A complexa situação ucraniana ou um 'global' impasse…


"Mirotvorcheskiy" é uma palavra russa que significa literalmente ‘manutenção da Paz’. Uma palavra com uma conotação distante e diferente do conceito ocidental de ‘pacificação’ atitude que, por cá, está reservada a acções humanitárias e de verificação do cessar-fogo, habituais no final dos conflitos bélicos.
Será este conceito (‘mirotvorcheskiy’) que na frente diplomática está a ser invocado pela Russia para justificar a sua cada vez mais explícita intervenção militar na parte oriental (russófila) da Ucrânia, do mesmo modo que fez, em 2008, em relação à Geórgia.
É cada vez mais nítido que a Rússia após a anexação da Crimeia debaixo dos brandos protestos do Ocidente (UE, EUA, NATO, etc.) necessita (economicamente e militarmente) de ter um acesso directo (terrestre) entre a penisula já conquistada [Crimeia] e a ‘Mãe Russia’, através da bordadura territorial que limita a Norte o Mar de Azov. Esta solução, ou este ‘arranjo’, permitiria à Russia controlar todo o mar de Azov o que significa, em termos de riqueza, o acesso e a ‘propriedade’ de importantes reservas naturais (petróleo, gaz natural e minerais) link. A recente ocupação da pequena cidade de Novoazovs é a execução prática desta estratégia e indica que o destino é Mariupol (cidade mártir da II Guerra Mundial então denominada de Zhdanov) e importante porto no mar de Azov.
Por outro lado, em termos geoestratégicos e militares o mar de Azov funciona como retaguarda geográfica para o impressionante contingente de forças navais estacionadas no Mar Negro (Sebastopol).
A intervenção no sudoeste da Ucrânia é – para a Rússia – um acto complementar à questão [que considera ‘resolvida’] da Crimeia e tem por base ‘política’ o substratum étnico, cultural e linguístico comum entre a Rússia e esta região Leste/Sudeste da Ucrânia. (ver esboço de partilha na imagem).

Do outro lado, a UE limita-se a seguir uma política de envolvimento e associação aos Paises que integravam a ex-URSS, de que a Ucrânia é um exemplo, no que é acompanhada pelos EUA ainda em rescaldo da ‘guerra fria’. O ‘flirt’ entre Bruxelas e o ex-presidente ucraniano Yanukovich (aliado de Moscovo) acabou mal, como é do conhecimento público e determinou a suspensão de um acordo alternativo (de última hora) que foi ajustado entre Kiev e Moscovo.
Todavia, nada ficou resolvido politicamente na Ucrânia, após o derrube de Yanukovich e as acusações de que o poder tinha caído nas mãos de grupos da extrema-Direita, grandes activistas na ocupação da praça da Independência (protestos de Maidan), não se desvaneceram totalmente com a eleição do novo presidente Petro Poroshenko. Este, no mês seguinte à sua eleição (a 27 de Junho 2014), apressa-se a assinar o pacto Ucrania/UE link, concebido pelo Governo provisório saído da insurreição e que foi, pomposamente,  festejado em Bruxelas.

