesseira e egoísta – já que o resultado referendário desencadeou naturalmente alterações partidárias internas, com inerentes reflexos governamentais. 
Era suposto que as mudanças internas se arrastassem até essa data (Outono) e, como é óbvio, interessava à UE ter, para iniciar a difícil separação de águas, um interlocutor válido.

Na realidade, o processo político doméstico alterou-se e, muito rapidamente, o Governo Cameron foi substituído por outro do mesmo partido que dispensou olimpicamente o sufrágio popular e é presidido pela ex-ministra do Interior Theresa May. Este pormenor, mostra como o processo referendário estava, ab initio, inquinado. 
Fosse qual fosse o resultado do referendo os conservadores tinham desde logo preparada uma rápida adaptação às novas condições daí decorrentes. 
O mesmo não sucedeu com um outro dos grandes partidos apoiantes da permanência na UE – o partido Trabalhista – que ‘ganhou’ uma profunda crise interna que continua em evolução.

Aliás, o cúmulo da ambiguidade reside no facto de a nova chefe do Executivo britânico ter apoiado (formalmente) David Cameron no 'remain' e ser, agora, referenciada como uma indefectível defensora do 'exit' link. Contradições que a política tece. Por cá chama-se a isto ‘política da rolha’
Por outro lado, é extremamente sugestivo o desenrolar dos acontecimentos que a vitória do Brexit provocou no seio da Partido Conservador britânico aquilo que na gíria política se designa como ‘noite das facas longas’. 
Se não vejamos a quantidade de ‘cadáveres’ que ficaram pelo caminho na turbulenta luta pela liderança: Boris Johnson, Michael Gove, Andrea Leadsom, Stephen Crabb, Liam Fox, etc.

É óbvio que as alterações do timing interno ocorridas em Londres não podem deixar de ter reflexos na data de início das negociações entre a Grã-Bretanha e a UE. 
Não se percebe que o seu começo continue a ser diferido para o Outono/Inverno quando a situação doméstica está aparentemente resolvida. Só se for a ‘silly season’. 
Estas hesitações, ou melhor, estes travestismos políticos que se instalaram na Dowing Street nº 10 estão muito de acordo com as circunstâncias de mudança do governo de Sua Majestade e a perene ‘capacidade de vencer’ quaisquer que fossem os resultados. A isto chama-se 'batota'.

Aliás, a perversão do processo já tinha começado com as negociações entre a Comissão Europeia e David Cameron no pré-Brexit link. As cedências feitas a Londres pela UE violaram regras europeias de uma maneira absolutamente escandalosa e na prática não serviram para nada. Nessa altura, Fevereiro de 2016, a Comissão Europeia abdicou alegremente das suas funções de indefectível guardiã dos Tratados e regras.

Mas poderá existir uma outra razão de peso. A Comissão Europeia poderá não estar disponível. Neste momento aparece muito atarefada com as iníquas sanções a Portugal e a Espanha.

Numa Europa onde existiram reiteradas prevaricações das regras internas (sejam Pactos Orçamentais, sejam Programas de Estabilidade e Crescimento) e onde, por exemplo, nenhum Estado (incluindo a Alemanha) cumpre as metas de endividamento externo a premência política dos burocratas recai sobre 0.2% de deficit apelidado de ‘excessivo’ quando os efeitos do Brexit, embora possam ser limitados (dependem da qualidade dos acordos negociais), devem ser consideráveis e estender-se no tempo.

Das notícias que vão sendo libertadas por Bruxelas ficamos a saber que os eurocratas pensam estar entretidos com sanções aos países membros até o Outono.
Inacreditável.

Comentários

Primeiro desintegram-se os partidos. Depois o país. Resta saber se a UE se desmorona antes ou depois do RU.
Jaime Santos disse…
De facto, inacreditável que a prioridade seja a discussão das sanções. Faz lembrar a piada sobre a questão que afligia os teólogos bizantinos, de quantos anjos podiam dançar na cabeça de um alfinete, enquanto o inimigo turco estava às portas... Quanto ao RU, depois da recuperação por Theresa May de Brexiters irresponsáveis e mentirosos para liderarem o processo de saída, que já deu origem a especulações especiosas na Alemanha, de que isto seria uma estratégia para impedir o RU de sair da UE, qualquer esperança de que a crise política se pudesse resolver a curto prazo e permitir alguma estabilidade parece revelar-se vã. Os Britânicos vão colher as tempestades que semearam...

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