Até sempre, camaradas

Amigos e camaradas do BCAÇ. 1936

Hoje, no almoço da Régua, sinto que faço falta, uma falta igual à de cada um que faltou, falta cada vez maior, à medida que somos cada vez menos. É a primeira ausência à festa anual da família, da única família que todos fomos, durante 26 meses, espalhados entre o Catur e  Malapísia, onde se teceram os laços da família que ainda somos e seremos.

Interrogo-me como foi possível construir tão sólidos afetos numa guerra injusta e inútil que a ditadura teimou em continuar contra os ventos da História e a vontade dos povos. E agora, aos que lá perdemos, todos os anos se juntam outros que partem. Que saudade! E não merecíamos perder um só, de nós, porque, por cada um que parte, é o coração de todos que fica a sangrar por dentro com fratura exposta na família que se reduz.

Valem-nos os filhos e netos para manterem vivo um ritual onde são fortes os afetos que resistem ao tempo, à crise e ao desânimo, numa desvairada ânsia de nos abraçarmos em cada novo encontro, como se do último se tratasse.

A verdade é que esses laços são fortes como a memória que nos persegue, sólidos como a vontade que em cada ano, convocados pelo Torres e pelo Barros, nos leva aos lugares onde são robustos os abraços, saudosas as recordações e emocionantes os reencontros.

Hoje é em casa do Fernando, com o Douro lá em baixo, a recolher-nos as lágrimas de alegria, à chegada, e de saudade, à partida. O Douro, a perder de vista, tem a beleza, a dimensão e a dignidade que o esforço de tantos merece. Que sacrifícios, até privações, para tantos que de tão longe se deslocaram com as famílias, sacrifícios retribuídos com um simples abraço de um velho camarada que persiste em viver e voltar.

Para saudar as famílias dos que estão, para sublinhar a união indestrutível dos que um dia se acharam em Malapísia ou no Catur, aí estará o Lopes por intermédio de quem, no abraço que lhe deixo, estreito todos os presentes. E que falta me fazeis todos, sobretudo hoje!

Da razão da minha falta vos dirá o Torres ou o Barros mas da mágoa da minha ausência só a ansiedade que por estes dias vivo poderá aplacar a tristeza de faltar ao encontro que assinala 44 anos do regresso que todos os dias sonhámos durante 26 longos e dolorosos meses, à espera do Vera Cruz.

Para o ano estarei convosco, se ainda existir. Aliás, estarei sempre convosco, em cada dia que viver, na fraterna solidariedade que me devolve às picadas do Niassa, para sentir em cada um de vós o reflexo do meu afeto e trocar as rugas que o tempo esculpiu pela juventude que lá deixámos.

Boa tarde, camaradas. Até sempre! Feliz regresso a casa.

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