O ‘vaudeville' [político] não paga taxas, nem taxinhas…

Pires de Lima, ministro da Economia, ontem, no parlamento terá – segundo alguma imprensa – sido protagonista de uma insólita picardia. Foi a sua clownesca representação sobre ‘taxas’ e ‘taxinhas’ link que endereçou a um presumível ‘transviado’, António Costa, por sinal não presente na plateia (não exerce funções parlamentares).

Numa dicção ao estilo de Vítor Gaspar, uma fraca ‘imitação’ e um verdadeiro ‘inconseguimento’ quanto ao pretendido efeito ‘irónico’, não tinha pretensões líricas ou teatrais visando simplesmente escamotear a realidade.
Disse: “Só espero que, depois de termos [Governo] resistido ao aumento de taxas, que a Administração Local, aqui na zona de Lisboa, liderada pelo autarca, que é também candidato a primeiro-ministro, o doutor António Costa, quando apresentar o Orçamento da Câmara de Lisboa para 2015, tenha o mesmo poder para resistir às tentações que teve o Governo”.
Esta tirada, ou se quisermos, esta ‘deixa’, revela vários entorses, lapsos e omissões.
Primeiro, o Governo não resistitu a nada. O Ministro contenta-se com a evicção momentânea de taxas nas bebidas  (uma área onde a resistência ministerial será mais feroz por razões profissionais) mas 'esqueceu-se' das taxas e taxinhas da ‘fiscalidade verde’, sobre os combustíveis, sacos plásticos e um rol de outros produtos… link.

Depois, a 'clownesca boutade' revela as secretas tentações (intenções) que têm ‘possuído’ este Governo. Ficamos a saber que o Governo esteve tentado em fustigar os portugueses com mais taxas e 'taxinhas'. O incansável economista tinha em mente, portanto, salientar o papel moderador do seu partido na construção do OE 2015. Mas, os portugueses conhecem os comportamentos humanos perante as tentações rotulando que ‘a carne é fraca’ e, portanto, mais valia o ministro ficar quieto e calado nos bastidores e não fazer predições à mão, isto é, antes de vermos os orçamentos rectificativos que estarão na calha.

Um Governo que, no Parlamento, em vez de defender a sua proposta de Orçamento resolve tentar parodiar sobre uma indefinida e duvidosa ‘taxa de dormida’ a ser discutida numa das Câmaras do País, só porque o seu presidente é candidato eleito pelo seu partido a primeiro-ministro, não é exactamente um Governo em funções, mas algo que já se bandeou para a oposição (mais uma vez sem anunciá-lo aos portugueses).

Ontem, AR, tivemos direito a um momento de ‘política de vaudeville’. A um ébrio momento que mostrou como a pretensão de entretenimento pode descambar no mais inconveniente [e obsceno] ridículo.  Não conseguiu o escárnio, ficando-se pela uma tosca prestação do maldizer.

Declaração de interesses: Não defendo a "taxa de dormidas". Vivo em Coimbra e - enquanto não existir descentralização/regionalização administrativa - como qualquer 'provinciano' que, frequentemente, necessita de deslocar-se à capital do ex-Império para tratar de assuntos burocráticos, administrativos ou pessoais, nunca aceitarei ser (sobre)'taxado'.

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