O PR e a condecoração a Durão Barroso

Cavaco manteve o silêncio perante o drama dos portugueses desempregados e não disse uma palavra de censura durante sucessivos escândalos, desde a SLN/BPN ao GES/BES, talvez amargurado com a vergonha que atinge velhos amigos e correligionários. Com a funesta governação, de que é fiador e único sustentáculo, e com as inéditas disfunções institucionais, de que é suposto ser o guardião, finge-se morto ou em retiro espiritual no eremitério de Belém, para emergir do torpor na cerimónia de homenagem a Barroso.

Espantou a urgência da imposição da venera no ilustre peito lusitano de Durão Barroso, em ambiente de despedida de dois antigos cúmplices e o sonho da candidatura vitoriosa do laureado a PR. Faltaram sonantes adereços, uns ainda receosos das investigações do Ministério Público, outros por não acreditarem na sobrevivência política dos figurantes.

Foi em casa do casal Ricardo Salgado, e a convite deste, que o casal Barroso e o casal Marcelo persuadiram Cavaco, acompanhado da omnipresente consorte, a candidatar-se, pela primeira vez, à presidência da República. Foi ali, durante um opíparo banquete, que o atual PR, cujas funções se desejavam desempenhadas com dignidade, viu a estrada de Damasco que o levaria a Belém por igual período ao que usufruiu S. Bento.

Naquela cerimónia não houve festa pelo desempenho glorioso do homenageado, houve um ritual que se nega aos adversários mas se encomenda para os amigos. Havia a face a limpar  ao presidente cessante da Comissão Europeia que, com um séquito numeroso, se viu a discursar para 20% dos deputados no Parlamento Europeu, percentagem ofensiva que revelou a apatia perante um presidente que terminou refém dos interesses próprios e enredado em contradições de quem, querendo agradar a todos, se arrumou no regaço da senhora Merkel.

O PR, referindo-se à venera, onde muitos viram a benzina com que pretendeu limpar as nódoas do passado de Barroso, afirmou que era uma «justíssima homenagem» a alguém que «muito beneficiou Portugal». Na cerimónia de retribuição ao apoio à sua própria candidatura, agora, sem os casais Marcelo e Ricardo Salgado, e sem banquete, Barroso agradeceu, sublinhando que aquele «reconhecimento» de Portugal significava que «foi correta a decisão» de ter deixado o País e o Governo, em que era PM, em 2004, na fuga para Bruxelas e, numa manifestação de sublime hipocrisia, afirmou: «Esteve sempre em mim, ao longo destes dez anos, a convicção de que estava a executar um programa português».

Esqueceram, o PR e o condecorado, que a evasão para Bruxelas e o apoio à invasão do Iraque, este último na origem do lugar que ocupou, foram julgados pelos portugueses em 2005, na mais estrondosa derrota do PSD, por interposto Santana Lopes.

Resta dizer que, a ser verdade que Durão Barroso «muito beneficiou Portugal», quando a opinião geral é que prejudicou a Europa, o PR elogiou um crime contra os países que preteriu.  E se o próprio Barroso «tinha a convicção  de que estava também a executar um programa português», significa que deliberadamente traiu a isenção que as funções lhe impunham. Tais afirmações lançam a dúvida se se tratou da apoteose da degradação ética ou de uma refinada manifestação de hipocrisia pré-eleitoral.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

e-pá! disse…
"...lançam a dúvida se se tratou da apoteose da degradação ética ou de uma refinada manifestação de hipocrisia pré-eleitoral."
Restam poucas, ou nenhumas, dúvidas. A condecoração foi ambas as coisas: a degradação ética a alcandorar-se à presidência da República.
Portanto, no que diz respeito à República - ou ao 'espírito republicano' - estamos falados...
Fica por esclarecer qual o destino a dar a um outro "espírito" - o "santo" - mas não causaria admiração se fosse o próximo ente a ser condecorado por Belém...

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