O "Carnaval" do TGV
Durante a campanha eleitoral os partidos tem o dever – e o direito - de questionar a nossa política externa.Que, como se sabe, em Portugal, é tutelada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Hoje, alguns comentadores políticos criticam o aproveitamento político que partidos têm feito de recentes afirmações produzidas neste âmbito. Sem razão. Este é um assunto fulcral nas nossas relações externas.
Em primeiro lugar, há que afirmá-lo que este tema tem estado relativamente ausente da campanha eleitoral. Bem como as questões relativas à UE (Tratado de Lisboa), à participação de forças portuguesas no estrangeiro (NATO), à “contracção” (sem critérios para além dos orçamentais) da rede consular, à qualidade das nossas representações no exterior, etc.
Este facto tem um significado preciso. Mostra como a crise nos virou para dentro quando – em meu entender – a saída da recessão passa pela nossa mais profunda integração nos ideais europeus e pelo incremento das exportações, já que somos um mercado (interno) de reduzidas dimensões, considerada a escala mundial.
Algumas das afirmações ditas nesta campanha sobre o estrangeiro – nomeadamente sobre a Espanha - não foram más – foram desastradas.
A afirmação de MFL no debate com JS: “ Não gosto dos espanhóis misturados com os portugueses. Não gosto dos espanhóis metidos na política portuguesa. Eu não tenciono resolver os problemas de Portugal em função dos interesses espanhóis” é o exemplo acabado de uma candidata ao cargo de 1ª. Ministra, onde não existe qualquer sentido de Estado.
Foi nesse sentido que se manifestou, ontem, o Ministro do Fomento espanhol, José Blanco. Não se trata de alterações na política doméstica, trata-se de “rasgar” (como a Senhora gosta de dizer) compromissos internacionais.
Segundo José Blanco a construção do TGV significa: "integrar verdadeiramente a Península Ibérica" . Diria mais: é um importante passo para ultrapassar a nossa situação periférica e uma indispensável infra-estrutura de integração de Portugal na UE. Tão insignificante, ou tão relevante, como isso.
MFL, já é saturante relembrar, enquanto ministra das Finanças de Durão Barroso participou na cimeira luso-espanhola em 2003, onde o 1º. Ministro português (Durão Barroso) com o seu comparsa político e “guerreiro” José Maria Aznar, entre outros acordos bilaterais decidiram aprovar o traçado de alta velocidade ferroviária (TGV) e arranque do mercado ibérico de energia. Estas decisões foram as duas vedetas da 19ª. Cimeira Ibérica da Figueira da Foz (2003).
O acordo aí desenhado e, naturalmente, subscrito por MFL é o que se pode chamar um projecto faraónico para um tempo de crise como o de 2003. Nessa cimeira teria sido aprovado a construção de quatro eixos de ligação ferroviária em alta velocidade (TGV), acrescentando à ligação Lisboa/Madrid outras como Porto/Vigo, Aveiro/Salamanca e e uma outra (esta ultra-transfronteiriça) entre Faro e Huelva.
A actual crise económica é mais profunda do que a de 2003. Mas desta profusão de ligações necessárias em 2003, nem ao menos sobrevive a que liga Lisboa/Madrid?
Bem.
Estamos habituados a esta atitude do PSD. Em cada novo tempo de avaliação política “rasga” (insito!) o seu passado e tal com a mitológica Fénix renasce das cinzas imaculada, liberta do seu passado, sem compromissos.
Por este caminho, chegará o dia em que o PSD renegará Francisco Sá Carneiro.
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