Devaneios de Fim de Ano: o retorno à Política…

O ano de 2010 terá sido um período crucial para o Mundo Ocidental. Pela enésima vez tentamos dobrar o cabo das tormentas.

Entramos no séc. XXI embalados por múltiplos projectos e iludidos por inúmeros mitos. Hoje, muitas esperanças transformaram-se em ilusões e os mitos continuam quimeras.

Desde a desconchavada ameaça de um “bug” informático com que iniciamos o novo século que as simulações, os reveses ou as ameaças trágicas, não nos largam.
Foram crises atrás de crises. Desde o “pico” do petróleo, ao rebentamento de sucessivas “bolhas “ financeiras, fruto das mais diversificadas especulações e de insaciáveis ganâncias. Há 10 anos que não temos sossego. Afundaram-se em utopias os desejos de harmonia entre os povos, da paz e da segurança.

Na actualidade, o Mundo está ocupado [preocupado] com o crescimento económico, a qualquer preço, à revelia dos Direitos Fundamentais do Homem. Este quadro [modelo] de desenvolvimento tem trazido à Humanidade uma consequência perversa: a proliferação da pobreza em largas áreas do planeta.

Em 2010, já podemos augurar que, este princípio de século, caracteriza-se pelo soçobrar dos direitos sociais face à majestática impertinência [e indiferença] do poder financeiro. Os cidadãos deixaram de influenciar os destinos da sociedade. De todos os modos, i. e., organizadamente, através dos partidos, movimentos, associações [políticas] ou, individualmente, enquanto cidadãos.
Os direitos políticos – que o voto é um dos expoentes – estão condicionados por cruéis situações de sobrevivência, quando não, de subserviência. Este primeiro decénio foi conspurcado por repetidas e sistemáticas interferências dos mercados financeiros na vida dos Estados, das organizações políticas e económicas e, finalmente, condicionaram o pleno exercício dos direitos e deveres de cidadania.

Quando olhamos para trás, envergonhamo-nos. Somos, talvez, a primeira geração – desde o imobilismo socioeconómico da Idade Média – cujo legado que deixamos aos nossos descendentes é manifestamente pior daquele que recebemos. Interrompemos – fomos forçados a “quebrar” - um longo ciclo evolucionista, desenvolvimentista, que vinha acrescentando para os vindouros, mais-valias [económicas, sociais e culturais]. Entramos na fase reactiva, de “contra-corrente”, apesar de todo o desenvolvimento científico e tecnológico que nos cerca. Tudo isto porque fomos incapazes de criar modelos económicos, socialmente justos, empenhados numa redistribuição da riqueza.

Quando olhamos para a frente, as dúvidas assaltam-nos. Confrontados com desafios tremendos quer ao nível da conservação [manutenção] de um estatuto de nações desenvolvidas perante um “novo Mundo” emergente [América do Sul, Índia, China], quer na resolução das questões relativas ao desenvolvimento futuro, tergiversamos. Uma coisa é certa. O regresso ao primado da Política sobre o lobbys económicos e financeiros será uma batalha prioritária para garantir inalienáveis direitos de cidadania e um desenvolvimento sustentável, universal.

A actual crise que varre o convencionado Ocidente será, por ventura, um ponto de viragem para o Mundo e particularmente a “velha” Europa. É difícil, se não arrojado, prever como será o Mundo daqui a 20 ou 30 anos. Estamos convencidos de que será pior, nomeadamente, nas prestações sociais, no campo dos direitos e garantias, na solidariedade, na segurança. O emprego e as reformas são dois exemplos de problemas que deixaremos em aberto para o futuro, por falta de soluções de sustentabilidade [políticas, económicas e financeiras].

Mas existem questões de fundo para as quais não tem havido discernimento nem coragem [política] para enfrentá-las. Podemos citar três: 1) - as questões energéticas; 2) - os desequilíbrios climáticos e ecológicos; 3) - o problema da água.

Estamos a tecer um nó górdio à volta do desenvolvimento e do futuro. Quando avançamos com um tipo de desenvolvimento alheio ao papel social das empresas e apostado na desvalorização do trabalho, comprometemos o futuro. Quando tentamos [...paramos para] repensar o desenvolvimento, a inovação e a tecnologia para integrá-los no progresso social e cultural dos povos, corremos o risco de paralisia [tais são as forças dos movimentos anti-progressistas]. Esta “pausa” poderá fazer perder de vista o horizonte do futuro.

O Mundo diversificou as suas atenções, alterou as suas prioridades, confundiu os seus objectivos. E essa diversificação, essas alterações, fizeram-se à custa do apagamento da Política. Esse “esvaziamento” roubou à Política tudo o que nela havia de nobre, generoso, grande, racional, transparente e justo.
O retorno à Política surge – numa época em que escasseiam as soluções de [e com] futuro – como uma disposição testamentária. Cuja execução transcende a actual geração no poder.
Todavia, este apelo ao retorno à Política, este regresso à doutrina, ao debate ideológico, não contempla qualquer tipo de condescendência para com os políticos. O que parecendo contraditório, faz toda a diferença.

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