Afeganistão - eleições [2]

O ambiente que - passados 9 anos - a intervenção militar concebida pela Administração de G. W. Bush introduziu no já humilhado e devastado Afeganistão [quando se analisam calamidades Bush aparece sempre!], mostram uma paupérrima imagem do [dito] Ocidente como guardião da Paz em Países varridos por profundas crises sociais, políticas, étnicas e religiosas. O Afeganistão, é extraordinário, consegue o insólito feito de congregar todos estes vectores.

Bush, secundado pelo seu falcão de serviço para a guerra Donald Rumsfeld, conseguiu “mobilizar” as instâncias internacionais para uma intervenção no Afeganistão na sequência da profunda repugnância gerada pelo poder [então] sediado em Cabul.
Na verdade, o País vivia uma situação política e social feudal, de contornos bárbaros e desumanos, resultantes das concepções teocráticas do exercício do poder, perfilhadas pelos talibãs.
A resposta Bush para esta situação, sancionada pelas Nações Unidas e que acabou por envolver a NATO - International Security Assistance Force (ISAF) - visava derrotar o regime talibã [essencialmente por ter “abrigado" Bin Laden] e tinha como finalidade entregar o País a um novo comando político-militar [logo se veria qual], "democraticamente controlado", que não hostilizasse os interesses dos EUA na área.
As concertações tácticas gizadas pelo poder norte-americano para a resolução do problema afegão – torna-se hoje nítido – foram as piores. Basearam-se numa convergência de intervenientes e actores político-militares regionais absolutamente irreal. Isto é, no apoio aos “senhores da guerra afegãos" e na colaboração do regime paquistanês, na altura dirigido pelo general Musharraf, um ditador que saído de um golpe de Estado [em 1999] derrubou um governo constitucional e que, para sobreviver politicamente, necessitou do agreement dos EUA.
Estes insólitos “actores” – directa ou indirectamente – encontravam-se comprometidos [envolvidos] com o anterior regime talibã [que comabtiam essencialmente por motivações étnicas] e, no caso do Paquistão, existiriam - para além de compromissos étnicos e religiosos - importantes interesses [políticos e económicos] regionais.
E, deste modo, a guerra arrastou-se penosamente... e factidicamente [para os afegãos e para o "futuro" regime].

Quando Barak Obama chega a Washington tenta inflectir o curso desta intervenção. Aposta no fortalecimento da ISAF e da missão militar da ONU. Fracassa, estrondosamente, no projecto de fortalecimento do Estado Afegão já que, continua a apoiar Hamid Karzai, que lidera um regime corrupto, envolvido em fraudes de toda a ordem: financeiras, políticas e eleitorais.

As actuais eleições são o complemento da visão Obama para o fortalecimento de um Estado que, com o arrastar da guerra, tornou-se anacrónico e, pior, fictício.
Perante um “agitado” acto eleitoral – uma urna, um esquadra de tanques - com mais de 4 dezenas de mortes [já contabilizados] e ataques a quase 2 centenas de postos eleitorais, teriam votado cerca de 40% dos afegãos recenseados. Uma vitória de Pirro.

Os próximos passos não são difíceis de adivinhar. Conversações com a guerrilha talibã [já apelidados de “resistência”], a retirada das forças militares [ Ocidente e a crise oblige] e, como é habitual, o Afeganistão acabará entregue a si próprio [no seio de uma fraticida guerra cicvil, aparentemente, incontrolável].
Continuará a ser uma das regiões mais pobres do Mundo, sem uma economia organizada, sem um regime político estável, vivendo do cultivo da papoila e dos obscuros negócios [comércio do ópio e de armanento] com o Paquistão. Manter-se-à permeável a todo o tipo de extremismos. Só sobreviverá [?] sob a silenciosa [mas determinante] tutela de Islamabad...
Isto é - apesar das eleições - o conflito afegão prosseguirá [irá intensificar-se].

Porque, apesar de politicamente importantes – as eleições legislativas - não conseguirão efectuar um by-pass automático entre a Idade Média e o séc. XXI.

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