O perene ciclo das roças ou a atracção pelas soluções imperfeitas…
Na sequência do acordo PSD/Governo sobre as medidas de austeridade do OE 2011, as yelds [juros] das obrigações do Tesouro a 10 anos, hoje, na abertura dos mercados […o feriado é português] situavam-se nos 5.932%, i. e., existia um ligeira tendência de descida. Mas, também, hoje, durante o evoluir do dia, os mesmos juros voltaram a agravar-se e atingiram os 6.034%, demonstrando que os mercados financeiros percepcionam um aumento de risco para o nosso País.Na verdade, temos de reconhecer que os acordos não podem ser filhos de pressões. Figuras de [mau] recorte político para “inglês ver”. Ou são o resultado de consensos político-sociais alargados, de planos estratégicos para o desenvolvimento económico mobilizadores dos parceiros sociais ou, os mercados que não são realidades cegas ou abstractas, percepcionam – de imediato – os malabarismos políticos.
De facto, os agentes de notação [os “olheiros” desses mercados] sabem que a Economia nacional corre um elevado risco de entrar em recessão, o tecido empresarial estará condenado a mais uma catadupa de falências e encerramentos e, em resultado disso, o desemprego disparará para níveis socialmente intoleráveis.
Sabem, também, que podemos andar orçamentalmente muito arrumados, muito cumpridores das percentagens impostas pela UE, mas se não tivermos capacidade de promover o crescimento económico [para o qual é indispensável o financiamento dos mercados], se não conseguirmos exportar mais, dificilmente reuniremos condições para cumprir o serviço da dívida.
Estas técnicas são bem conhecidas por cá. Fazem parte do nosso acervo colonial.
As roças de café [no Brasil e em África] empregavam muitos trabalhadores [famílias inteiras] aos quais impunham um ritmo de produção alucinante. Como se diria hoje conseguiam face às condições instaladas uma boa produtividade. Depois, isolando esses trabalhadores do Mundo [confinados a viver no “barracão”], obrigavam-nos a comprar os géneros e artigos de sobrevivência na cantina da roça. Ao preço discricionário do dono da cantina que, por inacreditável coincidência, era o proprietário da roça. Mesmo trabalhando de sol a sol, cada mês que passava, a dívida dos assalariados, paulatinamente, aumentava…
É hoje notório que mesmo as melhores soluções orçamentais estão longe de chegar na resolução dos problemas económicos, financeiros e sociais do País.
Quando muito acalmarão a agitação da Senhora Merkel para com os “incumpridores”.
Mas, indiferentes aos sossegos das locomotivas da UE, os mercados [que andam por aí…] continuarão agitados, inquietos e descrentes.
Portanto, não chegando o controlo orçamental para enfrentar a crise [a reactividade dos mercados hoje mostrou “isso mesmo”] porque razão as forças políticas e sociais nacionais entraram num delicioso dolce fare niente deixando o a construção um pacto de crescimento económico nacional para as calendas gregas, ou para o FMI?
Não querem perturbar o processo eleitoral [presidencial] em curso?
É que cada dia que passa, sem melhores soluções do que as acordadas restrições orçamentais , saí caro aos portugueses, nos mercados, nos impostos, nas já difíceis condições de vida.
De nada adianta poupar em outdoors…, quando sentimos que austeridade só gera mais austeridade, quando o necessário financiamento da economia está a fugir do nosso alcance [juros incomportáveis] e quando os nossos parceiros [europeus e do "Ocidente"], nos julgam [sem terem a coragem de o publicamente afirmar] insolventes.
Esta é a lição dos mercados no dia 01.11.2010 - nostalgicamente - também conhecido pelo "Dia dos Finados"...
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