Manuel Alegre, o PS e a Esquerda

Enquanto o silêncio de Sócrates irrita Manuel Alegre, o ruído deste irrita quase todos os socialistas. Alegre reserva para si o direito à diferença, à chantagem ao PS e à quebra de solidariedade para com os companheiros do partido, mas não tolera que Sócrates se cale perante a censura de um correligionário ao comportamento por que optou.


Alegre é um intelectual respeitável e um poeta de mérito mas não passa de um político medíocre, com enorme ego e a crença pueril de que os aliados de ocasião o seguiriam numa deriva sem projecto, sem futuro, sem programa e sem ética.


Quem julga ter um milhão de portugueses à espera dos seus humores e rancores não se dá conta que já alienou os descontentes que se uniram no voto conjuntural das eleições presidenciais.


Alegre ainda pode fazer bastante mal ao PS mas já não consegue fazer qualquer bem ao país. Os que contavam com ele para fazer inflectir o PS à esquerda decepcionaram-se e já só vêem a vaidade pessoal e os interesses de um grupo mais interessado na exposição mediática do que na construção de uma alternativa que passe por ele.


É amargo ver o combatente anti-fascista desprezado pelo PCP e pelo BE e com o seu PS de sempre a envergonhar-se do seu percurso recente e a ser zurzido por ele, sem audácia para sair nem vergonha de ficar.


É deprimente vê-lo na AR, a posar para as televisões, com a certeza antecipada de que votará com qualquer partido contra o seu, de que procura à viva força que o expulsem para se tornar um mártir, fantasiando convicções pelas quais é incapaz de lutar com o trabalho perseverante e a dedicação própria dos líderes.


Faz pena. Manuel Alegre, que semeou sonhos em várias gerações, tornou-se o cemitério de ressentimentos, a trova ao vento que passou quando distraidamente aceitou tornar-se bronze cinzelado pela mão da pior direita e se esqueceu onde se travam os combates da esquerda, os sonhos do futuro e a utopia da liberdade.


Podia ter ficado associado a Mário Soares, acaba comparado a Luís Filipe Meneses.

Comentários

Manel disse…
Não basta a Manuel Alegre distribuir solidariedade em homilias preparadas.
Ao afirmar que é preciso fazer e ele nada fez, logo não sabe e não soube fazer.
É que vai faltando a coragem de sair de cena, e a porta da saída está cada vez mais pequena.
Este comentário foi removido pelo autor.
Desde novo cresci a admirar Manuel Alegre, mas desde já a alguns anos que a minha admiração pelo político decresceu drasticamente, ficando praticamnete só a admiração pelo poeta.
Estava em 1995 nas escadas monumentais quando ele naquele grande comício disse que era a última vez que se candidatava.
Já lá vão quase 14 anos e ele apesar das críticas que faz ao seu PS, não tem a coragem de largar o seu cargo de deputado, o seu cargo de vice-Presidente da Assembleia da Republica e suas mordias, nomeado pelo PS que agora critica.
Manuel Alegre não se pode achar dono dos votos, acredito que muitos dos que votaram nele (o que não foi o meu caso) agora não o voltariam a fazer.
Realmente é pena assistir ao que chegou o político Manuel Alegre.
andrepereira disse…
Porquê tanta indignação quando Lelo critica Alegre, se este e seus colegas fazem acusações bem piores ao socratismo? Quem aliás começou a difundir os rumores sobre a vida privada e o "carácter" de Sócrates e outros membros da actual direcção do PS. O maniqeísmo sempre foi mau conselheiro: nem tudo e todos de um lado são o bem, nem tudo e todos do outro lado são o mal. Alegre tem prestado um grande serviça ao país e ao PS representando uma oposição ao Governo que não existe à direita e que à esquerda pouco merece ser ouvida.
É essa a riqueza do PS: consegue fazer a dialéctica e ir-se renovando.
Na entrevista ao Expresso, Alegre mostrou qual o seu preço: revogação do Código do Trabalho, fim da avaliação dos professores, fim das taxas moderadoras, entre outros aspectos. Enquanto socialista eu não estou disposto a pagar este preço. Prefiro ter menos votos em 2009, mas salvar as reformas que tanto custaram a fazer.
Alegre mostrou ainda o seu narcisismo ao ser incapaz de dar uma palavra de elogio e de apoio ao candidato ao Parlamento Europeu, Vital Moreira.
Se Alegre se sentir mais próximo dos que lutam com unhas e dentes contra o Tratado de Lisboa, então que anuncie a sua escolha. Mas, nessa altura um homem coerente abandona o Partido.
e-pá! disse…
Caro André:

A leitura de José Lello da entrevista concedida por M Alegre ao semanário Expresso é um acabado exemplo de dialéctica maniqueísta.
Tenta, como dizem os brasileiros, "enxugar gelo"!

