Com os nervos à flor da pele

A retumbante vitória de António Costa pôs os nervos em franja a muita gente. À direita porque é mais difícil de o derrotar e à esquerda porque recolhe aí muitas simpatias. Não admira, pois, que militantes de outros partidos «aconselhem» o que os militantes do PS devem exigir a António Costa.

É uma pena que os partidos não sejam todos a extensão da nossa vontade, o instrumento dos nossos desejos, o veículo das nossas ambições, mas a realidade é outra. Os partidos são o que cada um deles deseja e não o que os seus adversários pensam que deviam ser. Ao eleitorado cabe escolher quem mais lhe agrada. É a vida. Em democracia.

Curiosamente, em vez de ser vista como uma vitória da esquerda, onde os dois últimos e inenarráveis líderes da UGT viram as ambições desfeitas e descoberto o oportunismo, à esquerda e à direita do PS cresceu o azedume, multiplicaram-se as injúrias e chegou-se ao cúmulo de escarnecer a idade de Soares, Alegre, Almeida Santos e Ferro Rodrigues, como se a velhice não fosse um privilégio dos que lá chegam e, nestes casos, uma honra pelo percurso, pela coragem e dedicação aos seus ideais.

O azedume de quem tem mau perder não é apenas um fator desencadeante da úlcera gástrica, é um risco para os neurotransmissores, capazes de perturbarem as sinapses dos melhores neurónios.

A aceitação e o respeito pelas vitórias alheias seria um saudável sinal de maturidade democrática que quarenta anos de liberdade deviam ter feito germinar.

Comentários

e-pá! disse…
Diz o post: "onde os dois últimos e inenarráveis líderes da UGT viram as ambições desfeitas e descoberto o oportunismo"...

Ontem, Pacheco Pereira fez no jornal Público uma clarividente análise das primárias do PS sob o título de "O dia um do ano eleitoral" (pág.7).

O libelo que lança ao ex-líder AJ Seguro é simultaneamente demolidor e esclarecedor.

Escreve:
"2. Porque é que digo que o PS não tem sido um partido de oposição, mesmo apesar do radicalismo verbal do seu antigo secretário-geral? Por coisas como esta: na última semana antes das primárias houve um encontro secreto entre o secretário-geral da UGT e o primeiro-ministro. Segundo diz o oráculo governamental, Passos convenceu o secretário-geral da UGT a aceitar o acordo sobre o salário mínimo. Tudo quanto é ministro do primeiro ao último, incluindo o ministro-viajante Paulo Portas foi lá à concertação social (que eles desprezam todos os dias, a não ser quando têm a UGT no bolso) para marcar a grande vitória do governo. As fontes do governo diziam que era fundamental haver um acordo antes do final do processo eleitoral do PS. Percebe-se porquê. O secretário-geral da UGT é um dos principais executantes da política de Seguro, de que foi um dos mais activos apoiantes, prestou-se ao timing propagandístico do governo e à substância de um acordo que fragiliza a segurança social, a mesma que o governo usa como pretexto para as suas posições neo-malthusianas. Mais um exemplo do que aconteceu nos últimos três anos".

Ora aí está um gritante conluio entre política e negócios (político-eleitorais) que toda a esquerda portuguesa agradecia ver desfeito, urgentemente.

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