O PR e a magistratura de influência

Gostava que Cavaco Silva terminasse o mandato com dignidade e também que o tivesse assim desempenhado. Talvez um dia se saiba o que o tolhe ou o que o determina quando aparece a fazer prova de vida e, sobretudo, se as pessoas que fizeram de Passos Coelho PM, são capazes de influenciar as suas decisões.

Em Julho de 2013, Cavaco admitia convocar eleições antecipadas para um ano depois, coincidindo com o fim do memorando de entendimento, na ilusória tentativa de salvar o PSD e liquidar o PS, numa aparente decisão de iniciativa própria e sem pressões alheias.

Agora, numa entrevista agendada no Expresso, manifesta intransigência, na sequência da proclamação feita por Passos Coelho. Não se interessa pelo calendário do Orçamento de Estado, que devia ser discutido na AR quando as eleições decorrem, segue apenas os interesses declarados pelo PSD. O país pode esperar, a degradação ética e política do Governo pode prolongar-se, Passos serve perfeitamente para continuar PM e Portas para prolongar o turismo político.

Se não bastasse esta posição, aparentemente disfuncional, a ameaça de não dar posse a um Governo minoritário, numa implacável coação para manter o PSD próximo do pote que esvaziou, é uma intromissão na luta partidária onde pretende ainda influir. O canto do cisne pode prolongar-se pelo ano de 2016 com o garante do regular funcionamento das instituições a ensaiar o seu bloqueio.

Hoje, quando cerca de 80% dos portugueses, a acreditar nas sondagens, veem Cavaco como o problema maior do regime, poucos esperam dele qualquer solução, mas não se adivinhava o seu empenho em perturbá-la.

A pior maioria e o pior Governo pós 25 de Abril serão inexoravelmente corridos, mas o pior PR fica ainda a completar a década trágica da presidência à moda de Boliqueime.

Comentários

«Bom senso está ausente ao mais alto nível» (Ferro Rodrigues, líder parlamentar do PS)

«Há muito que Cavaco Silva é um agende de suporte e apoio à ação de um governo à margem da lei» (Jorge Cordeiro, membro do Secretariado e da Comissão Política do PCP)
e-pá! disse…
A entrevista de Cavaco publicada esta semana no Expresso é uma mal disfarçada feira de servilismo. Uma escabrosa tenda que foi montada em Belém.

A imagem de um PR manietado por um partido político é arrepiante.
Em determinados dias o OE é um instrumento fundamental para a administração do País, noutros tanto faz. Ficamos sem saber se o que interessa é a Lei, ou se ficamos pelos 'pontos finais' que quis colocar não aos partidos da Oposição mas ao País (que não terá oportunidade de o julgar)...

Vamos ver qual a justificação que este Presidente dará quando for (mais uma vez) obrigado, pelo PSD, a solicitar a verificação preventiva da constitucionalidade de diplomas governamentais, com incidência orçamental, invocando o pretexto para não atrasar a entrada em vigor do OE.

A supracitada entrevista faz-nos recordar uma bonita canção de Chico Buarque:

"Apesar de Você"

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

...
Manuel Galvão disse…
Uma maioria, um presidente, um banco... (já vai em dois bancos...). A excelência da Gestão Privada.

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