1.º de dezembro - Crónica da Memória
Hoje, no feriado histórico e identitário que o analfabetismo e a indigência mental dos governantes extinguiram, os antigos estudantes da Guarda reuniram-se, como todos os anos, para confraternizar. A greve da CP impediu-me de estar presente.
Deixo aqui um texto, longo, para os leitores que tiverem paciência para ver pelos meus olhos a reunião do ano 2.000 da era vulgar.
1.º de Dezembro de 2000 – Crónica da saudade
Ainda mal refeito do sobressalto emocional provocado pelo regresso ao convívio de velhos amigos – alguns perdidos há mais de 40 anos – eis que me debruço sobre o teclado à procura das letras que teimam em esconder-se de quem não domina as novas tecnologias nem alguma vez se exercitou na arte da dactilografia.
Não sei se é um manifesto ou um desabafo que aqui começa. Um ensaio não será certamente.
Fui à Guarda neste 1.º de Dezembro que encerra o século e o milénio. Lá estava à hora canónica em que começava a missa junto à Sé. Não me atrevi a entrar para não ruborizar os ícones com o meu impenitente ateísmo mas, à míngua das orações esquecidas, sobraram-me as recordações. Lembrei a minha última confissão que ali teve lugar e em que tive de negociar a absolvição com um padre que, face às dúvidas metafísicas que me dilaceravam, ameaçava negar-ma enquanto, poucos metros atrás de mim, o Dr. Ramalho rezava. Já não era a salvação da alma que me apoquentava mas o medo da piedosa vingança do meu professor que me atormentava. Lá recorri para o confessor da insólita decisão de negar a absolvição a quem não tinha idade para grandes pecados. Valeu-me a promessa de abandonar as dúvidas e rezar um ror de padre-nossos e ave-marias de penitência com que fui condenado, pena que o bom senso e o entendimento me libertariam de cumprir.
Foi assim que decidi nunca mais assistir a uma missa do padre Isidro cuja parenética sendo pobre para a inteligência era suculenta para a alma. Recordei com saudade este sacerdote cuja intolerância sempre atribuí à míngua dos dois primeiros dons do Espírito Santo, a sabedoria e o entendimento, enquanto os dois últimos – piedade e temor de Deus – abundantemente o exornavam.
Lembrei-me tanto da missa de um 1.º de Dezembro a que assisti fardado da Mocidade em meados da década de 50. Fazia um frio danado. Um condiscípulo mais velho, da milícia, à elevação da hóstia, deixou cair a arma quando a manejava. Lembrei as imprecações do sargento Marcolino, o vernáculo prolixo e rigoroso com que invectivou o desgraçado, as interjeições obscenas que restituíram ao cálice e à patena o fulgor perdido na queda da arma.
E lá iam aparecendo dezenas de velhos amigos que se abraçavam comovidamente. E, no fundo, participávamos todos num ritual bem ao gosto da nossa adolescência – o santo sacrifício da saída da missa. Mesmo aqueles a quem a idade fez esquecer as razões do ritual ali estavam a aguardar as raparigas do nosso tempo.
Partimos depois, em procissão profana, para o velho liceu. Lá estavam ainda as vitrinas onde se afixavam as pautas em que o vermelho era a cor que mais as decorava. Transposta a porta onde o Sr. Almeida era o contínuo que se cumprimentava com o respeito que a todos os superiores era devido, lá estava à direita a sineta que nos encaminhava para as aulas e delas nos libertava 50 minutos depois.
Dezenas e dezenas de bestas de várias gerações – afectuosa designação com que o Zé Vilhena nos mimoseava –, ali estávamos enternecidos a olhar ainda com medo para a Reitoria que vários e hediondos reitores ocuparam. No chão ainda permanecia aquele risco que vedava às meninas a saída e aos rapazes a entrada, barreira intransponível que a defesa da castidade impunha e a imaginação devassava. E lá íamos olhando para as salas onde o António Pinto, o Pacheco e a Lucília fingiam que sabiam ensinar, onde o Bonito Perfeito ensinava mesmo antes de virar reitor e ser tão mau ou pior que o Rabaça, o Carlos Costa inspirava temor e simpatia e a Ofélia só temor.
