Recordando Jorge Amado



Há quatro anos, este foi o último dia inteiro de Jorge. Amado e lido por tantos. Acabou o curso de Direito sem nunca procurar o diploma, num país onde se vai sempre buscá-lo mesmo sem frequentar o curso. Partiu da vida sem querer caixão. Quis ser apenas cinza à sombra de uma mangueira, no seu quintal.

A seis de Agosto deu à eternidade os quatro dias que ainda eram seus até aos 89 anos.

Apreenderam-lhe e queimaram-lhe livros na praça pública. Sofreu a prisão e o exílio mas nunca deixou que lhe aprisionassem a alma ou lhe roubassem os sentidos que guardou para o sortilégio do amor, a vertigem do desejo e a paixão da escrita.

Levou o país do carnaval às terras do sem fim, ao mundo todo, nas páginas dos seus livros. A sua vida foi navegação de cabotagem circum-navegando o povo brasileiro para quem foi, também ele, um cavaleiro da esperança a sonhar searas vermelhas nos subterrâneos da liberdade.

Percorreu a vida, cumprindo-se. Amou. Amou profundamente. O corpo feminino. As mulheres. A vida. Capitão de longo curso a navegar a língua portuguesa através dos livros a que aportou. Viajou com meninos pobres, capitães da areia, ladrões, bêbados, prostitutas, bandidos, em repetidas viagens pelo sertão infestado de coronéis, donos de fazendas e de gente, de cacau e de café, de jagunços e honrarias, de garimpo e engenhos.

Jorge sabia o valor da mestiçagem, sabia que no amor, como na vida, é boa a diferença e sabe bem. Alimentou-o o desejo, ardente fixação no corpo feminino, desejo de que ainda tinha fome quando já não podia amar.

Em Salvador vinha-lhe da baía o cheiro a mar que o inebriava e da terra a força telúrica que o acompanhou. Foi lá que tantas vezes fez da palavra arma e dos seus livros a carabina que empunhou ao serviço das causas que defendeu. Foi lá que a tocaia grande o apanhou. Ao grande Obá.

Levou do banquete da vida um quinhão largo mas deixou abundantes e gostosas vitualhas na mesa da literatura, 44 livros sobre a toalha.

Partiu feito cinza para a sombra da árvore que plantou. Iemanjá ficou com ciúmes no mar de S. Salvador da Baía de Todos os Santos. Vestida de água, disponível para ele. Jorge preferiu a terra do porto a que o ligavam as amarras da vida. E por lá ficou. A imaginar os negros da Baía a dançar candomblé à volta da mangueira. Com Orixás a velar. À espera de Zélia. Faz quatro anos.

Comentários

Anónimo disse…
Venha de la a foto da Regininha, que me disseram que tem motorista, carro, gabinete e ordenado de 2500€ mensais!!!!!!

Mas tambem me disseram que agora foi de ferias!!!!
Antes de ter entrado estava de BAIXA!!!!!! Depois ja deixou de estar!!! Será que as ferias lhe irão fazer bem???

Isto nao é normal!!!

Será que um detentor de um cargo publico pode BURLAR ESTADO???
Anónimo disse…
ó esperança vá... conte-nos aqui ao ouvido...o que o Baptista lhe prometeu ou o que espera vir a pedir ao Baptista...para tanto amor!
Vá..não diga que o amor é ao PS e que um independente não filiado pode gostar tanto do PS ou mais que um militante, porque isso eu concordo, só não acredito que seja o seu caso...senão por onde andou estes anos todos que nunca o vimos tão defensor dos candidatos do PS à Câmara de Coimbra nem a defender tanto um presidente do PS?
André Pereira disse…
Obrigado por uma prosa tão bela a prestigiar um dos maiores cultores da nossa língua portuguesa.

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