M Alegre tem, sem subterfúgios, questionado a direcção do partido. Do que me é dado aperceber sem um fio condutor, i.e., atacando pontualmente políticas, nunca pondo em causa os pilares políticos partidários, que convém recordar, são os do socialismo democrático (para usar uma expressão histórica).
Mostra, antes, uma "sensibilidade" socialista apurada e exigente, em pormenores exacerbados, com manifestações públicas muito próximas do improviso, de uma deriva, na prática, inconsequente e inócua em questões de eficácia, mas enquadrada - sempre - por parâmetros éticos.
Nunca incoerente em termos de doutrina!
Nunca em marcha peregrina na direcção do BE ou PCP.

Manuel Alegre exerce, nos limites do possível e do tolerável (o que exaspera J. Lello e Vitalino Canas) uma peculiar e inflexível liberdade de pensar, de se exprimir e de agir (politicamente).

Não pactua com disciplinas partidárias por dá cá aquela palha!

Ninguém, politicamente com os pés assentes na Terra, pode considerar as taxas moderadoras (nomeadamente as do internamento e das cirurgias de ambulatório) uma "Reforma".
A criação de taxas (neste caso para um encapotado co-financiamento do SNS) é uma reforma retirada do modelo "tatcheriano" (semelhante à poll tax...)
Nunca foi, nem será, mais do que uma medida administrativa (vamos suspender o termo "reforma") fundamental, daquelas que se parecem irreversíveis, quando é o próprio grupo parlamentar do PS se propõe revê-la em 2010!
Então porque, adiamos a votação na marcada e, durante a semana, mobilizamos disciplinadamente o PS para estar em peso na AR a segurar as taxas (como estão...).
Em vez de um partido político este procedimentos mais parecem exercícios de ordem unida de um regimento militar!

Comparar M Alegre a Luís Filipe Menezes é, até para um reles cidadão não-militante do PS, simplesmente, insultuoso.

Mais facilmente compararia M Alegre a Salgado Zenha.
Há memória histórica desses tempos ou só remorsos?
E-Pá:
Comparar Manuel Alegre a Salgado Zenha é uma ofensa para uma das maiores referências históricas da democracia.
Dizer que Manuel Alegre se compara a Luís Filipe Meneses é talvez insultuoso para LFM. Este nunca disse que se candidataria à AR contra o seu partido, se houvesse candidaturas independentes.
Manuel Alegre tem direito às suas posições mas não tem o direito de chantagear o PS com as posições individuais e ao arrepio de qualquer estratégia. Pode pensar o que pensa (se pensa) mas deve fazê-lo fora do PS. Deve criar o seu partido sem ameaças, com uma luta franca e aberta, convencendo o eleitorado das suas ideias.
Na votação indigna do PS a favor da congratulação com a cura do olho da D. Guilhermina, onde um gesto de rebeldia se impunha, onde esteve Manuel Alegre? A apoiar o CDS ou ausente? Não vi o voto dele ao lado do PCP ou do BE, como se impunha.
e-pá! disse…
CE:

Muitos já fizeram o pouco que Alegre está a fazer...

Em 1980 Mário Soares na sequência da polémica em torno do apoio ou não à candidatura de Ramalho Eanes à Presidência da República, "auto-suspende-se" do PS, em colisão política com Zenha, cujas propostas, nesta questão, tiveram vencimento.
M Soares não se submete a uma posição partidária, institucuional e relevante, com reflexos na política nacional. Não se tratavam de "taxas moderadoras", nem de "avaliação de professores".
Em 1981, Mário Soares, regressa em força PS, move a Zenha um processo disciplinar...e leva ao seu afastamento em relação ao clã Soares e a um progressivo distanciamento e profunda discordância com a direcção do Partido.
Em 1986, novas eleições!
Salgado Zenha - entrega o cartão de militante - candidata-se contra Soares, com quem rompe definitivamente, quer na política quer nas relações pessoais.

Aliás, esta guerra intestina levou a que Zenha embora tenha mantido uma participação cívica nacional, mas autónoma em relação ao PS, que sendo fundador, abandonara. Depois das eleições - que perdeu - não foi levantar o cartão.
Só António Guterres, um amigo e um humanista que Zenha reconhece e aprecia - quase 10 anos depois - sugere-lhe o reingresso no PS, que não aceita, mantendo, com pesar, o estatuto de independente.
Em 1993, deixa-nos fisicamente e só, então, se começam a ouvir as mais disparres vozes no interior do PS, reabilitando-o, politicamente.
Por que nunca conseguiu atingi-lo no aspecto ético ou moral.

Hoje, os Lellos de então, choram lágrimas de crocodilo na campa de Zenha.

As semelhanças ou paridades do que está a acontecer agora com M Alegre e os acontecimentos de então 1980-90, são meras coincidencias.