Olhámos uma última vez para os corredores por onde passavam os contínuos a anunciar em todas as turmas os castigos que o conselho escolar tinha distribuído – as repreensões, as suspensões e as expulsões, estas últimas que distinguiram o Guimarães e o Quintela que, há muito, nos deixaram.
Estava apaziguada a memória. A indulgência do tempo tinha perdoado a inclemência dos tempos. A liberdade de hoje é generosa para a repressão do passado. Os homens e mulheres livres não esquecem mas perdoam. Para penitência têm os algozes a eternidade em que nos precederam.
Mas penso que é na repressão que nos fustigou, na violência reaccionária que a escola, a igreja, a sociedade e, até, a família, reflexo da ditadura que então a todos oprimiu, que os antigos estudantes da Guarda mergulham as raízes duma fraterna solidariedade e duma tão profunda amizade que liga vária gerações, percorre todos os estratos sociais e sobrevive a todas as transformações. O cativeiro é o habitat que funciona como húmus que tonifica os afectos que perduram uma vida.
Por mim o dia estava cumprido. Das muitas vezes que regressei à Guarda esta foi a primeira que percorri tão longamente os caminhos da memória.
A vida é um caminho de sentido único que se percorre de Eros a Tanatos. Neste Dezembro mês todos fizemos em contra mão o percurso inverso em busca dos afectos, sabendo que muitos dos amigos saltaram fora da estrada nas curvas do destino. A esses fomos chorá-los, aos outros fomos abraçá-los ou saber deles. Aos primeiros fomos encontrá-los na memória, Pedros Evangelistas, que encontrámos nas palavras ternas e emocionadas do Tó Zé Dias de Almeida, no naco de comovente poesia que exornava o programa das festividades. Não andavam por ali eles que tanto gostariam de estar, mas estiveram na comovida memória de quem sabe que a vida é o conjunto de afectos que sabemos preservar.
Faltou na liturgia do reencontro a homilia que o momento exigia, alguém que evocasse o passado para ajudar a compreender o momento ímpar que vivemos, um oficiante que pontuasse com palavras os sentimentos profundos que nos sufocavam, alguém que explicasse aos companheiros/as e filhos/as a razão profunda das tumultuosas emoções vividas num reencontro tecido com os fios do afecto no pano da memória.
Pouco importam as vitualhas que defraudaram os sabores da memória. Pior foi a falta de espaço para circular os braços ao encontro doutros braços que nos aguardavam. Faltou o microfone aberto para que cada um se apresentasse, um palanque onde levássemos o Eduardo – Bardino para os amigos – renascido das moléstias que o apoquentam, solto para o humor de sempre e o Carlos Meia-Leca, referência afectiva de várias gerações, paradigma da Guarda que revisitámos.
Urge repensar o formato destes encontros que nos reconfortam, encontrar um espaço disponível para quem é duro de ouvido ou prefira o convívio de amigos aos fados de Coimbra, é de espaço, do enorme espaço da dimensão dos afectos que nos povoam, que precisaremos no próximo reencontro.
Ir à Guarda representa uma enorme carga emocional, não é ritual que possa banalizar-se. Por isso, sugiro o espaço dum lustro para repetir a experiência. Ao ano 2000 devem seguir-se os anos 2005, 2010 e, assim, sucessivamente.
Os anos intermédios devem continuar a ser comemorados, como sempre, em Lisboa, Porto e Coimbra. A chama não morre enquanto o calor dos nossos corações a atear. Enquanto vivermos.
Aqui deixo estas reflexões à consideração de todos a quem abraço afectuosa e comovidamente.
Coimbra, 3 de Dezembro de 2000-12-03 *** Carlos Esperança
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