Opinião de leitor. Poiares – Praxes. Que fazer? (3)

As pessoas insistem em só ver o que de pior advém do ritual integrador que é a praxe!!
A praxe não é mutilar pessoas, humilhá-las ou fustigá-las corporalmente. Evidentemente que se pode brincar com o caloiro e com a colaboração dele.
A praxe serve essencialmente para integrar o novato. Uma razão entre várias outras, para um colega mais velho dirigir a palavra ao novato que anda autenticamente "às aranhas".
Nem todos os "caloiros" que chegam à Universidade são tão esclarecidos como o amigo Matarbustos". Muitos deles, se não tivessem sofrido as sevícias da praxe, faziam durante 5 anos o percurso casa-universidade, universidade-casa (do ponto de vista académico se calhar nem era mau...).
Nem todas as pessoas têm a mesma capacidade de inclusão em grupo, ou porque são demasiado tímidas ou ainda porque é a primeira vez que saem debaixo da saia da mãe e precisam de abrir os olhos, para potenciar as qualidades que têm!!Sei de experiência própria e de que me foi dado a conhecer enquanto estudante Universitário, que a integração do caloiro praxado é quase sempre positiva, são portanto excepção os abusos. Não nego que os haja e que devam ser punidos em sede própria, nos tribunais criminais, não é nos tribunais de praxe ou lá o que lhe chamam.
Os caloiros que colaboram na praxe, além de sedimentarem uma amizade entre eles fruto da cumplicidade dos esquemas de fuga à praxe, quer nas "sevicias" a que foram sujeitos pela praxe perduram por muito anos e cria laços muito fortes de amizade, a razão clara não a sei, apenas constato! Também o espírito de entreajuda entre colegas de universidade é melhor, sei-o e senti-o!
Frequentei demasiados anos a Universidade, vi de tudo, praxei e fui praxado, enquanto caloiro recusei-me a fazer tudo aquilo que atentou contra a minha reserva de valores, ou até porque não me apetecia e ponto final. Só entra na brincadeira da praxe quem quer, se for obrigado não é praxe é crime!! Se entrar na brincadeira e se por alguma razão não quiser continuar também pode e deve faze-lo, se não o deixarem já não é praxe é crime!!
Agora não se pode é chamar de praxe, ou deixar que meia duzia de animais se escudem na praxe para fazerem o que bem (mal??) entendem com os seus colegas mais novos e concidadãos!!Constato também que a maior parte dos auto-designados "anti-praxistas", costumam ser pessoas já por si com problemas de sociabilidade, quer por razões psicológicas, psiquiatras ou até "pseudo-intectualóides" (quem praxa é imbecil, quem não praxa é um Einstein em potência), outros de facto são anti-praxe, e muito bem, porque já não têm idade para andar a brincar com os filhos dos outros, têm os seus ou deveriam já ter (pelo menos idade para tal) ;)
Haverá ainda aqueles que não têm um espírito tão brincalhão e estão-se pouco marimbando para a praxe e muito bem, estão no direito deles.
No bairro onde fui criado havia praxe, quem chegava novo ao bairro e os miúdos que cresciam e queriam andar com os mais velhos eram praxados e tinham padrinhos ;) fui afilhado de um e padrinho de vários.
Na Universidade fui caloiro com padrinho e fui padrinho de vários (alguns até pediram quase de joelhos...!!).
Na republica onde vivi, fui praxado e eleito Mor (para quem não sabe o Mor é o representante da república com o exterior e regra geral o que trata das contas e tudo aquilo a que institucionalmente a república esteja ligada, depois de ratificado pelos "irmãos" repúblicos, costuma ser por antiguidade, na minha, enquanto lá estive era por sufrágio secreto e universal) no ano de caloiro de republica , praxei, sei que ainda se praxa e sei também que ainda hoje se comenta e se ri das praxes que fiz!!
P.s. ( de post scriptum): Na república que frequentei também havia elementos anti-praxistas, não havia a velha dicotomia bacoca de tese e antítese, praxistas e anti-praxistas, éramos pela síntese, éramos todos estudantes da Universidade de Coimbra!!
Relembro ainda a latinada " DURA PRAXIS SED PRAXIS" ;)
a) abreijos aeminienses - Seg Jun 04, 02:23:00 PM

Comentários

Anónimo disse…
servem estas linhas só para lhe agradecer o facto de dar o mesmo destaque ao contraditório.

com os melhores cumprimentos,

abreijos aeminienses
e-pá! disse…
Segundo depreendo da leitura dos 2 posts, tanto o leitor "matarbustos", como "abreijos aeminienses", viveram em repúblicas.
Todos vivemos (também vivi numa república...) a questão da praxe, nomeadamente, à volta da crise de 69, do "luto académico", etc. Perderam-se (melhor, passaram-se)muitas horas a discutir a praxe. Havia sempre (como é salutar) variadas correntes de opinião, desde os tradicionalistas, aos anti-tradicionalistas, os renovadores e os abolicionistas.
Nunca se chegou a nenhuma conclusão, mas a praxe, em muitas repúblicas, foi mudando, como que fosse traçando bissectrizes oriundas do longo debate.
No fundo, embora discordando da sua pura extinção, rejeitávamos o folclore, o revivalismo, a fanfarronice, a violência, etc.
Mas, todos, achávamos importante integrar os caloiros nas Escolas e, fundamental, inseri-los no movimento estudantil.
E, na prática, lá fomos procedendo como achávamos mais justo... como sempre foi hábito nas repúblicas quando não havia unanimidade.