Se o relativismo de confronto entre posições políticas visando M Alegre e LFM for baseado em interpretações de uma entrevista a um semanário, vejo que José Lello, ganha adeptos com a nóvel teoria da "falta de carácter"...
Alegre disponibilizou-se para participar - se acaso a arquitectura política constitucional o permitisse -"contra o status quo e a favor de uma renovação da democracia"...
Como a fez nas últimas presidenciais contra o candidato do PS.

Ou receamos um segundo round das últimas presidenciais.

Ninguém percebe a insistência dos homens do aparelho de que M Alegre deve criar o "seu" partido.
Ou, melhor, percebe-se. Pedem, subrepticiamente, a sua imolação na praça pública (não da canção, mas no pelolurinho das obdediências partidárias).
Estão a empurrá-lo pela borda fora...

M Alegre será um problema para o PS e, quiçá, uma mais valia para a Esquerda portuguesa.
Insanáveis contradições?

Ou, multiplas dialécticas da democracia representativa?
andrepereira disse…
Se calhar alguns preferiam voltar a 2004/2005 em que todos os dias se apregoava o fim do SNS, se inundavam as televisões com as enormes listas de espera para cirurgia, com os défices "inaceitáveis" dos hospitais públicos, com o exemplo virtuoso de gestão dos SA's e das clíncas privadas, ou ainda da miséria que era a escola pública, ou das maravilhas que vinhas dos colégiso católicos dos bairros finos de Lisboa... Pois - é-pa - não compreender o que este Governo fez pela Saúde e pela Educação nestes 4 anos é não compreender o verdadeiro papel da esquerda nos dias de hoje: ser o cimento da coesão social, ser a base da igualdade de oportunidades, ser o motor de um Estado fraterno quando estamos mais vulneráveis, no momento da doença. Agarrar-se à "espuma dos dias", às pequenas coisas do quotidiano para criticar uma obra golbal que se recuperou em 4 anos - como faz Alegre e seus sequazes - é não estar à altura da verdadeira nova esquerda. Os portugueses saberão distinguir o trogo do joio. José Sócrates encabeça um movimento muito amplo, popular e intelectual, com elites e com vanguardas e com a confiança do povo, para reestruturar um Estado Social à medida das nossas possibilidades.
Quanto às "taxas" para cirurgia - aconselho todos a reflectir sobre as taxas sobre exames complementares de diagóstico ou o pagamento do medicamento - em grande parte a cargo do cidadão-doente, e verão que esses taxas não são uma excepção no sistema global e que poderia bem ser mantidas. Até porque 5€ por dia, com o limite de €50 (salvo erro) não afectam gravemente os 5,5 milhões de portugueses que as poderão pagar. Porque os 4,5 milhões de isentos já não pagam nada.
E-Pá:

Não devo trazer para aqui várias razões que me levam a duvidar da dimensão política de Manuel Alegre.

Critiquei Soares, ao tempo, pelas mesmas razões que critico agora Alegre.

Estive com Lopes Cardoso que saiu do Partido, quando discordou.

Só gostava de saber onde estava Alegre durante o voto de congratulação pela canonização de D. Nuno.

Para mim, que não sou militante do PS, é mais importante a preservação do partido do que o narcisismo do militante.
e-pá! disse…
Caro André:

Não há - no que escrevi - qualquer indício, manifestação de vontade, ou intenção de regressar aos tempos de 2004/2005.
Se eu fosse J. Lello, diria que essa deriva seria um problema de carácter...
Da falta ou do excesso dele.

Mas considerar "as taxas moderadoras" - por insignificantes que sejam em termos de colecta, por estarem condicionadas aos valores dos rendimentos declarados, por representarem < de 1% do Orçamento da Saúde - uma reforma (!!!) é confundir o Bairro do Ingote com a favela da Rocinha.
Reforma, no meu singelo entender, é uma mudança estrutural, que altera profundamente as relações entre as pessoas e o meio que as rodeia.

O PS não necessita, para já de "reformas" no SNS.
Urgente é organizar melhor, tornar mais eficiente, controlar as despeas.
As reformas na saúde estão guardadas no portfólio da Direita, para virem a terreiro na altura propria.
Essa Reforma só será conseguida conseguirá com a conivência do PS, já que o SNS integra, como sabe melhor do que eu, o texto constitucional.

O facto de estarmos em pré-campanha não dá direito a deturpar o sentido das coisas. Muito menos a alterar-lhe o contexto.

Trabalhei desde o seu início no SNS. Estou conciente da imperiosa necessidade de defendê-lo.
Conto eu, e a grande maioria dos portugueses, com o PS para essa tarefa, já que como pode constatar, o cerco das instituições financeiras e seguradoras já começou.
Incluindo, nelas, um organismo público - HPP Hospitais Privados de Portugal (do grupo CGD) que deve - penso eu -receber instruções estratégicas do Governo.
Não é estranho?

Mensagens populares deste blogue

O Sr. Duarte Pio e o opúsculo

Coimbra - Igreja de Santa Cruz, 11-04-2017