Recordação do Dr. Emídio Guerreiro

Emídio Guerreiro

Tive o privilégio de conhecer o Dr. Emidio Guerreiro durante perto de meio século.

Conheci-o no dia 31 de Janeiro de 1958, num jantar comemorativo em Paris da revolução do Porto, e depois encontrei-o sempre, até 1963, em todos os "31 de Janeiro" e "5 de Outubro" em que a emigração política, e nunca o governo, comemorou estas datas nacionais.

Houve, continuamente, uma actividade política da Oposição portuguesa em Paris, que nunca baixou os braços, e teve, como seu polo principal, a casa do Dr. Guerreiro na Av. de Versailles 135. Vou-me lembrar para sempre do seu número de telefone: MIR-28-51, donde tantas vezes me chamou, ás vezes às tantas da noite.

Lembro-me de uma vez que lá foi, já perto da meia noite, e encontrei um motorzinho de energia e actividade política que dava pelo nome de Manuel Serra, e que tinha vindo do Brasil preparar o que veio a ser o golpe de Beja.

Associados ao Dr Guerreiro, recordo momentos de alegria e de angústia. Entre as imagens, há uma que não esquecerei: a do Dr. Guerreiro a entrar no avião, no Aeroporto de Argel, onde tinha ido ajudar à libertação dos portugueses que tinham sido presos pela polícia argelina, a levantar ao alto o ramo de flores que os portugueses lhe tinham oferecido. Nesse dia , houve mais portugueses no Aeroporto de Argel a despedirem-se do Dr. Guerreiro, do que argelinos a
receberem o Presidente Ben Bella, que seria derrubado pouco depois.

Há um outro episódio que quero aqui contar. Foi já depois do 25 de Abril, num dia em que o acompanhei à Baixa de Lisboa. Vendiam-se, na altura, no passeio do Rossio, uns jornais de extrema-direita, tipo " Barricada" , ou algo no género.


O Dr. Guerreiro olhou, e disse alto e bom som: "Gosto de ver estes jornais à venda."

Um dos vendedores acorreu logo solícito e perguntou: "Concorda com eles?"

Teve de imediato a resposta: "Não, acho um nojo, mas são a prova de que há Liberdade no meu País." - a) António Brotas

Nota - Ponte Europa orgulha-se de publicar este testemunho de António Brotas, cuja autorização agradece, uma homenagem de um democrata a outro.

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