Uma reflexão sobre o XIX Congresso do PCP
Há de apreciar-se a coerência, o entusiasmo e a dedicação. Há de reconhecer-se o apego ao ideário, a fé no futuro e a paixão litúrgica. O PCP é um caso ímpar de empenhamento partidário, de alegria contagiante e de eficiência organizativa. Todos os partidos deviam estagiar ali para aprenderem o que é a dedicação sem limites, a entrega total sem esperar recompensa e a devoção a uma causa.
A forma solidária e organizada como, em poucos minutos, se limpou o enorme espaço do Congresso, se arrumaram mesas, cadeiras e tudo o mais que serviu à multidão de congressistas, militantes, convidados e jornalistas, só surpreendeu quem nunca assistiu à Festa do Avante – a maior manifestação partidária e cultural do nosso país –, ou aqueles que se recusam a acompanhar os seus congressos.
A democracia ficaria mais pobre sem o PCP. O XIX Congresso foi uma manifestação política de tão grande importância que não pode ser ignorada, aqui, no Ponte Europa.
Mas, se a ortodoxia é um valor em si, também é obstáculo a coligações de esquerda. Não se pode dizer que se está aberto à colaboração com outras forças, «desde que perfilhem o ideário e a prática do PCP». Um partido não pode esperar de outro o que os seus militantes recusam.
Surpreende-me o entusiasmo dos militantes comunistas e surpreende-me ainda mais a fé inabalável com que prometem derrubar governos e cortar amarras com o capitalismo. A proposta de cortar com o memorando de entendimento com a troika, sem garantir o financiamento da dívida portuguesa, parece-me uma promessa utópica que deixa o PCP orgulhosamente só.
Sem solidariedade proletária internacional, os sonhos do PCP reduzem-se a uma liturgia que se repete e torna cada vez mais difícil qualquer unidade de esquerda. Já era tempo de o PCP afirmar, de uma vez por todas, se pretende sujeitar-se eternamente ao jogo eleitoral ou se ainda sonha com a aliança dos operários e camponeses como vanguarda para a conquista do poder.
O centralismo democrático, que exuberantemente cultiva, com a eleição do secretário-geral à porta fechada, à semelhança do PSD/Madeira, e a obsessão de transformar o PS no inimigo principal, conduzem a esquerda a um beco sem saída e empurram o PS para a direita como única forma de derrotar a eterna mancebia do PSD com o CDS.
Não sou eu, sem nunca ter sido do PCP, mas com orgulho em ter sido seu companheiro de estrada, desde 1961 a 1975, que tenho o direito de lhe dar conselhos.

Comentários
Admiro a coerência do PCP mas... isso serve para quê?
A palavra exacta é mesmo essa:liturgia!
Fui crente e cantei em Fátima, há muitos anos. Fui militante do PC e cantei a Internacional com eles.
É o mesmo tipo de vivência religiosa, os mesmos tiques, a mesma entoação dos discursos, a mesma idolatria pelos ícones...
Tenho pena, sim. A militância destes homens e mulheres só serve para lhes fortalecer a fé.
Mas há um lado temível nesta fé irracional: é o seu pendor de guerra santa. Porque sabemos onde é que ela leva: no momento em que fossem maioritários, os comunistas esmagariam os que não pensam como eles. Isso já aconteceu, como sabemos, noutros tempos e lugares.
Là vêm eles a exigir eleições, na fé irracional de que agora sim, o povo está tão desesperado que vai a correr votar neles. Depois levam novo chimbalau e ficam remetidos ao seu autismo, nunca aprendem. Porque eles é que são os portadores da verdade - uma palavra que Jerónimo de Sousa gosta de repetir: nós é que falamos verdade.
Com este PCP não há esperança de uma esquerda vitoriosa.
Limitei-me a descrever o Congresso com os meus olhos e a minha memória de antes do 25 de abril.
Concordo com o seu comentário. Não é a chamar traidores aos militantes socialistas que se consegue um Governo de coligação à esquerda.
O maniqueísmo é um defeito religioso.
O PCP é um grande partido, incontornável na nossa democracia.
Infelizmente, prega a liberdade e a unidade da esquerda, mas não pratica uma nem outra.
Pessoalmente, cortei com o PC em 1969, por causa do criminoso esmagamento pela União Soviética da tentativa de estabelecimento de um socialismo democrático na Checoslováquia - a chamada "Primavera de Praga", que o PC, contrariamente à enorme maioria dos seus congéneres europeus, apoiou sem reservas.
Nunca mais tive quaisquer razões para alterar essa posição. O PCP continua agarrado às teses leninistas e permanece órfão da falecida União Soviética. Basta ver quais são as suas amizades em termos internacionais: Cuba, Coreia do Norte, e... as teocracias fundamentalistas islâmicas!
Quanto à unidade de esquerda, o PC jamais se aliará com qualquer partido que não seja muito mais fraco que ele (como "Os Verdes", por exemplo). O PCP só concebe "alianças" que ele controle. Isso faz parte da sua ideologia e do seu "código genético".
Essa é a maior fraqueza da esquerda portuguesa. Sem o PC é difícil fazer qualquer coisa, mas com ele nada se pode fazer.
Frase lapidar!
É por isso que me sinto tão céptico quanto ao futuro...
'Exige' que o PS 'rasgue' os compromissos relativos ao Memorando para que sejs possível chegar a um acordo sobre a inevitável renegociação, uma consensual reivindicação da Esquerda (facto que sendo desejado não será fácil).
No Congresso de Almada existiram 'sinais' (ténues) acerca do abandono da tradicional posição de partido de contestação, i. e., 'outsider governamental', para com realismo perceber que, nas actuais circunstâncias, não haverá muitas saídas para além de 'um governo de esquerda'. O PCP sente que o País espera (deseja) uma mudança efectiva de políticas que, como se sublinha no comentário anterior, passa inevitavelmente pelos comunistas.