A Europa, a política e a geoestratégia

Quando o Pacto de Varsóvia se desmembrou, a NATO, organização que não demonizo, apesar de ter acolhido a ditadura portuguesa, não devia ter insistido na criação de bases destinadas a cercar, humilhar e provocar a Federação Russa.

A Europa, que viveu sob o guarda-chuva da Nato, sem necessidade de esbanjar os seus recursos em armamento, tinha então o dever de se opor a essa política e de se tornar um parceiro privilegiado da Ásia, através da Rússia, de que é o prolongamento ocidental.

Quando o islamismo entrou em convulsões demenciais na Federação Russa, esta devia ter merecido a solidariedade europeia e não o silencioso regozijo euroamericano. Agora, criados anticorpos graças à Ucrânia, ajudámos a aliança militar sino-russa. Os EUA, que da Europa só conhecem o Reino Unido, negoceiam diretamente em Pequim com os dois gigantes, enquanto a Europa se reduz à jangada ligada à Rússia pela conduta do gás.

Os responsáveis por esta cegueira são verdadeiros antieuropeístas. O pragmatismo deu lugar ao confronto e a subserviência aos EUA empenhou o futuro europeu, enquanto o federalismo que podia fazer da Europa um parceiro credível foi substituído pelo agitado alfobre de nacionalismos que a pulverizam e transformam na manta de retalhos onde as armas voltarão a redesenhar fronteiras ao serviço da fé, de pretensas etnias e velhos ódios.

Tolstoi e Dostoievski uniram-nos, os EUA e os dirigentes da U. E. separaram-nos.

Comentários

e-pá! disse…
Na verdade a Federação Russa, após o fim dos blocos político-militares, veio a colocar-se no centro de uma outra conflituosa vertente: a energética.
O desaparecimento do bloco soviético deu origem ao surgimento de uma potência energética (gás e petróleo) facto que, após as convulsões de transição, lhe veio a conferir enorme influência no contexto internacional.
É nestes novos equilíbrios, ainda instáveis, que poderão estar algumas das razões da continuidade e expansão da NATO e a ‘justificação’ dos recentes conflitos na Ucrânia.
A mundialização decorrente do desmembramento soviético não diluiu, nem ultrapassou, pretensões hegemónicas. A actual crise na Europa Oriental poderá ser um dos indícios de que o Ocidente está desesperadamente a perder a guerra embora, de momento, possa averbar pírricas vitórias em, pouco estratégicas, batalhas, declaradamente circunstanciais.
Não é difícil adivinhar quem lucrará com estes erros políticos e estas desastrosas estratégias. Uma coisa parece certa. No final, a Europa acabará ensanduichada e perdedora.

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