Momento de poesia


Aposta

Gastei tudo quanto tinha
Para ter o que tenho:
Três dúzias de pés de vinha,
A horta que mal amanho,
Uma casa comezinha
Construída ao meu tamanho,
Uma vida poupadinha
Que me custa o que não ganho,
Pois gastei tudo o que tinha
No poucochinho que tenho.

Mas não estou arrependido
Desta serôdia fraqueza.
Continuo persuadido
Que apostar na natureza
Nunca foi jogo perdido.
E ao ver a lareira acesa
Neste casal escondido,
Renovo a minha certeza
De que não estou arrependido
Desta serôdia fraqueza.


De manhã mal o sol chega,
Na leira já estrumada,
Espeto a couve-galega
E alfaces para a salada.
Mais meia hora de rega
E esta manhã passava.
Cansado desta refrega,
À tarde não faço nada.
Ao outro dia o sol chega
E lavro a terra estrumada.

De Inverno escondo-me em casa
Corre água nos beirais.
Faz frio, aqueço-me à brasa
Dos troncos destes pinhais.
E enquanto a vida se atrasa
Na seiva dos vegetais,
Eu escondo-me na asa
Dos meus sonhos ancestrais,
Ao escutar, nesta casa,
A chuva nos seus beirais.

Armando Moradas Ferreira

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