Epílogo (provisório) sobre o preso n.º 44

A convicção na força dos indícios contra Sócrates não pode deixar de fortalecer-se com as medidas de coação tomadas. Espero que os juízes que o julgarem não partilhem esta convicção, mas não podem deixar de existir factos, aparentemente, gravíssimos.

Desejar que alguém, seja quem for, fique impune, não é defender o Estado de direito, é aprofundar o pântano em que mergulhámos, ainda que o entusiasmo na sua perseguição possa ser seletivo, segundo estados de alma ou tendências políticas a que os magistrados também não são alheios.

A euforia que os chacais sentiram não é culpa da Justiça, é o ódio acumulado por gente da direita que não esconde a euforia de verem preso um que não é dos seus e querem a condenação, não por motivos delituosos, mas por razões políticas. São os mesmos que subscrevem abaixo-assinados para impedirem a visão política dos adversários, os que querem ignorar as estrelas brilhantes do firmamento da direita a contas com a Justiça.

Quem combate a liberdade de expressão não é digno de gozar a liberdade que o Estado de direito permite, tal como quem reclama a absolvição dos amigos e a condenação dos adversários. A política discute-se no campo das ideias e as suspeitas esclarecem-se nos tribunais. O combate contra a corrupção é uma tarefa coletiva que deve mobilizar todos os cidadãos, não contra quem aplica a justiça, sem deixar de fazer o seu escrutínio, mas contra quem não é aplicada.

Há, de facto, uma razão de perplexidade neste processo, fruto de coincidências suspeitas e de ser considerado mais perigosa à investigação a prisão domiciliária de um ex-PM do que a de um banqueiro em cuja casa nasceu a primeira candidatura do atual PR.

É pena que nunca venhamos a saber como foram compradas e vendidas ações da SLN, qual a forma de pagamento, e quem aconselhou o lucrativo negócio, mas isso não isenta ilícitos alheios nem serve de desculpa para inquirições a quem não goza de imunidade.

Esperando que a Justiça se faça, e até à data, salvo as perplexidades que o tempo talvez esclareça, está a ser feita, confiamos que os numerosos crimes que destruíram a imagem e o futuro dos portugueses não fiquem impunes. Sem vingança nem parcialidade.

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