O cinismo…

Na verdade, o debate orçamental decorreu com muitos acintes e navegou demasiado pela “pequena política”.
Este é, tão-somente, o resultado da profunda crispação do ambiente político.
Para além de crispado o debate revelou profundas desconfianças na relação entre as instituições democráticas, no caso vertente, Governo/Assembleia da República, o que será mais grave.
As forças políticas partidárias representadas no Parlamento, não se eximiram a lançar ameaças, reptos e insinuações que, sejamos claros, pouco ou nada contribuíram para uma boa discussão da proposta orçamental. Incidiram sob obscuros propósitos tácticos que nada adiantaram para a discussão. Como o povo diz: “muita parra e pouca uva”.

Surpreendentemente, surge na imprensa a notícia que o Presidente da República criticou [no twitter] o “desprestígio da classe política” link

Com este remoque Cavaco Silva pretende colocar-se acima da chamada “classe política”. Não conseguiu - ao longo de quase 30 anos de actividade política que leva no activo - integrar-se no ambiente político nacional, ter a capacidade de compreendê-lo, preferindo prosseguir um caminho de total distanciamento da realidade, teimando em situar-se no domínio do absurdo e do insensato.

No passado, teve a prosápia de considerar-se uma “avis rara” da auto-suficiência e da arrogância do tipo “nunca me engano ou raramente tenho dúvidas...” , ou quando confrontado pelas forças políticas lançar para o ar jactâncias do tipo “deixem-me trabalhar…”. Pior, teve a ousadia de considerar seus opositores como “forças de bloqueio”.

Mas, no seu desbragado "twittar", foi mais longe...
Criticou a “a impaciência com que os cidadãos assistem a alguns debates…” . Ou, na verdade, a situação é grave – foi há pouco tempo considerada pelo intempestivo "twittador" como “insustentável” – e, perante as delongas em encontrar soluções, a verberada impaciência dos cidadãos é um comportamento reactivo humano coerente e saudável ou, então, a situação política e económica portuguesa está a ser teatralizada e, sendo uma representação, não deve ser levada a sério.
Lançar anátemas contra a generalidade os cidadãos sobre comportamentos verdadeiros e justificados será mera petulância política. Facto que também contribui para os desprestígio da “classe política”.

E as suas considerações relativas ao citado debate parlamentar fecham com chave de ouro: “a actuação do Presidente da República não pode contribuir para o espectáculo público de cinismo ou de agressividade”.

Não pode, não devia, mas já contribuiu…

Quem de facto e de direito devia queixar-se do cinismo são os cidadãos – os sofredores.
A não ser que ao mencionar o cinismo, Cavaco Silva pretendesse evocar Sócrates, fundador dessa corrente filosófica... [o filósofo grego – não o 1º ministro!].

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