Alegre esquerda

Manuel Alegre goza de um importante capital político. Foi às urnas nas eleições presidenciais e obteve uma importante votação. É respeitado no país e é uma das figuras mais destacadas do PS.
Alegre tem divergências profundas com a actual direcção do PS e tem demonstrado publicamente essa insatisfação.
Muitas vezes - estando dentro do PS - tem conseguido corrigir as políticas do Governo.
Mais recentemente tem feito um trabalho de aproximação ao Bloco de Esquerda e outras forças informais da esquerda portuguesa.
Agora fala na possibilidade - na necessidade! - de ir a votos...

Como não pretende desafiar Sócrates no Congresso do PS, deixa entender que poderá sair do Partido.
Com tudo isto só há um resultado certo: o PS ficará mais pobre.
E há dois resultados incertos: o que é que Alegre e os seus ideias ganharão? O que é que o Bloco e Louçã ganharão?

Parece-me que - embora seja incerto - será um resultado de soma negativa. Perderá Alegre, perderá o Bloco e perderá essa corrente ideológica, porque deixa de conseguir fazer qualquer ponte com o eleitorado maioritário e com a direcção do PS.

O PS, enquanto grande Partido, pode e deve - precisa inelutavelmente! - de divergências e contraditório.
Mas se essa divergência se transforma em sectarismo e em ruptura com o Partido, todos perdem.
Todos, sobretudo os que menos apoio eleitoral têm. E estes, nós sabemos bem quem são e serão.

Quem ganha?
A Direita, claro está!
Ou porque a ruptura se torna tão catastrófica que consegue roubar 15% dos votos a Sócrates e o PSD ganha as eleições, ou porque - não o conseguindo, como me parece provável - entrega ao CDS as chaves da governabilidade, seja com queijo limiano, seja com outras manobras às escondidas.

Sim, porque não me parece fácil, depois de criar uma ruptura com Sócrates e a direcção nacional vir a assumir a disponibilidade para formar Governo. Não está no espírito, nem nos desejos daquela esquerda formar Governo. Ou estará?

Se está, então seria bom começarem a apresentar já propostas pela positiva.

Aqui deixo algumas interrogações fundamentais:
- Como garantir a sustentabilidade do SNS a 20, 30 anos?
- Como contribuir para a melhoria das prestações da Escola pública? É necessário avaliar os Professores? Como?

E vamos a questões estruturais:
- São a favor do Tratado de Lisboa?
- Portugal deve continuar na NATO?
- Querem pertencer à família socialista no Parlamento Europeu?

É que se Alegre quer trazer Louçã ao poder, existem estas "pequenas questões" que importa responder...

Comentários

e-pá! disse…
Uma análise muito redutora e, desculpe, impestada de "marcelices", acerca da participação de Manuel Alegre no Forum das Esquerdas.

Hoje, no Jornal Público, Manuel Alegre, explicitou o seu pensamento e a sua mensagem:
"Manuel Alegre afirma que apenas falou numa alternativa de poder e pede aos jornalistas para não porem na sua boca aquilo que não disse.
Manuel Alegre admite, no entanto, que processos como o que agora está em curso são feitos de ambiguidades e tensões. Por isso e embora não seja um partido o que está em projecto, diz que no futuro é possível que ele acabe por ser criado."


Embora parecido ao que se tem reproduzido pelos orgãos de comunicação - e no meu caso um ouvidor da intervenção - a interpretação contém nuances fundamentais em relação ao futro da Esquerda em Portugal.

De qualquer modo, penso ser altura de reflectir sobre um estudo encomendado pelo PS acerca da Reforma do Sistema Eleitoral que diagnosticou a necessidade de haver mais coligações partidárias, a bem da estabilidade e do desenvolvimento do país.
No entanto, o porta-voz do Partido - Vitalino Canas - Socialista foi o mais crítico em relação a estas conclusões do referido estudo.
andrepereira disse…
A maioria das democracias parlamentares funciona - e muitas razoavelmente bem - com regimes de coligação.
Não sou um admirador desse sistema, que num país e numa cultura como a portuguesa, poderia conduzir a uma "italianização" do sistema, isto é, à formação de permanentes "blocos centrais" onde tudo é cinzento, indefinido e no final são sempre os mesmo no poder.
Em teoria seria possível - e até interessante - experimentar coligações de forças à esquerda.
Mas, na prática e perante os protagonistas e movimentos sociais conhecidos, penso que a diversidade dentro do PS, uma diversidade dinãmica, plural e bem compreendida, mas com unidade de acção e com determinação estratégica - são a melhor resposta de esquerda e centro-esquerda.
Mas ninguém tenha ilusões. A História não para e os processos sociais são muito dinâmicos, pelo que se exige - cada vez mais - que a Direcção Nacional do PS e os movimentos sociais que o apoiam mantenham espírito crítico e vontade de estabelecer pontes com as vozes discordantes. Não podem ter a atitude (que sinceramente penso que não têm) de querer "guardar as portas do castelo"...
e-pá! disse…
Caro André:

"...Não podem ter a atitude (que sinceramente penso que não têm) de querer "guardar as portas do castelo"....

Esperemos que não!

Mas, entretanto, políticos como A. Santos Silva, evocam com as suas meditabundas considerações, a poesia de Carlos Te (cantanda por Rui Veloso):
...Vou guardando as margens.
Velando os lírios do jardim...


É que o problema não está nas portas do castelo que podem ser franqueadas, numa reprise da lendária mitologia do "cavalo de Tróia", mas nas margens...
E, Manuel Alegre, atreveu-se a andar por aí...

Será isso?
andrepereira disse…
Reproduzo o que escrevi noutro locla (ograndezoo.blogspot.com)
Chegou o momento decisivo em que, não apenas Sócrates tem que ir almoçar com Alegre, mas todos os dirigentes do PS têm que estabelecer um diálogo, de igual para igual, com as correntes diversas dentro do Partido e, realemente, pensar num Novo programa de Governo, numa nova carta de prioridades. O Mundo mudou muito desde 2005, as exigências do país e da Europa são hoje outras. Não podemos mais contar com o factor Santana Lopes. Por isso, devem ser lançadas verdadeiras discussões nos órgãos do PS - e fora dele! - sobre as questões do presente e do futuro.
Manuel Alegre, com o seu saber e experiência, tem obrigação de ajudar nesse processo. O tal MIC em que deu? Qual a sua agenda?
Precisamos de mais Política!

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