O Papa e a Universidade La Sapienza. Opinião de um leitor


Se algum dia a Igreja - vamos falar deste torrão pátrio - tivesse tido a humildade ou a ousadia de convidar, p. exº, o escritor Luiz Pacheco, para uma prédica dominical, nos dos seus múltiplos templos, então teríamos retirado grandes pedregulhos do muro da intolerância...

Laicidade não significa recusar ouvir quem quer que seja. Significa ouvir todos, sem privilégios (de qualquer natureza). Laicidade é sinónimo de equidade e universalidade.Bento XVI teria estado na Universidade La Sapienza, porque o reitor resolveu conceder-lhe esse especial privilégio (sem ouvir o corpo docente). Mas nada de especial habilitava o académico Ratzinger para falar sobre a Ciência, tema escolhido para a abertura do ano escolar nessa Universidade romana. Pelo contrário, as suas concepções sobre Ciência, á luz dos actuais conhecimentos, são pouco recomendáveis.

A frase invocada pelos académicos, para o declarar "personna non grata", pode ser inserida em milhares de contextos (como já vi escrito), mas o então cardeal Ratzinger, em 15 de Março de 1990, disse: "Na altura de Galileu, a Igreja mostrou ser mais fiel à razão que o próprio Galileu. O julgamento contra Galileu foi razoável e justo".

Ora bolas! Para o Mundo, a prisão e o julgamento de Galileu tornou-se o mais citado e paradigmático exemplo da luta entre "fé e ciência".

a) e-pá

Comentários

CA disse…
Claro que a frase pode ser inserida em milhares de contextos. Mas que escreve isto inseriu a frase no único contexto que aqui interessa: o contexto em que ratzinger usou a frase?
e-pá! disse…
CA:

Se fosse cristão diria:
- só deus saberá!

Mas, não sendo, adianto:
Ratzinger é um enfabulador sobre aquilo que disse, não disse ou pensou em dizer.
Lembra-se de que já assim foi em Ratisbona?
CA disse…
e-pá!

Fui verificar e encontrei este link:
http://vaticandiplomacy.wordpress.com/2008/01/15/estratto-del-discorso-su-galileo-galilei-pronunciato-a-parma-il-15-marzo-1990-dallallora-card-ratzinger/

Do que li parece-me que o "crime" de Ratzinger é citar um agnóstico a dizer que a Igreja usou a razão melhor do que Galileu.

Ora sendo Galileu um símbolo de uma certa religião, quando alguém lhes diz que o Galileu dessa religião não coincide com o Galileu histórico os fiéis dessa religião atacam todos os que veiculam tal ideia. Já é o segundo galileu com quem isto se passa.
e-pá! disse…
Caro ca:

O problema de B16 é que quando surgem polémicas sobre as suas prédicas, ele não estava a dizer o que disse - estava a citar.
Já em Ratisbona, citava um diálogo do séc. XIV entre o Imperador bizantino Manuel II - o Paleólogo e um persa culto.
E disse o que disse sobre o Islão(não vou repetir), não foi ele, foi o Paleólogo...

No fim, acabou enrolando-se em interpretações atrás de interpretações e pedindo desculpas públicas em encontros e cerimónias diplomaticamente arranjadas.

Agora, no discurso de Parma em 15 de Março de 1990, citava um eminente vulto da Filosofia da Ciência - Paul Feyerabend... por sinal agnóstico e, já agora, anarquista.

B16 não tem ideias próprias , cita autores e pensadores de modo aleatório, sem perfilhar conteúdos. Joga à "roleta russa" com as ideias... até sair o inopinado tiro.
Ou então é um catavento. Vira-se para onde sopra o vento ... da História.

De facto tudo o que rodeia B16 é dificil de entender ou interpretar.
Por exemplo: B16 não foi impedido pela oposição de professores e alunos de ir falar à La Sapienza.
Segundo a diplomacia do Vaticano - "declinou o convite..."

De facto espero que, como se afirmou, ontem, no Angelus:
"Se o Papa não vai à Sapienza, a Sapienza vem ao Papa" e, ... que seja depressa.
CA disse…
e-pá!

Bento XVI queria fazer o que fez: chamar a atenção para o que Feyerabend disse.

A sua comparação com o discurso de ratisbona é interessante: coloca os laicistas ao nível dos radicais islâmicos.

"B16 não tem ideias próprias , cita autores e pensadores de modo aleatório, sem perfilhar conteúdos."

Presumo que conheça bem a obra de Ratzinger para se abalançar a fazer esta afirmação.

Contudo, no discurso de Parma, Ratzinger usou as palavras de Feyerabend como exemplo que comprovava uma ideia que ele estava a defender.
Rui Luzes Cabral disse…
Caro e-pá, nada tenho contra o ateísmo e seus seguidores. Mas que discutam com seriedade, só isso que peço.
e-pá! disse…
Caro ca:

Como é óbvio não sou um estudioso, nem nunca estive particularmente interessado, na obra de Ratzinger.

Mas, desde que o mesmo se transfigurou em B16, tenho estado atento. E as minhas asserções, as minhas contestações, partem daí para chegar aos dias de hoje.
À la Sapienza, p. exemplo.
Ou melhor, para ser mais preciso, antes disso.
Buscando na memória devo reconhecer que a minha atenção foi primitivamente despertada pela sua (do cardeal Ratzinger) actuação no processo de Leonardo Boff e em todo o contexto que envolveu a chamada "teologia da libertação", na América Latina. Não vou comentar. Conforta-me que esteja exaustivamente documentada.

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Caro rui luzes cabral:

Sempre discuti religiosidade, agnosticismo ou ateísmo, com seriedade.
Mas devo confessar-lhe que, para a minha consciência, os dogmas, de que se alimenta a Igreja, sempre me pareceram pouco sérios. Perspectivas...pessoais, honestas e sérias (pode crer).

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