Médio Oriente: o ‘tirocínio churchilliano’…

O bárbaro assassínio no Iraque de um jornalista norte-americano perpetrado pelo chamado Exército Islâmico (EI), aparentemente tendo como carrasco um súbito britânico exportado para a ‘guerra de libertação’ da Síria, indignou o mundo civilizado mas, paralelamente, levanta várias questões políticas de fundo link.

Sejamos claros: quando o ‘Ocidente’ numa santa aliança com a Turquia e alguns países do Golfo resolveu apoiar na Síria a insurreição contra Bashar Al Assad nunca acreditou que os rebeldes tinham como intenção instaurar aí uma democracia do ‘tipo ocidental’. Fizeram-no sem medir consequências mas elas, infelizmente, estão à vista.
Efectivamente, tudo começou nas ‘primaveras árabes’, mais concretamente na Líbia, onde a OTAN desempenhou um papel fundamental no armamento de grupos rebeldes que não eram mais do que facções fundamentalistas.

Hoje, no Iraque (Levante?), perante o histórico e convulsivo conflito entre xiitas e sunitas que parece não ter solução política (em Bagdad ou em Washington) está em curso mais uma obscura jogada. Um novo protagonista - o massacrado povo curdo - está a ser armado e financiado para conter o Exército Islâmico e abortar o mirífico ‘califado’, sem que os (principais) responsáveis tenham de assentar as botas cardadas no solo iraquiano.
Existe aqui uma inflexão política que passa pela desagregação territorial do Iraque (com a inevitável contrapartida da independência curda), um Estado nascido da desagregação do império otomano, no início do século XX. 
Mais, a resolução destes complexos problemas não dispensará o contributo do regime de Al Assad, do Irão (Hezebollah) e da Rússia. E aqui entramos num outro problema, que se chama Ucrânia, onde alguns dos mesmos protagonistas estão em campos opostos mas todos sentados em cima de um barril de pólvora.
Cada novo passo da ‘política externa ocidental’ (UE e EUA) em lugar de conduzir a uma solução, ou atenuar os resultados catastróficos à volta do já feito, cria vários novos problemas. 
Não havendo uma linha coerente de gestão política que tornem os conflitos em curso inteligíveis as razões de tão profundas e devastadoras convulsões (guerras) terão de ser procuradas noutros terrenos (económico, financeiro, militar, etc.).

Na realidade, a globalização económica e financeira colocou em cima da mesa complexas questões geoestratégicas, muito opacas, logo, de difícil entendimento e distantes das ortodoxias políticas tradicionais que ‘guiaram’ o Mundo no último século.
Estamos a fazer um pesado e doloroso ‘tirocínio churchilliano’ (pleno de sangue, suor e lágrimas). Com uma substancial diferença: as alianças são voláteis e a 'libertação' não está à vista!

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