323 novos Santos e Beatos

121 mártires da Guerra Civil Espanhola, assassinados em 1936, caminham para os altares.


Em 11 de Março de 2001 o Papa João Paulo II consagrou 233 beatos, naquela que foi a maior beatificação da História da Igreja, elevando, então, para 471 as vítimas da Guerra Civil Espanhola com direito aos altares.

E só beatificou as vítimas de um lado. Se tivesse beatificado as que tombaram às mãos de Franco e dos que com ele derrubaram o Governo legítimo, durante a Guerra Civil e nos anos que se seguiram, seria ainda maior a onda de santidade.

Depois disso as beatificações e canonizações não pararam em Espanha num processo que muitos vêem como apoio ao PP, partido com o qual o episcopado do país vizinho se identifica e com o qual faz manifestações conjuntas contra Zapatero.

Mas o que dói é a obstinação dos dois últimos papas em remexer uma ferida que está longe de cicatrizar. Pela minha parte trago no meu devocionário o nome do poeta Federico Garcia Lorca (foto em baixo) como vítima inocente e paradigma duma sangrenta orgia de terror que, dos dois lados, dilacerou Espanha.

Comentários

e-pá! disse…
João Paulo II, ao que parece agora reconfirmado por Bento XVI, levam o ofício a sério.
De uma assentada levam aos altares centenas de beatos. São os tempos inflacionistas que atingem todos. Até o Vaticano.

O fundamental não será quem se premeia, mas quem se exclui.
Ficam de fora, muitos milhares de protagonistas, de ambos os lados - sejamos honestos - muitos deles mortos nos campos de batalha, ou outros que, paulatinamente, "a lei da morte foi libertando".

Esta preserverança beatificante fez-me recordar a guerra civil espanhola, na versão vivida e apaixonante de Ernest Hemingway no seu livro: "For Whom the Bells Tolls".

Hoje, os sinos dobram por outras causas, por outros interesses. Nobres ou aviltantes, não interessará dissecar.
Todavia, sem sombra de dúvida, que uma inaudita parcialidade, fere, profundamente, a pretensa universalidade da Igreja, em cada passo que dá.

Então, Bento XVI, parece ser um exímio inculcador da História. Já tinha mostrado isso em Ratisbona, e parece não esmorecer.
Merece, por isso, uma penitência.
Na próxima visita a Espanha deveria, por exemplo, rezar na praça de touros de Badajoz. Sentiria, com certeza, o longinquo eco da barbárie, os silenciados gritos de sofrimento dos indefesos, o ínvio martírio dos inocentes e, se se concentrasse muito, ouviria ao longe a ébria cobardia dos carrascos, ao som do hino: "cara al sol"...!

Estou convicto que, alguns desses nóveis beatos - envergonhadamente - apear-se-iam... enojados com a infame tentativa de "lavagem da História".
Não é concebível que se homenageiem (beatifiquem, para os crentes) perversões humanitárias, sem sentido e rigor histórico.
As profícuas e beatíficas homenagens a vítimas dos republicanos, poderão esconder sanguinários falangistas, a necessitar de serem exorcizados, ou expulsos dos oferecidos (pela Igreja) terreiros de santidades.

A Igreja já ditou a História. Hoje, são os homens (os povos) que - com a sua memória - a protagonizam, a fazem e a escrevem.
Não escrevinham na sua memória os ditados (arquitectados por outros).
Pelo que as beatificações - mesmo à duzia ou às centenas - valem o que valem. Pouco, porque quando há excesso de oferta, o preço (e o apreço) entra em queda...
E quando o apreço caí, vem o descrédito...
Anónimo disse…
Este Papa, tal como já o anterior, tem a vantagem de mostrar a Igreja Católica tal como é há mais de mil anos: reaccionária, antiliberal, anti-republicana,antiprogressista, aliada declarada de todas as formas de fascismo.Só falta beatificarem o Salazar; mas por este andar não há-de faltar muito!
Anónimo disse…
e-pá:

Magnífico texto, recheado de inteligência, cultura e sensibilidade.

Vale a pena ter um blog para encontrar leitores/comentadores deste gabarito.

Parabéns.
Anónimo disse…
só lá falta o Santo Esperança, que como toda a gente sabe esteve "a isto" de ser padre...

Maior que o seu bódio só o seu recalcamento...

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