Obama, Estado Islâmico e os preparativos de uma guerra anunciada …


Nem o Ocidente pode considerar-se representado (na sua totalidade) pela cultura e tradição judaico-cristã, nem o Oriente é um feudo do islamismo ou mais a Leste da tradição confucionista.
Na verdade, todos aqueles que subsidiários de uma ‘doutrina global’ (que rege aspectos religiosos, culturais, políticos e militares) pretendiam dominar o Mundo, hoje, defrontam-se com problemas não equacionados no Alcorão ou na Sharia. O Mundo é mais complexo e vai para além das meditações de Maomé tal como o percurso da Humanidade transcende largamente as parábolas e profecias biblicas que informaram de modo determinante a dita civilização ocidental.
O Islão dá pouca importância e nenhuma relevância aos direitos individuais (liberdades fundamentais) nitidamente prejudicadas pela preponderância da Umma (comunidade islâmica mundial). É esta situação que ‘alimenta’ o califado, isto é, um governo islâmico para o Mundo. Este é também o incomensurável défice islâmico (o das liberdades individuais) que cerceia as suas ambições e os condena a ser derrotados pelos homens livres.
Hoje, quando o presidente Obama anunciar a estratégia política contra o Islão militar está a antecipar um caminho, uma solução, que se rege por um resultado esperado link, dadas as forças em confronto. Mas não chegamos aqui por mero acaso.
Na verdade o fundamentalismo islâmico foi primitivamente incentivado por ‘políticas anti-comunistas’, cegas e aplicadas ‘ad hoc’, isto é, ao sabor dos interesses do momento. O ‘Ocidente’ ainda não conseguiu libertar-se desse estigma e tem reincidido.
Foi assim na Indonésia de Sukharno, em 1965, qundo grupos islâmicos (Sarakat) dizimaram mais de 1 milhão de indonésios supostamente comunistas e, depois, no Afeganistão, em 1979, quando o Ocidente armou e apoiou politicamente os talibãs (chamava-lhes ‘combatentes da liberdade’) para derrotar a intervenção soviética, sem medir consequências futuras. O fim dos blocos político-militares decorrente do desmembramento do ‘império soviético’ não gerou novos equilibrios ao contrário do esperado.
A partir daí caminhou-se para o descalabro cavalgando a ‘onda da globalização’ o que viria a culminar com a tragédia do 11 de Setembro de 2001.

A política externa ocidental (se assim se pode falar) pouco se importa com a crença religiosa partilhada pelos seus ‘peões’ mas deu bastante valor a questões de poder ligadas a interesses económicos vitais como é o caso dos recursos naturais minerais e energéticos.

Quando olhamos para as ditas ‘primaveras árabes’ verificamos que elas, na prática, só serviram para derrubar tudo o que tinha algum cheiro de laicidade nos países muçulmanos. Óbvio que este laicismo sediado em países muçulmanos padecia de uma enfermidade grave. Estava infestado pelo vírus da ditadura, na maioria dos casos, adquirido por ‘manu militar’. Foi assim no Egipto (os generais Nasser, Sadat e Mubarak), na Argélia (militares Boumedienne e Bendjedid), na Tunísia (o combatente Bourguiba e o general Ben Ali), No Iraque (o militar Sadam Hussein), na Libia (o coronel Kadafi) e na Siria (general Hafiz El Assad e seu filho Bashar). Fora deste ‘arco mediterrânico’, no Oriente Próximo, temos ainda – em curso – uma ‘revolução silênciosa’ (tenebrosa), na Turquia, outro País maioritariamente muçulmano, onde a laicidade imposta por mais um militar (Ataturk) fenece diariamente nas mãos de um ‘irmão’ de nome Erdogan.

O ‘califado’ entronca-se neste descalabro, nesta multitude de insurreições e na bagunça dai decorrente e, aparentemente, nasce para impor ordem na ‘rua árabe’ à custa da força, do dinheiro ‘escondido’ e do terror através de barbaridades e selváticos procedimentos.
Barark Obama pretende liderar a ofensiva contra o ‘Estado Islâmico’ e declarou que pretende explicar aos americanos (e aos Congressistas) a estratégia de luta link. Seria bom que o presidente americano fosse mais além e explicasse a estratégia que delineou ao Mundo, isto é, aos cidadãos livres e que pretendem continuar a ser livres.

Ninguém, neste momento, no Mundo Ocidental está em condições de organizar uma ‘cruzada’ assente em modelos medievais. A mobilização necessária e urgente contra as reais ameaças do Estado Islâmico ao Mundo (esse é um ponto de partida consensual) passa por um completo e exaustivo clarificar de posições e de enunciar resultados expectáveis no âmbito da estratégia sobre política externa global que, necessariamente, tem de ser feito de modo transparente e inteligível. E o espaço natural para este momento não é o Congresso dos EUA, mas obviamente a ONU.

O Ocidente deixou, há muito tempo, de alinhar em ‘guerras santas’. Este é o momento de a política se manifestar. As operações militares a levar a cabo devem ser consequência das decisões políticas que segundo se depreende estão ainda em incubação e não foram expicitadas. Convinha não voltar a andar com o carro à frente dos bois.

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