A guerra civil de Espanha

Hoje, 18 de Julho, completam-se 70 anos sobre o golpe de Estado que ensanguentou a Espanha e que, de algum modo, iniciou a carnificina que o nazi/fascismo prolongaria até 8 de Maio de 1945.

Na sarjeta da história jazem José Sanjurjo, Emilio Mola y Francisco Franco, os generais que derrubaram o Governo constitucional da Segunda República, de que era presidente Manuel Azaña e primeiro-ministro Santiago Casares Quiroga.

Já no dia anterior tinha havido tentativas de sublevação mas foi no final do dia 18 que se iniciou a guerra civil que havia de deixaria um rasto de sangue, com centenas de milhares de assassínios e incontáveis feridos, entre espanhóis.

O requinte dos fuzilamentos nos campos de touros e o garrote, como instrumento de tortura e morte, foram a imagem de marca da ditadura de Franco que Hitler, Salazar e Moussolini apoiaram.

É a memória sinistra de Franco que, estátua a estátua, tem vindo a ser derrubada em Espanha. É tarde para julgar os cúmplices mas é tempo de divulgar a verdade sobre o mais baixo e inculto dos três generais, que acabou por tomar o poder.
A Espanha de hoje é o paradigma de um país democrático e livre, rico e culto, que sob as cinzas da infâmia soube erguer a tolerância e o diálogo. Sobre os escombros de uma sublevação fascista, apoiada pela Espanha conservadora, rural e beata, há um país novo que se impõe pela sofisticação urbana e cultura democrática.

Zapatero é o ícone desta Espanha moderna que renasceu das cinzas dos horrores e se transformou num Estado de direito, progressista e civilizado.

Comentários

Mano 69 disse…
«A Espanha de hoje é o paradigma de um país democrático e livre, rico e culto,» e monárquico (acrescento eu)!

Mas porque raio é que Carlos Esperança se esqueceu do regime que vigora em Espanha, será a sua costeleta de ternera republicana que faz (in)conscientemente olvidar o que não lhe interessa?
Ah! Já sei. Aí vem o discurso sobre o as autonomias, a vitória do PSOE, os Borbons (não os alcoólicos), a Opus Dei, o Real Madrid versus Barcelona, o presunto pata negra, o El Corte Inglês, a SEAT, os caramelos viúva Solano, o Gin Larios, o partido popular, a ETA, os nuestros hermanos, a gasolina mais barata, a mercearia mais em conta, as estradas, o “se bem me lembro”, o casamento entre pessoas de sexo igual, o aborto, o coronel Tejero Molina e a sua pistola, a guarda civil, o vinho albarino, a Ana Obregon, a HOLA (revista castelhana mais vendida em Portugal), os toiros de morte, o ensino do castelhano, as universidades e os estudante portugueses, as tunas, a pesca e a frota espanhola, etc., etc.
Penso que lhe tirei alguns argumentos mas julgo, ou tenho a certeza, que você conseguirá ultrapassar tudo isto e descobrir novos pontos de partida para a discussão.

P.S.: Já me esquecia, o iberismo!
Mano 69 disse…
Aliás Franco era tão amigo de Portugal que a sua tese de final de curso na Academia Militar Espanhola tinha como tema “Como invadir Portugal em 24 horas”.
Um verdadeiro caramelo, daqueles que se cola aos dentes e que faz salivar e fazer esgares para o retirar da placa…
Uma amizade… ibérica?
Anónimo disse…
mano 69:

A monarquia não é um regime democrático.

Conhece as circunstâncias em que foi restaurada. A simpatia que o rei soube atrair e o seu espírito democrático não fazem da monarquia uma instituição recomendável.

