Jesus cansado da cruz (crónica)

Um dia o enorme crucifixo da velha igreja ganhou vida. Genuflectida a seus pés uma beata debitava a salve-rainha enquanto, do lado direito, um pouco atrás, antes do transepto, outra beata rezava padre-nossos junto ao altar da Virgem Maria. Era a força do hábito. Trocavam-se orações por pedidos sem reclamação dos ícones nem reparo dos mendicantes, enquanto o padre vociferava latim e dizia a missa.

O senhor Jesus já por ali andava dependurado, há uns séculos, a suportar a crueza dos espinhos e o mau aspecto das chagas que nunca mais saravam. Enegreceu com o fumo das velas, suportou os odores de quem cuida melhor a higiene da alma do que a do corpo, ouviu gente em desespero e pedidos de vingança de almas danadas que lhe solicitavam o infortúnio alheio.

Conheceu centenas de padres e numerosos bispos a quem nunca fez reparo pelo latim periclitante, a pobreza das homilias ou a riqueza dos paramentos. Ouviu confissões eróticas sem mover a tanga, safadezas incríveis sem se ruborizar, misérias de vidas e vidas de miséria, sem um suspiro, um grito ou um vómito. A tudo o senhor Jesus se habituou, até às versões diferentes a respeito da sua própria vida.
Ouviu um bispo irado a condenar os jacobinos, outro a amaldiçoar os judeus, e, todos, conforme as épocas, a execrar a Revolução Francesa, a república, o laicismo, a apostasia, a blasfémia e o preservativo.

A tudo o senhor Jesus assistiu, em silêncio, no bronze em que o esculpiram. Até um dia. Até ao dia em que o padre apostrofou os incréus que se afastavam do culto, faltavam à santa missa e se furtavam à eucaristia; admoestou as donzelas impacientes que não esperaram pelo casamento; ameaçou os casais que substituíam a castidade pelo preservativo e contrariavam os desígnios de Deus quanto aos filhos. Jesus despertou no preciso momento em que o oficiante explicava que naquelas rodelas de pão ázimo ia ele próprio, em corpo e sangue, pousar nas línguas ávidas de quem guardara jejum desde a meia-noite, bem confessado, melhor arrependido e excelentemente penitenciado.

Foi então que arrancou os cravos, deu um piparote na coroa de espinhos, abandonou a cruz e esgueirou-se por entre os devotos sem ninguém notar, nem a beata das salve-rainhas, nem o padre que administrava a partícula, nem os comungantes habituados a fechar os olhos. Ninguém reparou que no seu lugar ficou apenas um sinal mais, em raiz de nogueira, com quatrocentos anos, aliviado do peso e do freguês.

Jesus não mais foi visto.

Comentários

e-pá! disse…
Excelente crónica alegórica`ao propalado "mistério" da descida da cruz...
Sun Iou Miou disse…
Gostei imenso. A memória voou-me direitinha para uma outra vez em que Jesus se lembrou de arrancar os cravos.

http://improvisosdeademarsantos.blogspot.com/2010/08/17072006.html
andrepereira disse…
Ou seja, ficou uma igreja protestante? Está na reforma, está-se a converter ao protestantismo? Abraço e boa escrita! (P.S: como sabem nas igrejas protestantes, apenas há a representação de uma simples cruz).

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