A demissão de Miguel Macedo (MM), a ética e os elogios fúnebres

Em Portugal é proibido dizer mal do morto. Um governante que se demita tem direito a benzina para desencardir as piores nódoas, por mais numerosas que sejam.

A demissão de Miguel Macedo, contrariamente ao que dizem os panegiristas de serviço, até Sócrates, não foi o ato de dignidade que disfarça a insustentabilidade no cargo, que só o PM, a quem entregaram o barco, sem carta de marear, não percebeu.

O MAI não foi o paradigma da ética, foi uma fera cercada no beco, que saltou o muro, o náufrago que demorou três dias a refletir, a pedido do comandante, para entrar no salva-vidas, embora o vice-PM, os ministros da Educação, MNE, Justiça e Defesa continuem a tocar violino num Titanic onde o timoneiro, com mais jeito para a música do que para a navegação, trocou o leme pelo piano. E onde o faroleiro não larga qualquer bemol ou sustenido na orquestra desfeita, talvez inibido por ameaça de um qualquer bequadro.

Depois de desencadeado o processo e rebentar o escândalo MM não podia manter-se.

Não podia manter-se, quando o principal suspeito é um seu antigo colaborador, quando secretário de Estado da Justiça, e cuja filha, então sua adjunta, e igualmente arguida e é sócia na sociedade «JMF - Projects & Business», firma que têm com Marques Mendes e onde este “Não fui a nenhuma reunião, não fui convocado para nenhum encontro, não auferi um único euro desde 2011…(…)…até julgava que estava ‘desativada’», como se uma empresa pudesse ser desativada sem a participação de todos os sócios, pormenor que escapa a quem ignora o direito comercial e se habituou a trabalhar ‘pro bono’ como Passos Coelho na empresa Tecnoforma e na ONG/CPC.

Não podia manter-se após a nomeação veloz do chefe de gabinete do ex-secretário-geral do SIS, desembargador Antero Luís, para oficial de ligação na Argélia enquanto adiava um processo da nomeação para Pequim, considerado urgente pelo próprio Governo.

Não podia manter-se, depois de se saber que recebia subsídio de alojamento passando a semana em casa própria na capital.

Não podia manter-se, não porque o seu secretário de Estado, Juvenal Peneda, tivesse de demitir-se por causa dos swaps, por ser útil acusar o PS, ou porque o seu diretor-geral de Equipamentos e Infraestruturas tivesse ido diretamente para a cadeia, acusado de corrupção, mas por ter ido a Espanha, acompanhado do supracitado António Figueiredo, presidente do Instituto dos Registos e Notariado (IRN), e reunir-se com um chinês, ora preso, e pedir bilhetes da Champions para ele.

Não podia manter-se o antigo militante da JSD e ex-secretário de Estado da Juventude de Cavaco Silva, após a primeira maioria absoluta do PM, cuja simpatia levou à eleição de tantas associações de estudantes afetas ao PSD, não porque tivesse no currículo algo infamante mas porque politicamente foi vítima de acasos circunstanciais que o tornaram impróprio para consumo político.

Só não vejo motivos para elogios, salvo se a praxe manda que os elogios fúnebres sejam obrigatórios, quando se justifica uma  Missa de Réquiem pelo Governo.

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