Notas soltas - Maio/2008

Joan Miró


1.º de Maio – Nunca mais se repetirá a grandiosa manifestação de 1974 mas é preciso que os trabalhadores mantenham a consciência cívica e a unidade para lutarem contra o fosso salarial e as desigualdades sociais que se agravem.

Humberto Delgado – Comemorou-se o 50.º aniversário da campanha eleitoral cujos resultados, logo viciados, assustaram Salazar e levaram ao homicídio do general por uma brigada da PIDE chefiada por Rosa Casaco.

Cuba – A ausência de autorização a Yoani Sánchez para ir a Madrid receber o prémio Ortega Y Gasset de Jornalismo é mais uma nódoa a manchar o regime que conseguiu os melhores níveis de educação, cultura e saúde em toda a América latina.

Espanha – Entre as grandes reformas do Governo para a actual legislatura contam-se a revisão da lei eleitoral, a garantia de um Estado mais laico e a tentativa de alterações constitucionais.

PJ – A ingerência da exótica Associação Sindical de Juízes e do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público nas decisões do Governo ferem a imagem de isenção dos magistrados e lembram a conduta de Adelino Salvado à frente da Instituição.

Sérvia – Apesar de maltratado pela União Europeia e das dificuldades em formar um governo coerente e estável, o País reforçou eleitoralmente o seu pendor europeísta.

Futebol – Os deputados do grupo parlamentar do FCP, na sequência da vitória no campeonato, receberam o seu presidente, Pinto da Costa, no restaurante da AR, alheios à suspensão desportiva de que foi alvo e às acusações do processo «Apito Dourado», em que é arguido, numa lamentável manifestação de promiscuidade entre futebol e política.

Madeira – Alberto João Jardim, cujo prestígio termina em Porto Santo, desistiu da corrida à liderança do PSD o que tornou a campanha menos divertida e tranquilizou os madeirenses que temiam os seus abusos em Lisboa à custa dos cofres do Funchal.

Sócrates – O prazer do cigarro, entre Lisboa e Caracas, foi um mau exemplo de quem é responsável por uma lei intolerante e excessiva em relação aos fumadores e mostrou a fibra moral do jornalista que, viajando à borla, delatou o que todos sabiam.

Irena Sendler – Faleceu aos 98 anos a enfermeira polaca que, num período de terror, arriscou a vida em Varsóvia, ocupada pelos nazis, para salvar da morte 2.500 crianças judias. Foi heroína e referência ética em tempo de extrema cobardia.

Pedro Passos Coelho – Disse ao «Expresso» que «o Estado deve desaparecer ‘o mais depressa possível’, excepto das áreas da Saúde, Educação, Segurança Social e Cultura». Também das Forças Armadas, polícias e Tribunais? A ignorância é atrevida!

Acordo Ortográfico – Ficou resolvida a questão diplomática, perante o azedume de quem se esqueceu dos anteriores acordos, do risco de adesão dos PALOP á ortografia brasileira e de o português de Portugal se tornar um dialecto de dez milhões de falantes.

Al-Qaeda – Ameaças terroristas à Europa, a pretexto das caricaturas de Maomé e, agora, ao Europeu/2008, mostram que Bin Laden não é um psicopata sem medicação, é um biltre fascista, intoxicado pelo Corão, que odeia a democracia e a civilização.

ETA – A prisão da respectiva cúpula, em Bordéus, é um revés para a estrutura terrorista e um triunfo para o Governo de Zapatero, desfecho que ambos mereciam.

Racismo – Actos de violência perpetrados em Itália, contra imigrantes romenos, e, na África do Sul, contra naturais de Moçambique e do Zimbabwé, são manifestações de xenofobia e crueldade inimagináveis em países democráticos.

Mariano Rajoy – O líder da oposição que, nos Governos do PP, foi o rosto humano da direita, alijou a tralha aznarista para virar ao centro e sossegar a Espanha moderna e civilizada. El Mundo e a emissora COPE obstinam-se em derrubá-lo.

Energia – O nível de vida vai baixar, em Portugal e no mundo, há limites físicos para o crescimento, a água e os alimentos são bens cada vez mais escassos e o actual modelo de sociedade está esgotado. Não é preciso ser profeta para o adivinhar.

Expo/98 – Num tempo de exaltação nacional, perante a incredulidade de alguns e a animosidade de outros, nasceu há dez anos, em Lisboa, o espaço urbano de rara beleza e qualidade que substituiu o lixo, a lama e as ruínas de uma zona desmazelada.

28 de Maio – Há quem esqueça que o desequilíbrio orçamental foi pretexto para o golpe de estado que impôs a ditadura, de 48 anos, até à madrugada do 25 de Abril.

EUA – O braço de ferro entre Hillary e Obama pode levar à presidência o republicano moderado McCain, que não deixaria de ser visto como um prémio a Bush, o pior presidente de que a América e o mundo se lembram.

Manuela Ferreira Leite – Com outro inquilino em Belém, a liderança do PSD seria disputada entre quem já deu sobejas provas de incompetência e quem nunca deu quaisquer provas. Assim, o pragmatismo venceu os interesses dos caciques.

Comentários

Falta aqui uma referência ao que a comunicação social tem chamado "greve dos pescadores". A meu ver, e pelos desenvolvimentos das notícias dessa mesma comunicação social, essa "greve" nem é "greve" nem é "dos pescadores". É sim uma pseudo-greve dos armadores, que são PATRÕES dos pescadores! Ora essas pseudo-greves dos patrões chamam-se "lock-out" e são expressamente proibidas pelo artigo 87 da Constituição da República.
Estranho país este em que quem faz "greve" não são os trabalhadores, mas sim os patrões, os magistrados e os polícias! E em que os lesados pelas "greves" não são os patrões, mas sim os cidadãos em geral e os trabalhadores em particular!
Anónimo disse…
bom artigo, com belissima sintese sobre um conjunto muito grande de questões,

e excelente comentario de ahp

Abraço
ana disse…
Assim são os portugueses, ignorantes, manipuláveis, não fazendo greve para defesa dos seus reais interesses mas para defesa de quem deles se aproveita.
As imagens que temos visto da greve dos armadores têm revelado ganância, violência, atraso e muita má-fé.
Há sectores da sociedade que acham que todos nós, sempre que um problema surge, temos de abrir a carteira duas vezes. Uma vez para suportar o nosso problema, outra para solucionar o deles.
Aires:

Obrigado pelo comentário.

Estas «Notas Soltas» são editadas, sem falhas, num honesto mensário «Praça Alta» que se publica em Almeida.

Há seis ou sete anos que mantenho esta coluna, com este nome, neste formato.

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