Comboios sem a última carruagem

É difícil dizer se a ausência dos deputados que faltaram à votação sobre a avaliação dos professores, que transformou a possível derrota do PS em escândalo do PSD, se deveu à harmonia com intuitos do Governo ou às saudades dos «deputados que [deslocados de casa] regressam às suas famílias mais cedo», como alegou o deputado Guilherme Silva.

Não há democracia sem Parlamento e muitas críticas fazem parte da herança salazarista, mas é chocante alegar saudades da família quando muitos portugueses trabalham longe de casa para ganharem o sustento e não pensam no regresso à quinta-feira.

Pode haver razões plausíveis para reduzir os plenários a três dias, pois o trabalho parlamentar não se esgota aí, mas afigura-se infeliz a proposta de os realizar às terças, quartas e quintas-feiras, na sequência de um escândalo e da inaceitável desculpa. Não gostei de ver Almeida Santos, o mais brilhante parlamentar e legislador da segunda República, a corroborar a posição do assessor jurídico da Região Autónoma da Madeira, bem remunerado em funções que um deputado não devia aceitar por pudor republicano.

É a vida, mas essa de retirar a sexta-feira à semana de trabalho, por saudades da família, lembra a decisão de um administrador da CP que, face a um relatório que referia ser a última carruagem a mais afectada pelos sinistros, mandou que a todos os comboios fosse retirada… a última carruagem.

Comentários

jrd disse…
Nao só concordo, como sugiro a inclusao do vagao "J" no lugar da dita ou entao à frente da primeira...
(Sei que nao incluis esta "crítica" no rol da tal heranca)
Abraco
e-pá! disse…
O espectáculo que o Parlamento está a dar ao País faz-me recordar uma oportuna prosa de Fialho:

"Gosto do parlamento como gosto dos touros, para me estontear um instante na mancha ondeante das cabeças, nos burborinhos de entrada e de saída, e finalmente, no investir do primeiro bicho (...) Pasma-se com efeito da chusma de idiotas, que lá em baixo grasnam, à mistura com velhos aborrecidos, com estadistas mancos (...) A fatalidade quer que o meu país, ao aproximar-se a hora derradeira, tenha a assisti-lo a comunidade do pior que as gerações têm produzido. Não há escultor falhado, não há filho de conselheiro hidrocéfalo, não há ricaço pândego, traficante odiento, cínico velho, bacharel vadio, amanuense inútil, que ao fazer a autópsia de si mesmo reconhecendo-se falho, não tenha apelado para este hospício de S. Bento, onde o não ter cabeça rende três mil reis por dia, sobre as vantagens de não ir preso, e de se poder arranjar, às tenças da eleição, para o resto da vida, uma chuchadeira burocrática. Oh, santo Deus, que tipos! Antigamente metiam-se os microcéfalos nos asilos. Os conselheiros, que tinham filhs cretinos, recluíam-nos no interior das casas(...)
"

Fialho de Almeida, in "Os Gatos",

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