Diálogo de civilizações


O diálogo de civilizações não tem passado de um eufemismo com que se apela à trégua entre religiões enquanto todas traçam estratégias para o proselitismo e procuram ganhar poder e influência no processo de globalização em curso.
Não há diálogo de civilizações. A civilização é já a síntese de culturas cujo apanágio é a tolerância e o direito à diferença. A democracia não debate com o totalitarismo nem este aceita aquela.

Há hoje uma luta ruidosa entre a civilização e a barbárie, entre os que fazem da fé uma opção particular ou não a têm e os que não desistem de a impor aos outros, entre os que cumprem os preceitos de uma qualquer doutrina de forma discreta e os que se esforçam para que todos adiram à sua.

É urgente parar os actos terroristas que dilaceram o mundo. As pessoas estão receosas e a civilização em risco. O fundamentalismo protestante dos EUA incentiva os líderes de outras religiões que o secularismo e a laicidade tinham contido. Os pastores que atacam as clínicas que praticam abortos nos EUA, à frente de fanáticos desvairados, são iguais aos terroristas islâmicos que destroem um autocarro com crianças cujos pais têm uma religião diferente.

Há hoje uma desgraçada tendência nos países árabes para impor o totalitarismo religioso e um ódio aos cristãos que se assemelha ao que estes tinham aos judeus antes da última Grande Guerra. Os árabes cristãos estão a desaparecer do Médio Oriente, obrigados ao exílio ou à conversão, e, neste caso, objecto das suspeitas que o cristão-novo inspirava à Inquisição, na Idade Média.

Deixar que os cristãos e judeus sejam extintos entre os árabes é condenar uma etnia à pureza religiosa e todos sabemos os riscos da «pureza», das raças às ideologias, das religiões às convicções políticas.

É difícil que os europeus continuem a facilitar a prática do Islão quando nos países em que ele é maioritário se impedem práticas cristãs, judaicas ou budistas e não se tolera o ateísmo, quando a heresia e a apostasia podem custar a decapitação, quando o Corão é o instrumento de fanatização de crianças e a fé o detonador do ódio.

Todas as religiões se consideram detentoras do alvará da empresa de transportes para o Paraíso e do único deus verdadeiro, donde se conclui que todas as religiões são falsas menos uma. Na melhor das hipóteses.

Os herdeiros do Iluminismo e da Revolução Francesa não podem deixar-se imolar pelos que não se contentam com o Paraíso para si próprios mas se obstinam em impô-lo aos outros.

Comentários

e-pá! disse…
REFLEXÕES AO BATER DA TECLA SOBRE O DIÁLOGO CIVILIZACIONAL

As civilizações nascem, crescem (normalmente aí impõem-se sob a forma de impérios), entram em declínio e morrem.
As civilzações são casos específicos e caracterizados de cultura social. As religiões só acessoriamente e tardiamente entraram no processo civilizacional.
De resto, mesmo fora deste contexto, a luta pela hegemonia andou sempre ligada, foi a marca de água, dos múltiplos processos mutacionais nesta área.
As civilizações competem, munem-se de capacidades bélicas e conquistam poderes económicos e imõem-se culturalmente, artísticamente, cientificamente, etc.
Todo este processo é recheado de atritos.
A civilização judaico-cristã a que pertecemos, hoje ainda hegemónica no Mundo, não pode, nem deve, fechar portas.
Não pode negar o diálogo. Até porque nem tem força para se impor na escala global em que todos vivemos.
Hoje, ao não tolerarmos a civilização islâmica que, apresenta enormes indícios de declínio, viu nascer no seu seio o virus da violência, que já não controla, estamos a bater no mais fraco. O estertor de uma civilização é sempre conturbado, doloroso. Em todos os sentidos e nas diversas conotações possíveis.
Chegados aqui somos tentados a negar o diálogo e a tentar a força.
Foi, em certa medida, o que o "Ocidente" foi fazer ao Iraque, tem vindo a praticar, há longos anos, na Palestina, etc.
A civilização "ocidental" não pode alinhar por estas balizas. E, não é por este caminho que interpreto o post.
Mas veja-se, as novas direcções civilizacionais que o Mundo vai tomando.
Começamos a abrir as portas às civilizações orientais (hindu, confuciana, etc.), em franca emergência, nomeadamente económica.
Todavia o crescer de uma civilização, a sua expansão, é, também, recheada de conflitos, de refregas, em direcção a hegemonia.
E a hegemonia económica dita a cultura social dominante. Alexandre, o Grande, em plena vivência da cultura helenística, já o sabia.

Apostemos então no debate, já que não gostamos - em questões civilizacionais - do diálogo.
Enquanto esperamos o melhor é tomar um copo de Wang Chao (bebida tradicional chinesa), que francamente não aprecio.
Mas, provavelmente, teremos de nos habituar...
Anónimo disse…
Desde a Guerra fria e o desenvolvimento da bomba atómica, a forma de sucessão histórica das culturas e dos impérios deixou de se fazer como até aí.
Anteriormente a hegemonia militar acabava por criar uma supremacia económica cultural e social.Isto è, anteriormente uma vitória militar era uma vitória em bloco, onde naturalmente se impunham as outras dimensões de uma dada civilização.
Hoje a supremacia económica da china não significa uma supremacia cultural, e são estas diversas àreas de influência que se entrecruzam e que torna tão interessante a sua análise.Por um lado, a China e outros países emergentes, pujantes económicamente mas sem uma cultura social que se imponha, por outro, os países àrabes, que ainda que com petróleo, não conseguiram realizar o milagre económico.
Finalmente o apelo ao choque de civilizações baseado no preconceito religioso de que todos temos de nos submeter a uma dada religião.
Trata-se antes de procurar um diálogo(melhor que debate) entre civilizações,no sentido em que o ocidente aceita a religião muçulmana desde que esta não se pretenda impôr aos ocidentais.Nomeadamente o dogma da não separação do estado e da religião.
Como aliás o reverso da medalha também é verdadeiro.
Finalmente, a Europa e o Modelo Social Europeu como uma conquista fundamental dos nossos dias, mas com falta de liderança económica e política, face aos complicados consensos que a tomada de qualquer medida exige.
E por último os EUA em que apesar de uma supremacia bélica não consegue impõr os seus pontos de vista o que só confirma o anteriormente dito.
Com a Globalização hoje o mundo nunca será monocolor,e portanto uma civilização nunca se imporá de uma forma absoluta a qualquer outra, este equilibrio é agora ainda mais visível e mais actual.
Anónimo disse…
Esqueceu-se de falar dos ateus que querem converter todos os outros à sua crença de ausência de Deus.

Mensagens populares deste blogue

Cavaco Silva – O bilioso de Boliqueime

Tunísia – Caminho da democracia ou cemitério da laicidade ?