Opinião do leitor. Poiares - Praxes. Que fazer (2)
A bem do rigor, o Diário As Beiras podia deixar cair as aspas de «praxe» constante to título. Ao contrário do que se afirma, os rituais de iniciação (ou integração, que é o mesmo) são praxes no seu conceito mais abrangente.É certo que a que aqui se noticia não se enquadra no conceito particular de praxe académica. Mas a raiz é a mesma, apesar de os que defendem esta última geralmente não aceitarem que se façam comparações com outras praxes como a militar, por exemplo (talvez por ter um livro de código sejam mais religião que seita, mas dá no mesmo).
Mas se de um punhado de putos podemos esperar violência e crueldade, já de estudantes universitários não se tolera, o que é perfeitamente compreensível.
Esta brincadeira de mau gosto do jogo do poste não é nova, que eu me lembre, há mais de 15 anos se pratica nas escolas. As vítimas são geralmente os mais fragilizados (os mais novos, os mais fracos, os recém-chegados). Dificilmente se chega ao ponto que dá conta o jornal, pois a brincadeira depende da barbaridade de quem a pratica.
O jogo do poste à partida não visa magoar a vítima mas sim aterrorizá-la primeiro, debilitá-la ao sentir a sua sorte nas mãos de terceiros, e produzir no fim a sensação de que foi poupado (caso não haja lesão, obviamente) pela "bonomia" dos colegas que assim esclarecem que está por cima e quem deve submissão. A cooperação póstuma da vítima é essencial para que os mais velhos aceitem integrá-lo. Se pensavam que bastava participar no jogo, desenganem-se. A resignação da vítima é importante para garantir a legitimidade do método de integração aos olhos de quem a pratica para aliviar consciências pelo que é desejável deixar o novato em relativo bom estado.
Quanto à praxe académica (que já foi muito mais violenta) como as outras praxes, o efeito é o mesmo que o que descrevi no último parágrafo. E porque o código da praxe já foi muito amansado e a propaganda dita que não há violência (quando ela persiste psicologicamente), a maioria dos jovens recém-chegados à Universidade até colabora.
Um dia os colegas encarnam bestas, e extasiados pela impunidade que gozam, abusam e lá aparecem uns testículos mutilados ou uns cortes na cabeça. Claro que isto não está no Código da Praxe, mas está na natureza humana, e é por isso que as sociedades que primam pela paz regem-se por Códigos de Leis e não por livros que seriam cómicos se não fossem levados demasiado a sério.
Mas a praxe académica é mais danosa para uma sociedade pois incute a ideia de que a autoridade não se questiona mesmo que não se perceba a legitimidade de quem a detém para a exercer. Esse é o problema mais profundo que se espelha nas relações alunos/professores/funcionários, patrão/empregado, pais/filhos, etc. O resultado são os abusos, a apatia e a vacuidade de muitos Drs. e Engs.
a) matarbustos - Dom Jun 03, 11:47:00 PM
Comentários
A praxe não é mutilar pessoas, humilhá-las ou fustigá-las corporalmente. evidentemente que se pode brincar com o caloiro e com a colaboração dele.
a praxe serve essencialmente para integrar o novato. Uma razão entre várias outras, para um colega mais velho dirigir a palavra ao novato que anda autenticamente "às aranhas".
Nem todos os "caloiros" que chegam à Universidade são tão esclarecidos como o amigo Matarbustos".
Muitos deles, se não tivessem sofrido as sevicias da praxe, faziam durante 5 anos o percurso casa-universidade, universidade-casa (do ponto de vista académico se calhar nem era mau...). Nem todas as pessoas têm a mesma capacidade de inclusão em grupo, ou porque são demasiado timidos ou ou ainda porque é a primeira vez que saiem debaixo da saia da mãe e precisam de abrir os olhos, para potenciar as qualidades que têm!!
Sei de experiência própria e de que me foi dado a conhecer enquanto estudante Universitário, que a integração do caloiro praxado é quase sempre positiva, são portanto excepção os abusos. Não nego que os haja e que devam ser punidos em sede própria, nos tribunais criminais, não é nos tribunais de praxe ou lá o que lhe chamam.
Os caloiros que colaboram na praxe, além de sedimentarem uma amizade entre eles fruto da cumplicidade dos esquemas de fuga à praxe, quer nas "sevicias" a que foram sujeitos pela praxe perduram por muito anos e cria laços muito fortes de amizade, a razão clara não a sei, apenas constato!!
Tambem o espirito de entre-ajuda entre colegas de universidade é melhor, sei-o e senti-o!
Frequentei demasiados anos a Universidade, vi de tudo, praxei e fui praxado, enquanto caloiro recusei-me a fazer tudo aquilo que atentou contra a minha reserva de valores, ou até porque não me apetecia e ponto final. Só entra na brincadeira da praxe quem quer, se for obrigado não é praxe é crime!! Se entrar na brincadeira e se por alguma razão não quiser continuar tambem pode e deve faze-lo, se não o deixarem já não é praxe é crime!!
Agora não se pode é chamar de praxe, ou deixar que meia duzia de animais se escudem na praxe para fazerem o que bem (mal??) entendem com os seus colegas mais novos e concidadãos!!
Constato tambem que a maior parte dos auto-designados "anti-praxistas", costumam ser pessoas já por si com problemas de sociabilidade, quer por razões psicológicas,psiquiatras ou até "pseudo-intectualóides" (quem praxa é imbecil, quem não praxa é um Einstein em potência), outros de facto são anti-praxe e muito bem, porque já não têm idade para andar a brincar com os filhos dos outros, têm os seus ou deveriam já ter (pelo menos idade para tal) ;) Haverá ainda aqueles que não têm um espirito tão brincalhão e estão-se pouco marimbando para a praxe e muito bem, estão no direito deles.
No bairro onde fui criado havia praxe, quem chegava novo ao bairo e os miudos que cresciam e queriam andar com os mais velhos eram praxados e tinham padrinhos ;) fui afilhado de um e padrinho de vários.
Na Universidade fui caloiro com padrinho e fui padrinho de vários (alguns até pediram quase de joelhos...!!).
Na republica onde vivi, fui praxado e eleito Mor(para quem não sabe o Mor é o representante da republica com o exterior e regra geral o que trata das contas e tudo aquilo a que institucionalmente a republica esteja ligada, depois de ratificado pelos "irmãos" republicos, costuma ser por antiguidade na minha,enquanto lá estive era por sufragio secreto e universal) no ano de caloiro de republica , praxei, sei que ainda se praxa e sei tambem que ainda hoje se comenta e se ri as praxes que fiz!!
P.s. ( de post scriptum): Na republica que frequentei também havia elementos anti-praxistas, não havia a velha dicotomia bacoca de tese e antitese, praxistas e anti-praxistas, eramos pela sintese, eramos todos estudantes da Universidade de Coimbra!!
relembro ainda a latinada " DURA PRAXIS SED PRAXIS" ;)
abreijos aeminienses,
Praxe estudantil, entendendo-a como prática só a entenderei como algo de não violento