As eleições: Texto perverso

As eleições gerais que tiveram lugar, por mais plumas com que se enfeitem os pavões, são o que parecem e não o que delas dizem.

O PS ganhou graças a António Costa e Passos Coelho. O PSD perdeu graças a Cavaco, a Passos Coelho e a Portas. O PCP provou que as notícias sobre a morte anunciada eram claramente exageradas. O BE esvazia-se, lenta e eficazmente, sem votos, mas com uma campanha honesta. A certidão de óbito virá com as eleições europeias.

O CDS, sem vergonha do líder nem de si próprio, exulta por ter sido barriga de aluguer de cinco municípios de que dificilmente alguém saberia o nome de todos. Paulo Portas orgulha-se de ter apoiado um representante da alta burguesia portuense, apoiado por Rui Rio, no ódio de estimação a Meneses, e esconde que o novo autarca não o quis por perto durante a campanha.

Os independentes, convictos de que a entrega do cartão partidário os emancipa, terão de provar de quê e de quem são independentes. A necessidade de emprego tornou algumas derrotas dilacerantes e deixa muitas promessas por cumprir.

Em Cascais, a vitória do PSD sobre o pouco recomendável ex-presidente da ANF, foi a saborosa notícia para quem espera do PS um módico de memória e decência na escolha dos candidatos. Foi uma derrota merecida do líder do PS.

Cavaco, ao abrigo das escutas do PM nominal, viu a sua irrelevância e a incompetência acentuarem-se, sem capacidade para defender os seus nem para se defender a si próprio dos cerca de 70% dos eleitores que ontem o humilharam.

Na Madeira, Jardim exalou o último suspiro e deixou de ser um cadáver adiado, passou a ser um defunto que deixa uma herança que todos gostariam de poder repudiar.

Passos Coelho deixou de ser irrelevante no Governo e passou a ser uma insignificância nacional. Sem méritos que o recomendem, não sabe como explicar um défice superior a 7% num país que conduziu à saturação fiscal e a níveis de pobreza insuportáveis.

Estas eleições tiveram o mérito de tornar os partidos mais exigentes e talvez se tornem mais vigilantes quanto à captura que as suas cliques fazem dos respetivos aparelhos. O PSD, que devia recordar-se de Santana, nunca mais se deixará aprisionar por tamanha mediocridade. O PS, com as barbas de molho, talvez entre em retiro espiritual a refletir sobre o líder. O País não lhes vai dar descanso. E também não pode dormir descansado.

Ponte Europa / Sorumbático

Comentários

e-pá! disse…
Muitos dos 'independentes' não passam de cidadãos que, perante as perturbações inerentes a um processo eleitoral, colocaram a sua filiação partidária 'pendente' (voltarão quando forem perdoados ou desejados).
Alguns nem foram tão longe e colocaram-se na situação de 'dependentes' (são os candidatos 'independentes' que concorrem em listas partidárias).
Nada disto serve para atenuar ou justificar a inquinada e enviesada metodologia dos partidos na elaboração e 'construção' de candidaturas para cargos que irão ser submetidos a escrutínio público.
Nas presentes eleições autárquicas a situação tornou-se particularmente melindrosa. Na verdade, quase uma centena de 'dinossauros' do poder local - apesar da confusa 'nova legislação' - foram obrigados a colocar os seus lugares aparentemente 'cativos' (eram 'revalidados' de 4 em 4 anos) a um 'novo tipo de escrutínio' em que pretenderam que os cidadãos discutissem entre a sucessão dinástica, interregnos, transferências subestimando a escolha livre e democrática.
Ainda não consegui ver (ou ler) nos partidos, nos comentadores e nos órgãos de comunicação social uma análise global e aprofundada destas situações, mas penso que o seu estudo poderá fornecer importantes contributos para melhorar os processos de intervenção partidários - e da sociedade civil - na 'construção' de boas propostas que sejam 'oferecidas' ao eleitorado para decidir.
Eu,filho de pobres trabalhadores do campo e um simples operário emigrante na Holanda onde resido desde 1964 e já velhote(89 anos), digo simplesmente que em Política não há ninguém independente e pelo que li numa entrevista de 2012,
dada por êsse senhor Rui Moreira, que se diz independente,afinal é um monárquico confesso e como tal,no meu fraco entender de um simples filho da Plebe,digo que êle é apoiante da Alta Burguesia, da Fidalguia e quiçá será apoiante duma Monarquia como no Passado,em que havia três classes sociais-Clero,Nobreza e Povo,o que prova que Rui Moreira não é independente.

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