O Conselho da Europa e a crueldade religiosa

O Conselho da Europa equiparou a circuncisão à ablação do clitóris, duas mutilações rituais que ocorrem em âmbito religioso, respetivamente judaico e islâmico, podendo, no caso da primeira, ser acauteladas as indicações médicas que a aconselhem.

No caso da ablação do clitóris, não sendo uma perversão obrigatória do Corão, acontece sempre em contexto islâmico e não tem qualquer justificação a crueldade que a tradição e a fé impõem.

Estas mutilações tornam censuráveis as religiões que as praticam. São cerimónias cruéis que a superstição e a tradição mantêm. O esclavagismo, a pena de morte e a tortura são tradições herdadas do Antigo Testamento, um conjunto de livros abomináveis da Idade do Bronze mas, nem por isso, são defensáveis. Caem, aliás, sob a alçada do Código Penal dos países civilizados.

Não há ignomínia que a tradição não justifique. É justo que os herdeiros do Iluminismo repudiem os manuais terroristas que alimentam a crueldade e servem de ganha-pão aos funcionários de Deus.

O Conselho da Europa, definindo a circuncisão como «violação da integridade física dos meninos» acaba de condenar a barbárie com cinco milénios de tradição, ainda que possa haver benefícios terapêuticos que aconselhem a intervenção cirúrgica numa idade mais avançada.

A crueldade de Deus não pode sobrepor-se e ao humanismo. O CE tomou uma decisão que o honra. A civilização venceu a tradição.

Apostila - Este post foi modificado. Onde estava erradamente «Parlamento Europeu» foi corrigido para «Conselho da Europa».

Comentários

e-pá! disse…
Na verdade, devo confessar que esta decisão do PE sobre a circuncisão masculina surpreendeu-me porque aparentemente colidiu com duas coisas: o meu enquadramento cultural e profissional e o meu distanciamento religioso.
Na realidade, ambas as circuncisões (masculina e feminina) são (ou podem ser consideradas) mutilações corporais. Aliás, o termo mais corrente para definir a vertente feminina é 'mutilação genital'.
Ambas têm origem remota e foram posteriormente apropriadas pelas religiões abraamicas tornando-se num 'sinal'. Aliás, os judeus - em relação à circuncisão masculina - chamam-lhe o 'sinal do pacto', o que define com clareza o seu âmbito religioso.

Por outro lado, face às diferentes religiões, estes 'rituais' (para usar uma expressão neutra) tiveram ao longo da história da Humanidade diferentes evoluções sendo notório que, campo dos direitos humanos, a mutilação genital feminina cedo resvalou para uma incompreensível e intolerável barbárie.
Em contraponto e quanto à circuncisão masculina a tolerância cultural (e não religiosa) instalada (como é o caso de muitas pessoas) estando relacionada com eventuais indicações terapêuticas e simultaneamente porque o seu carácter ‘mutilante’, poder ser fisicamente (anatomicamente) reduzido a um procedimento correctivo, universalmente praticado sem qualquer substrato discriminatório (rácico ou religioso).
Todavia, a reacção de Israel em relação à resolução do PE link é reveladora de como se quer transitar de um ritual religioso para o terreno rácico. A resolução europeia circunscreve-se à proibição por motivos religiosos mas o protesto israelita vê nesta medida “tendências racistas e de ódio”.
Há algo na reacção de Telavive que não bate certo.

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