O Parlamento e a canonização de D. Nuno
A Assembleia da República já foi o coração da democracia. Na última sexta-feira foi a sucursal da Conferência Episcopal. Deixou de ser Parlamento e passou a ser um charco de água benta onde a maioria dos deputados rubricou de joelhos o milagre que o Papa adjudicou a Nuno Álvares Pereira.
O PCP absteve-se e só o Bloco de Esquerda votou contra e teve a decência de censurar o CDS por querer pôr – e pôs – o Parlamento «de uma república laica a reconhecer a cura milagrosa das lesões do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, sofridas pelos salpicos do óleo de fritar o peixe, para o qual invocou a intercepção do beato Álvares Pereira».
Portugal não é um País, é um pântano onde medra a fé e a superstição, um protectorado do Vaticano onde faltam cidadãos e sobram crédulos, um sítio beato onde se treme com medo dos báculos, se ajoelha quando aparecem mitras e se afocinha à vista do anelão com ametista que ornamenta os dedos dos senhores bispos.
Que o CDS, nostálgico do salazarismo e da cumplicidade com a Igreja, proponha um voto de congratulação pela canonização de D. Nuno, compreende-se. Paulo Portas gosta de rastejar nas igrejas para mostrar aos eleitores que crê nas cambalhotas que o Sol deu na Cova da Iria, nas visões da Lúcia e no anjo que aterrou no anjódromo de Fátima.
Do Presidente da República, da sua débil cultura e do passado como primeiro-ministro, em que sancionou a censura d’O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, feito pelo sub-ajudante de ministro, Sousa Lara, podia esperar-se o indecoroso regozijo, em nome de Portugal, mas do PSD é um ultraje à decência. Estariam os senhores deputados convencidos de que o olho da D. Guilhermina foi curado por um acto de corrupção divina feito pelo defunto D. Nuno?
Mas o mais indigno dos partidos foi o PS. Um partido republicano, laico e socialista que rasgou a sua tradição e se tornou cúmplice de uma burla pueril, perdeu a referência ética que o faz respeitável e ajoelhou-se com a D. Matilde Sousa Franco e a D. Maria do Rosário Carneiro, ornamentos pios, para colaborar numa farsa e fazer coro com os que garantem que D. Nuno passou de Condestável a curandeiro.
Comentários
Excepcional texto!
Adenda:
O PS perdeu a soberana oportunidade de justificar, perante os portugueses e as portuguesas, da necessidade de uma maioria absoluta.
Era tê-la usado, nesta precisa altura, para manter neste País, pelo menos, a dignidade de continuar laico.
De fino recorte literário.
Verbero a minha indignação perante a vergonhosa atitude dos partidos democráticos, que sempre soube respeitar.Não posso aceitar a abstenção do PCP e o voto favorável do PS à proposta de um partido que se formou e desenvolveu em reacção ao 25 de Abril.
Com esta atitude, O PS e o PCP comprometeram a laicidade do Estado que dizem defender.
Aproveito, no entanto, a ocasião para felicitar o Carlos Esperança pelo seu excelente texto. Arrasador!
Acontece que os textos apareçam duplicados, com dois cliques.
Entretanto eu apaguei a duplicação, único caso em que apago um texto.
Eu comecei por admitir que o erro deveria ter sido meu. Só não sabia qual. Assim, a tua intervenção foi correcta e oportuna.
O CDS e o PSD fizeram o seu papel.
Do PC já era de esperar a abstenção, pois esse partido, que tem o descaramento de se declarar marxista, sempre teve o costume oportunista de se abster em coisas de religião, para não perder a sua clientela ignara. Evita sempre ofender os Srs. Bispos, e não perde nenhuma oportunidade de os elogiar e de com eles se aliar quando isso lhe convém; já aconteceu várias vezes.
Agora a atitude do PS é que é absolutamente inadmissível e indecente. É de um oportunismo nojento e ainda por cima ineficaz,pois não ganha voto nenhum à direita e perde muitos à esquerda. Foi isso que aconteceu em Coimbra nas últimas eleições legislativas, em que o PS teve a "esperteza saloia" de nos querer impingir como cabeça de lista a muito pia Dr.ª Matilde Sousa Franco, o que teve como resultado que Coimbra foi o círculo onde o PS menos subiu e o Bloco de Esquerda mais subiu (à custa, evidentemente, da tontice do PS).
Resta-me aplaudir, sem reservas, a coerência do Bloco de Esquerda.