Poiares - Praxes. Que fazer?
Julguei que a cultura e a civilização erradicariam a boçalidade cruel que aflora na nossa sociedade e que a violência gratuita fosse exclusiva de grupos sectários, quase sempre de cariz ideológico.
A «ida ao poste» é uma nova forma de violência escolar cuja crueldade revela a precocidade dos alunos de um dos mais pequenos concelhos do País – Poiares.
Em que consiste a «praxe»? Transcrevo do «Diário as Beiras» a descrição da selvajaria:
«Vários alunos “agarram à força” um outro estudante (que, geralmente, é mais novo e, de preferência, do sexo masculino), seguram-lhe nas pernas e nos braços, imobilizam-no e atiram-no contra um poste ou uma árvore. Uma prática onde os órgãos genitais dos jovens embatem com força contra o objecto, podendo, como nos casos específicos, provocar lesões».
Resultado do divertimento juvenil: dois feridos graves.
Comentários
Comparar a praxe académica com o "poste", é mesma coisa que comparar salto à vara como o jogo do "aí vai alho" (tem vários nomes no País)....
«Coimbra, 1 de Março de 1933. Continuam as matanças de gatos, cá na república. Uma selvajaria. Só quem assiste a isto pode avaliar o que é um homem primitivo. Não há Universidade que nos tire da idade da pedra lascada».
Para os energúmenos estudantes, praticantes devotados dos grotescos e dedsbragados espectáculos iniciáticos das praxes académicas, estas palavras de Torga acertam em cheio no âmago da sua matriz animalesca. Ainda não ultrapassaram a idade da pedra lascada.
Esta situação é reflexo da mudança de mentalidade do jovem estudante português ( não estou a chamar "geração rasca") e do absorvente sistema concorrencial que se instalou em todo o Ensino, com reflexos mais agudos, no Superior.
Na verdade, no passado, os estudantes recém-chegados à Universidade dispunham de um leque variado de oportunidades, onde paulatinmente, iam tratando (cuidando) da sua integração.
Esse polo agreggador era o movimento associativo (as associações académicas). Aí, congregavam-se as pessoas, discutia-se, gizava-se um comportamento democrático (onde a tolerância ressalta) e trabalhava-se para a comunidade estudantil e, para, a sociedade.
A tremenda competividade no seio da actividade escolar, afastou os estudantes deste movimento associativo.
Os estudantes vivem (estudam)isolados, vegetam por recantos pejados de sedentarismo, não têm tempo para treinar, ou ensaiar e ...nas festas académicas, que persistem, dão "de caras" com novos colegas que, durante o ano, nunca viram, nunca conversaram, nunca participaram num evento cultural, nunca beberam um copo , nunca foram a um baile...
Nessa alturas, vem então ao de cima o que de mais rude e obsoleto formata o comportamento entre humanos. A revelação da "autoridade", da ideologia belicista de que a antiguidade é um posto, da tentativa de imposição de aleatórias supremacias intelectuais que, confrontada com a indigência cultural e o deficit de vivência social, vai desenbocar na violência (gratuita, despudorada e despropositada).
É este espartilho que, condicionado pelo "mercado do ensino" emergente, asseptico e tecnocrático, tem modificado a praxe.
A Universidade deixou de ser um espaço múltiplo e polivalente (universal, como o nome a define), dispar de vivências científicas, artísticas, culturais e sociais, para se tornar numa arena circense onde se peleja, ao arrepio de atitudes solidárias, pelo "canudo".
Neste quadro, a praxe é muito menos que a tradição de integrar ou de conviver. É uma excrescência.
Pior, é uma excrescência em expansão, como se pode ver no caso de Poiares. Pequena urbe, onde é suposto admitir que toda a gente se conhece. A praxe aí integrou a filosofia dos "gangs" de jovens - e das lutas pela chefia dos mesmos - que, nos anos 60 e 70, nos chegavam em filmes dos States.
Penso que a praxe vive dias difíceis no sentido de encontrar sãos caminhos da sobrevivência que, não compliquemos, passam por três simples parâmetros, fáceis de promover num campus universitário: convívio,
solidariedade,
e humanismo.
Quanto, à proliferação da violência, no meu entender não existem razões para enquadrá-la em atenuantes ou em sistemas de almofadagem da gravidade do crime (C. Veteranos).
A violência, como se tem vindo a verificar nos últimos tempos, é um atentado contra a integridade física de um cidadão.
Deve ser resolvida no âmbito do Código Penal, "tout court".
Sem apelo nem agravo.
Os cruzados e os evangelizadores católicos; Franco, Salazar e Pinochet; os Papas da Contra-Reforma, etc., foram educados no ateísmo?
É certo que a que aqui se noticia não se enquadra no conceito particular de praxe académica. Mas a raiz é a mesma, apesar de os que defendem esta última geralmente não aceitarem que se façam comparações com outras praxes como a militar, por exemplo (talvez por ter um livro de código sejam mais religião que seita, mas dá no mesmo).
Mas se de um punhado de putos podemos esperar violência e crueldade, já de estudantes universitários não se tolera, o que é perfeitamente compreensível.
Esta brincadeira de mau gosto do jogo do poste não é nova, que eu me lembre, há mais de 15 anos se pratica nas escolas. As vítimas são geralmente os mais fragilizados (os mais novos, os mais fracos, os recém-chegados). Dificilmente se chega ao ponto que dá conta o jornal, pois a brincadeira depende da barbaridade de quem a pratica.
O jogo do poste à partida não visa magoar a vítima mas sim aterrorizá-la primeiro, debilitá-la ao sentir a sua sorte nas mãos de terceiros, e produzir no fim a sensação de que foi poupado (caso não haja lesão, obviamente) pela "bonomia" dos colegas que assim esclarecem que está por cima e quem deve submissão. A cooperação póstuma da vítima é essencial para que os mais velhos aceitem integrá-lo. Se pensavam que bastava participar no jogo, desenganem-se. A resignação da vítima é importante para garantir a legitimidade do método de integração aos olhos de quem a pratica para aliviar consciências pelo que é desejável deixar o novato em relativo bom estado.
Quanto à praxe académica (que já foi muito mais violenta) como as outras praxes, o efeito é o mesmo que o que descrevi no último parágrafo. E porque o código da praxe já foi muito amansado e a propaganda dita que não há violência (quando ela persiste psicologicamente), a maioria dos jovens recém-chegados à Universidade até colabora.
Um dia os colegas encarnam bestas, e êxtasiados pela impunidade que gozam, abusam e lá aparecem uns testículos mutilados ou uns cortes na cabeça. Claro que isto não está no Código da Praxe, mas está na natureza humana, e é por isso que as sociedades que primam pela paz regem-se por Códigos de Leis e não por livros que seriam cómicos se não fossem levados demasiado a sério.
Mas a praxe académica é mais danosa para uma sociedade pois incute a ideia de que a autoridade não se questiona mesmo que não se perceba a legitimidade de quem a detém para a exercer. Esse é o problema mais profundo que se espelha nas relações alunos/professores/funcionários, patrão/empregado, pais/filhos, etc. O resultado são os abusos, a apatia e a vacuidade de muitos Drs. e Engs.
António parente,
os pais destes jovens selvagens são ateus?