Mário Soares analisa a viagem da Sr.ª Clinton

Com a lucidez e o saber que o caracterizam, Mário Soares analisa a estratégia de política externa da nova administração Obama.
A China e o Japão surgem como o primeiro destino porque são dois parceiros económicos e estratégicos da maior importância. As relações de cortesia e respeito entre estes países foram reforçadas e isso é bom para os anos que se avizinham.

Ao fim de algumas semanas de Obama-Clinton o mundo já desanuviou, respirou fundo e parece que esqueceu o incómodo, a visão assombrosa que o Sr. Bush transmitia.

Apesar de o mundo estar a atravessar uma grave crise finanaceira, económica, mas também ambiental, energética e de solidariedade global, todos parecem estar com outra atitude, sem as tensões que a figura desagradável do homem do Texas causava.

Só na velha Europa se mantém um impasse terrível: a falta de um orçamento digno desse nome, de um poder político e económico com base em Bruxelas vão tornar a Europa ainda mais desigual. Enquanto os mais ricos podem investir fortunas para alavancar as suas economias, os mais vulneráveis perdem o comboio da competitividade e do desenvolvimento.

O mercado único, sem um real orçamento compensatório de desenvolvimento regional, é um embuste que causará a desagregação da Europa a prazo.

Precisamos de mais Europa. E a três meses de eleições para o Parlamento Europeu, mais uma vez só Mário Soares parece lembrar-se disso.

Comentários

Rui Cascao disse…
Lucidez e saber sim, mas Mário Soares é um especialista em sintetizar factos notórios.
Rui Cascao disse…
Quanto à União Europeia, parece-me que nunca vai chegar a lado nenhum. Para além dos egoísmos e vaidades cada vez mais descarados dos vários Estados membros, de uma sociedades e economias preguiçosas, mimadas e indolentes, falta de consiência cívica, a Europa atravessa uma profunda crise de liderança. Os grandes passos da UE foram dados por pessoas com a craveira, o carisma e a dedicação de Delors e de Schuman. Na última década, na comissão europeia tivemos políticos de segunda água (Santer, Prodi, Barroso), sem brilho, sem faísca, líderes que, derrotados nos seus países de origem, foram escolhidos pelo Conselho precisamente pela sua falta de poder, de carisma, de base de apoio , em suma, presidentes da comissão maleáveis que possam ser fiéis relés de transmissão das decisões do Conselho e dos ditames da elite intergovernamental dominante. A nível dos estados membros, os grandes passos foram dados de mão dada por políticos que, ainda que de diferentes ideologias, se caracterizavam pelo seu brilho, pelo seu carisma e pela sua qualidade política: Adenauer, Brandt, Schmidt, Kohl, Mitterand, De Gaulle, Pompidou, Thatcher, Gozales, Soares, Andreotti, Craxi.
Quem temos hoje que se aproxime a estes? Gordon Brown? Sarkozy? Berlusconi? Merkl?

sic transit gloria europae...
e-pá! disse…
É preciso ser objectivo e reconhecer que existe uma abissal diferença entre os "Grandes Comissários" como Robert Schuman, Jacques Delors (não vejo mais...) e as soluções de compromisso que foram sendo encontradas, inventadas, urdidas e que desembocam no actual Durão Barroso.

Por outro lado a UE tem "prurido" nacionalistas em aceitar o federalismo.
Nem sequer promoveu uma discussão aberta e franca sobre esse tema.
Mais facilmente se discutem questões de preservação de autonomias, ou até mesmo de soberania, do que mecanismos de federação ou qualquer outro tipo de União de Estados.

Somos ainda muito a CEE e pouco UE, i.e., a abolição de barreiras de circulação de cidadãos, bens e produtos cujo resultado máximo foi a criação do Banco Central Europeu e a criação da Zona Euro (à custa da redução do deficit orçamental público) do que uma Federação de Estados, com uma política económica, social e internacional, minimanente concertada.
Para isso têm contribuído sucessivos desaires da Constituição Europeia, concebida por Giscard d’Estaing, e reprovada nalguns plebiscitos que se realizaram (a GB nem sequer tratou deste assunto...), logo seguida do impasse em que se transformou o Tratado de Lisboa que, contornando esse modelo plebiscitário, no único País onde não podia fazê-lo, quando escrutinado, soçobrou.
A paralisia está aí e provavelmente a comprometer a continuação de Barroso como presidente da Comissão.

Parecemos estar à boleia das decisões dos EUA em matéria financeira e no campo da Economia real para resolver a crise, como sublinha Soares, incapacitados concertar relações com as economias ditas "emergentes".

Em dificuldades no entrosamento europeu da qual para além de um limitadado "peso político", sempre fomos periféricos - quando não excluídos pela snob boutade "A Europa dos Pirinéus aos Urais" - os últimos dias mostraram-nos que, subitamente, redescobrimos África?.

Já foi assim no século XV quando viramos as costas à Europa do comercio mediterrânico, dominado por Veneza, e partimos para África, donde fomos obrigados a regressar já no século XX, depois de nova "arrumação" da Europa (e do Mundo), decorrente do final da II Grande Guerra, onde ( a esperteza saloia do ditador Salazar assim o quiz) primamos pela ausência ...

Quando não estamos ausentes ou estamos distraídos ou somos marginalizados...
Não participamos, nem enquanto europeus, nem como portugueses, nos importantes centros de decisão mundiais...

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