Alguns episódios invernosos que precederam as ‘primaveras’….

O curso e as circunstâncias – essencialmente as políticas - das ‘primaveras árabes’ tem de ser estudadas, pensadas e divulgadas. 
Meio mundo [ainda] não percebeu o que se passou.
 
Desde a justificação simplista de que uma multidão de descontentes e marginalizados desceu à rua (árabe, também) levantando uma onda de protestos para reivindicar melhores condições de vida (sociais e laborais) e tais massivas manifestações levaram à queda de regimes ditatoriais até à realidade de hoje vai uma distância enorme. 

Na verdade, passados 5 anos desde o início da rebelião tunisina que levou à queda de Ben Ali e da sua quadrilha familiar que vampirizava o País e a posterior instauração de um novo regime de periclitante de participação democrática sob a permanente pressão de instalação de um ‘contra-golpe islamizante’, em todos os outros lados, Líbia, Egipto, Síria, Iemen, Barhein, o saldo é simplesmente catastrófico.

Na verdade, esta movimentação pretensamente florescente (primaveril) começou no Iraque muito tempo antes. Parafraseando o ex-ditador Hussein no Iraque travou-se a ‘mãe de todas as batalhas’. 
E a grande peleja é pela hegemonia regional que é disputada entre a medieva monarquia saudita e o regime teocrático de Teerão. 
Ambos com importantes aliados regionais e internacionais e ambos interessados em degladiar as duas mais importantes correntes do Islão: sunitas e xiitas. Pormenor, o Iraque embora maioritariamente xiita era dominado pela minoria sunita que governou praticamente até ao derrube de Sadam Hussein (2003).

O prelúdio das chamadas ‘primaveras árabes’ foi a guerra Irão-Iraque dos anos 80. Poderemos chamar-lhe o ‘arrufo persa-árabe’. 
Aparentemente, tendo começado por disputas territoriais fronteiriças tornou-se uma ‘guerra de encomenda’ onde o jogo do desempenho do papel hegemónico na região esteve sempre presente. Quer a Arábia Saudita, quer os EUA, intrometeram-se politicamente até à medula neste conflito bélico embora por motivações díspares, mas não tão diferentes. 

De salientar a contradição de na época e decorrente da doutrina Baas o exército iraquiano estava equipado com armamento originário da ex-URSS, enquanto o regime de Teerão possuída reminiscências de equipamento militar americano resíduos da colaboração entre Washington e o deposto Xá. Pelo meio existe o escandaloso negócio de armas que ficou conhecido por “Irangate”.De um lado, os sauditas para afirmarem a sua posição ‘árabe’ e, maioritariamente, sunita (wahabita) perante ao crescente poderio regional ‘persa’ e xiita, do outro lado, os americanos em socorro dos seus velhos aliados do Golfo, mas ambos empenhados no controlo dos principais campos de produção petrolífera. 

A paz foi difícil e morosa, só sendo atingida em 1988, e necessitou de porfiados esforços da ONU (nomeadamente de Perez de Cuéllar), mas revelou-se muito instável. 
No ano seguinte morre o líder da revolução persa (aiatola Khomeini) e mesmo após uma guerra sangrenta e suja (com recurso a armas químicas) cuja poeira ainda não tinha assentado, decorridos 8 terríveis anos que devastaram os 2 países, Sadam Hussein resolve de imediato invadir o Kuwait (seu antigo aliado na guerra contra o Irão) e apoderar-se dos seus vastos campos petrolíferos. Provavelmente, o ex-dirigente iraquiano precisava de uma ‘compensação’ para reforçar o seu poder no País já que na sequência das conferências de paz teve de aceitar as fronteiras definidas no acordo de Argel (1975). Este reconhecimento mostrou a ligeireza e a inutilidade de uma guerra tão devastadora.

A invasão do Kuwait surge nesta sequência da humilhação induzida pelo status quo (regional), da enorme dívida acumulada durante o decorrer do conflito e provavelmente de um erro de cálculo em relação à atitude dos EUA que o tinham apoiado (através da Arábia Saudita) na guerra com o Irão.

Outro erro foi tentar anexar um emirato de maioria sunita o que levou Riad a pressionar a Administração de G Bush I no sentido de partir a toque de caixa para o Golfo em socorro da Kuwait. Tratou-se de uma ‘guerra-relâmpago ‘ e de uma nova derrota do regime de Bagdad. 
Embora, as ‘forças aliadas’ tenham penetrado no sul do Iraque, Washington decide poupar Bagdad e permite a Hussein sobreviver politicamente (por pouco tempo). 

Entretanto, os EUA perdem o controlo político da região quer no decurso do desenvolvimento destes conflitos regionais quer ainda pela sua posição negativa perante a disputa israelo-palestina (que não deve ser arredada deste contexto).

Quando ocorrem, em Nova Iorque, os trágicos acontecimentos de 11 de  Setembro de 2001, que só podem ser atribuídos a fundamentalistas sunitas, os EUA não tocam na Arábia Saudita (seu berço ‘natural’) e lançam-se – à revelia do Mundo - na 2º. invasão do Iraque, procedendo à sua ocupação militar  e consequentemente à destituição e morte do ditador Saddam.

O ano de 2004, com um Iraque sem rei nem roque, representa, após o rebentar de uma caótica 'insurgência' comandada pelos fundamentalistas sunitas (Al Qaeda), o berço de todas as violentas transformações (perturbações) no Médio Oriente e, provavelmente, a ‘natividade’ de todas as primaveras condenadas a murchar antes de florir. 
As primaveras posteriores (que 'parecem' ter começado espontaneamente na Tunísia) não são frutos de transformações políticas ou sociais mas antes despojos (e dos ajustes de contas) de convulsões anteriores que pretendiam (re)equilibrar ou, talvez, (re)desenhar a região, demasiado preciosa (estrategicamente) para seguir um livre curso.

O processo histórico é longo e muito complexo, difícil de resumir num post, mas é importante começar (a discutir) por algum lado para perceber o que vai surgindo no dia-a-dia e o que ainda está para vir.

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