Salazar – Quarenta e quatro anos depois

A morte, na cultura judaico-cristã, é o detergente que limpa todas as nódoas, a lixívia que desencarde o mais negro dos passados e a circunstância que transforma um crápula numa pessoa de bem.

Em 1970, no dia de hoje, exalou o último suspiro o vil ditador que vegetava desde 3 de agosto de 1968. Mais de 40 anos de partido único, de perseguições, de julgamentos sem culpa formada, no país que manteve beato, tímido e analfabeto, deram lugar às lamúrias das carpideiras contratadas, dos cúmplices do regime e dos esbirros da ditadura.

Em Lisboa houve bailes de ação de graças, foguetes a sul do Tejo e alívio generalizado de quem via no cadáver adiado a peçonha de décadas do país «orgulhosamente só».

O tom laudatório da imprensa, sujeita a censura prévia, destoava do alívio generalizado e do regozijo silencioso. A encenação da dor coletiva foi percursora da de outros biltres que morreram na cama. Os telegramas de condolências do genocida Francisco Franco e de Paulo VI foram anunciados como a veneração do mundo, a que se juntou o da inútil e mediática rainha de Inglaterra, Isabel II, para regozijo dos dignitários paroquiais.

Foi precisa a generosa mediação do caruncho, numa cadeira do Forte de Santo António do Estoril, para afastar do poder o mais longevo ditador mundial, e que o ciclo biológico se cumprisse para que o veneno fosse inumado em Santa Comba Dão, onde fora gerado e de onde partira para o seminário, primeiro, e, depois, para a Universidade, o CADC e o ministério das Finanças, antes de se tornar o carrasco de um povo.

Na morte não lhe faltaram as sotainas que o incensaram em vida, as mitras, os báculos e os anelões, nem o barrete cardinalício do Cerejeira. A escroqueria nacional passou pelo ataúde numa solenidade pífia cuja dimensão não apagava o ar provinciano da cerimónia fúnebre que encheu de esperança os democratas, perseguidos, presos ou ostracizados de quarenta e oito anos.

A guerra colonial, que o ditador não soube resolver, persistia a agravar ressentimentos e a semear ódios enquanto os mortos e estropiados não deixavam de aumentar. As prisões continuaram, a tortura manteve-se, o isolamento nacional aprofundava-se e as remessas dos emigrantes, cada vez maiores, já não suportavam a demência colonialista, a guarda pretoriana e as forças de repressão. Marcelo era um reacionário a prazo, o substituto do torcionário, que delapidava uma brilhante carreira universitária, na herança indigna que não teve pejo em receber.

Permaneceria ainda mais de três anos para acabar no Quartel do Carmo com ministros que choravam, quais ratos encurralados, sob a generosa indulgência de Salgueiro Maia.

A morte do frio ditador, indiferente às torturas dos esbirros e ao tormento do povo, não foi apenas o fim de uma vida, foi o despertar da esperança que seria concretizada numa doce madrugada de Abril.

Apostila - Um erro de leitura da data, de que peço desculpa aos leitores, fez-me sacrificar a Pátria com mais um mês de vida do ditador.

Comentários

Nuno Campos disse…
Está errado.
Foi-se a 27 de Julho de 1970.
É favor corrigir.
Mas corrigir com um mês de atraso...

Nuno Campos
Obrigado, caro e atento leitor.

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