Apesar do rei, a monarquia espanhola é uma herança da ditadura espanhola.
Anónimo disse…
A guerra civil de Espanha está, aparentemente, "esquecida" na sociedade espanhola.
"Sociedade espanhola" é uma força de expressão porque na realidade será melhor dizer nações e comunidades autónomas de Espanha. Ou, se quisermos salvaguardar a coesão do País, povos integrados no Reino de Espanha.
Todavia, penso que a "amnésia política" sobre guerra civil espanhola, serviu (foi fundamental) para a pacificação (possível) dos espanhóis no período do chamado "pós-franquismo".
O rei de Espanha (em parte devido ao prestígio político do seu pai - o conde de Barcelona) viria a ser um esteio unificador e pacificador desta transição e, em última análise, para o relativo "embotamento" das sequelas da guerra civil e das iniquidades vividas sob o "reinado" do caudilho.
A força do PSOE (a figura carismática de Felipe Gonzalez) no sentido de desenvolver e democratizar Espanha bem o esvaziamento político e social da Falange - cimentaram uma transição sem convulsões e projectaram Espanha na Europa e para o futuro.
Nesta altura foi necessário criar um chamado "pacto de esquecimento".
Mas, a guerra civil e os dias difíceis do franquismo (para a Esquerda)estão presentes na cabeça e no coração das pessoas. É só ver o número de filmes e livros publicados em Espanha sobre estes temas. Ou o interesse da juventude em conhecer este período histórico.
Vale dos Caídos continua lá com o túmulo de José António Primo de Rivera junto ao altar mor e à "santa" guarda dos monges beneditinos estigma da posiçã da Igreja espanhola na guerra civil e no franquismo. Continua lá inscrita a (para o Mundo actual) incrível dedicatória: caíram por Deus e por Espanha!
Pensar Espanha actual à luz da sua história contemporânea é um infindável e estimulante exercício político e intelectual. Um desafio.
Tudo isto para chegar à compreensão dos dias de hoje. Aos dias de Zapatero.
Zapatero é o homem da ruptura política completa com o passado franquista. Todavia, conhece e valoriza o papel da História no moldar das mentalidades dos povos. Pretende estimular o conhecimento histórico dos espanhóis sobre o seu país, considerando-o uma medida unificadora e pacificadora.
Nesse sentido, prepara-se para apresentar a Lei da Memória Histórica, que reconhece as vítimas dos dois lados, mas também lembra as dos anos da ditadura franquista.
Isto é a generosidade da Esquerda. A Direita, temerosa, acusa Zapatero de com a Lei da Memória Histórica -"dividir os espanhóis". 30 anos depois do início da transição democrática, com uma democracia em plena vigência, pretende prepetuar o "pacto do esquecimento".
Anónimo disse…
Não há 'pactos de esquecimento' possíveis, relativos a períodos escuros e hediondos, na história dos povos.
Com o período nazi, os alemães ficaram soterrados pelo ostracismo internacional e pelo seu próprio silêncio. Só agora, timidamente, começam a aventurar-se fora do buraco. Mas ainda não fizeram a digestão da história, o Leste que o diga.
Sem ser exactamente igual, o caso espanhol tem semelhanças. E a saída do buraco espanhol, aproveitando condições externas ímpares, começou a fazer-se, mas acontece sobretudo agora, pela mão de Zapatero.
Já nós, que também tivemos crime e escuridão bastante, à nossa escala, não sairemos do nosso 'pacto de esquecimento'. Não temos energia nem lideranças para assumir os erros e ultrapassá-los. Por isso ficamos na paragem, à espera que passe alguma camioneta.
Mano 69 disse…
«A monarquia não é um regime democrático.»
Não me diga que quando diz ou escreve isto está com a manta republicana sobre os joelhos?
Já agora não se esqueça de referir que os países mais subdesenvolvidos da Europa (Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Reino Unido) são monarquias onde não existe respeito democrático e o poder real é absoluto.
O seu problema é ver a monarquia ainda sob a áurea do 5 de Outubro de 1910 e o que se lhe seguiu. Olhe que não perde nada se pensar mais abrangente, mais além da formatação idealista republicana e socialista.
Antes de Franco já havia monarquia ficou foi em “tandby”durante o consulado do generalíssimo…
Mano 69 disse…
Não é “tandby” é “standby”.
Anónimo disse…
Mano 69:

Atenção, é melhor sermos mais concisos.

A Monarquia não ficou em "stanb by" com a ditadura franquista.
A II República Espanhola foi proclamada em 1931, após a nefasta ditadura de Primo de Rivera, levando ao exílio de Afonso XIII.

Posteriormente, foi "restaurada", em 1947, por vontade e discriminação do caudilho (Ley de Sucesión a la Jefatura del Estado) que "afastou" o conde de Barcelona (pai de Juan Carlos).

Não é?
Mano 69 disse…
e-pá

Digamos que ficou em stand by durante dezasseis anos (1931 a 1947) o que é manifestamente ínfimo em comparação com o tempo que já levava de monarquia e que leva a agora em regime democrático.
Agradeço os seus dados concisos.
Anónimo disse…
Claro que as monarquias constitucionais não prejudicam. São instituições interessantes para as revistas do coração.

No entanto gostava de saber como se pode apelidar de democrátoico um regime que não é escrutinado pelo voto e que é vitalício e hereditário.
Anónimo disse…
olhe que a continuar assim este republicanismo tambem está a ficar hereditário.
olhe bem para os partidos politicos,e veja a linha de sucessão.
Anónimo disse…
bobo:

Na República nunca houve lugares hereditários.
Pode haver (há) caciquismo... enquanto não evoluirmos no âmbito da educação cívica e no campo da cidadania.

Contudo, tenho de reconhecer que a "tentação hereditária" já infesta o poder local, os quadros partidários, certas profissões, etc.
Um pouco a exemplo do que sucede (sucedia?) na docência da nossa vetusta universidade...
Anónimo disse…
Talvez o caso mais paradigmático do 'pacto de silêncio' seja o caso francês.
Depois das posições pusilânimes, dúbias e hipócritas assumidas durante a guerra civil espanhola, e das atitudes cobardes e colaboracionistas durante a ocupação alemã, tomadas por boa parte da sociedade francesa (passando depois pelo drama argelino) a sociedade francesa não parou de decair, e é hoje uma sombra do que foi.
Anónimo disse…
pois é mas aqui nem sombra nunca fomos.......
Anónimo disse…
Jagudi:

Perante a crueldade da guerra civil espanhola o então chamado "COMITÉ DE NÃO-INTERVENÇÃO" sedeado em Londres integrando os EUA, a Grã-Bretanha e a França é - perante a visível e "entusiástica" participção, ao lado dos falangistas, dos nazis (Hitler) e dos fascistas (Mussolini)- no mínimo, incompreensível.
Verdade que a (posterior) frouxa adesão da URSS ao lado dos republicanos é, um intervenção polítca, essencialmente ditada para contrariar a grande influência (no campo republicano) da Frente Anarquista Ibérica (FIA) e o prestígio do Partido Operário Unificado Marxista (POUM), dissidentes do PCE.
Aliás, a história da influência FIA sobre os movimentos anarquistas nacionais, merecia ser melhor estudada e divulgada.
Tudo isto para contestar que tenha havido um "pacto de silêncio".
O que se verificou foi um "comité de capitulação", vergonhoso, que haveria de conduzir as "potências ocidentais", iludidas, até aos primórdios da II Guerra Mundial.
Esperemos que a "LEI DA MEMÓRIA HISTÓRICA", prometida por JL Zapatro, também faça luz sobre esta temática.

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