O que está efectivamente em causa é o conceito de ‘integridade territorial’ que a Rússia vem alterando (desde a Guerra Rússia-Geórgia), baseando-se no precedente do conflito do Kosovo.
A UE ‘encaixou’ o conflito na Geórgia porque fundamentalmente estava em causa o pipeline Nabbuco (Baku-Tbilisi-Ceyhan) que partindo de Baku (Arzebeijão) atravessa este País e a Turquia para abastacer os Países europeus (Europa Central).
O problema ucraniano não pode servir para esconder o descalabro da intervenção na Síria onde o armamento de opositores ao regime de Bashar Al-Assad conduziu a uma situação incontrolável, tal como a intervenção no Kosovo serviu de certo modo para distrair as atenções do ‘caso Monica Lewinski’  e onde a actuação da NATO pouco adiantou excepto um provavel aumento do número de vitimas.
De resto, quando em Março de 1999 a Rússia (acompnahada pela China e a India) invocou relativamente à situação no Kosovo o respeito pela integridade territorial e o fim do uso da força na ex-Jugoslávia através de uma proposta de resolução no Conselho de Segurança da ONU , os Países ocidentais (UE e EUA) rejeitaram-na em nome da protecção de grupos étnicos (albanese) link. Assim, politicamente, o desmembramento da ex-Jugoslávia foi o precedente aberto no pós guerra-fria e que destruiu o dogma da integridade territorial vindo da conferencia de Yalta (por ironia cidade da Crimeia).
Hoje, a Ucrânia é mais um dos problemas que o fim da ex-URSS ainda carrega e provoca réplicas à distancia. Na verdade, a Ucrânia – no presente e no passado - não é um Pais que prime por ter uma identidade populacional homogénea e coesa, antes pelo contrário, a imagem é a de um País dividido.  Terá sido historicamente assim e a ‘russificação’ foi uma prioridade do regime comunista no período estalinista.
Deste modo, grande parte do problema reside na ‘russofilia’ (económica, étnica e cultural) acantonada no território oriental deste País que não se revê no poder emanado de Kiev. Aqui, também em paralelismo com o que se verificou no conflito do Kosovo (em relação aos albaneses), estamos em presença de ‘interesses’ étnicos e de integração económica.
Mas existem duas grandes razões que parecem explicar as atitudes políticas e militares de Putin:
1.) Impedir a extensão da influência da NATO a Oriente (nomeadamente em relação às repúblicas da ex-URSS);
2.) O objectivo de afirmação da Rússia como uma potência económica e financeira global, com uma esfera de influencia dilatada e Ocidente e a Oriente adoptando uma priveligiada posição charneira.

Ora, a UE não tem condições económicas para torpedear as intenções de Putin (apesar dos embargos) e militarmente a ‘união’ não existe sendo, portanto, pouco credível para nós europeus (e também para os russos) que os EUA queiram envolver-se numa nova frente de batalha na parte oriental da Europa link . Assim, a Ucrânia fora das formais declarações de princípio [europeias e americanas] está literalmente entregue à sua sorte. E a recente afirmação de Putin “não se metam com a Rússia” link é um aviso para Bruxelas, principalmente para o actual e intempestivo Durão Barroso (que para algumas coisas é um paladino do pragmatismo) e uma carta de intenções para os novos responsáveis europeus: o polaco Donald Tush e a italiana Federica Mogherini.

Para a Ucrânia uma nova guerra só serve para fazer reavivar o espectro de mais um infernal ‘ciclo de fome’ como aquele que fustigou até à morte, na década de 30, milhares de ucranianos, um desastre humanitário que se avizinha e continua bem presente na memória nacionalista de um País caldeado por um povo inserido numa complexa miscelânea eslava.

A figura que acima ilustra o post é, no seu esquematismo, uma breve sintese do que poderá estar na calha. Ou, como na sequência da derrocada da ex-URSS se pretende induzir – um quarto de século depois - os reajustamentos 'globais' possíveis. E o grande 'reajustamento' é empurrar a Rússia para o Oriente, para a China, por cima do velho conceito que desejava uma Europa do Atlântico aos Urais...

Comentários

Maquiavel disse…
Em 25 anos de independência, eleic,äo após eleic,äo essa separac,äo é mais do que visível na escolha dos candidatos. Nest'última, como näo havia qualquer candidato do Leste ou Sul, vê-se na % de abstenc,öes, seguindo a mesma fronteira interna.
O melhor para o Leste e Sul (a "Nova Rússia" do séc. XVIII) é mesmo juntarem-se à Rússia. Culturalmente e especialmente economicamente, porque é onde se concentram as poucas indústrias e minas do país.
Näo esquac,amos que há mais de 10 anos (quando reinadam os "pro-ocidentais") que a Ucrânia no seu todo tem um PIB per capita inferior... ao de CUBA!
É a minha humilde opiniäo.

E para que conste, que näo é opiniäo:
Yanukovich nunca foi grande aliado de Moscovo, mas sim, mais alinhado com Moscovo que com o resto, tentou ver se a UE lhe dava o mesmo dinheiro que Moscovo prometeu, mas näo conseguiu, e fez o que tinha a fazer: assinar com os russos, que näo lhe impunham programa de austeridade para o desgrac,ado povo ucraniano.
A Merkel e a OTAN näo gostaram...

Também o FACTO de o governo golpista ter fascistas e neonazis näo é boato, é a mais pura verdade!

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