Hoje, há uma nova realidade. Não há mais movimento estudantil.
A praxe, centenária, pode necessitar de ser justificada, de ser escrutinada.
Porque a necessidade de integração, a meu ver, permanece, apesar de substanciais alterações do "modus vivendi" dos estudantes.
Camarelli disse…
caro abreijos aeminienses

O que escrevi atrás centrava-se mais sobre a generalidade das praxes e resultou de um comentário (que agradeço ao Carlos Esperança ter aproveitado para post) a uma notícia particular. Quando falei de praxe académica, não pretendi ser exaustivo e se calhar errei por incompletude mas mantenho tudo o que disse. Assim, e porque o teu texto toca outros pontos de interesse, escrevo em resposta focando essencialmente as dissonâncias em prol de um debate profícuo.

Primeiro, concordo que a praxe seja um método de integração, mas quero sublinhar duas coisas que me parecem importantes e por vezes esquecidas:
(1) a praxe não é o único processo de integração nem necessariamente o melhor; há muitos estudantes que se integram em ambientes menos permeáveis à praxe como em grande parte das repúblicas actualmente mas não só; o próprio conceito de integração é diferente nestes meios pois quando se integra através da praxe, também se integra na praxe; a integração em geral é eficaz em ambos os meios e há sempre uma ou outra má experiência;
(2) a praxe também exclui; este ponto, que calculo não seja pacífico, reside na dificuldade de integrar pessoas que não gostam da praxe em meios praxistas; as tentativas de contrariar este problema acabam por ser emenda pior que o soneto porque é a fase em que se tenta demover o recém-chegado de não se declarar anti-praxe; é a fase mais delicada em que o caloiro é enfrentado com um série de ideias feitas de que os anti-praxes são anti-sociais, são infelizes e não têm amigos; tenta-se então vender a praxe como mal menor e a insistência costuma ser tal que o resultado é a ruptura e aí sim, começa a exclusão, até que o aluno descubra por si que há muita vida para lá da praxe académica;

O resultado dos dois pontos que foquei acima é uma divisão dos estudantes em dois grupos, os que admitem a praxe e os que a ela se opõem. Claro que os grupos não são estanques, nem se hostilizam como grupo, apenas preferem respirar ares diferentes. E nisto há lugares a amizades e paixões entre elementos dos dois grupos, a componente individual humana no seu esplendor. Mas também no pior: as fricções, os "mimos" e pontualmente a liça mancham a convivência estudantil.

Eu declarei-me anti-praxe a meio do primeiro ano, mas antes ainda estive integrado no conceito de praxe académica. A minha ruptura não foi bem aceite por algumas pessoas mas em geral os restantes colegas souberam respeitar as ligações entretanto geradas. Fi-lo por rejeitar no meu íntimo a me subjugar e ao facto de lidar mal com condutas arrogantes. Mesmo sendo brincadeira, tenho-as por mau gosto e causam-me azia. E note-se que eu sou muito sociável e até brincalhão. Com o tempo vem a maturação e hoje tenho uma visão muito mais consistentemente anti-praxista, que dificilmente será totalmente partilhada pelos novos estudantes que enfrentam essa problemática há pouco tempo.

Para terminar, que o texto já vai longo, quero só dizer que na república onde vivi (como em outras), a praxe dentro de casa não era tolerada, não só por respeito ao luto académico de 1969 mas também porque era considerado factor de exclusão. A única função do Mor (que era o mais antigo) era a prioridade em escolher para si um quarto na casa. Tudo o resto (tarefas, festas e tertúlias) eram trabalho comunitário, partilhado e sempre que possível, rotativo. As decisões nas reuniões eram tomadas por unanimidade e cada Conselho de Repúblicas exigia reunião de casa prévia para se falar a uma voz. Mas cada casa é uma casa, não há duas repúblicas iguais.

Cumprimentos,

Carlos Daniel (aka matarbustos)
Anónimo disse…
Acho uma aberração essa "coisa estúpida" das praxes, sejam mais leves ou mais exibicionistas.
Os caloiro deveriam ser recebidos com cortesia, delicadeza, mostando-lhes os Veteranos a sua nova casa, e proporcionar-lhes toda a informação, para que os caloiros se sentissem integrados.É tudo ao contrário, humilham e magoam; penso que a Vida Académica não se revê nestes actos perpretados por alguns energúmeos e energúmeas.
Será que alguns desses valentões ou valentonas, que humilham futuros colegas, gostariam de iniciar (só) um Curso de Operações Especiais em Lamego? Só ... para 2 semanas bastariam !!!.

Mensagens populares deste blogue

O Sr. Duarte Pio e o opúsculo

Coimbra - Igreja de Santa Cruz, 11-04-2017