PS: as primárias e as suas circunstâncias…


As ‘primárias do PS’ encerraram, na noite de domingo, um penoso e longo ciclo que os socialistas tiveram de enfrentar mas o saldo é francamente positivo. O sobressalto trouxe discernimento, clarificação e outras vantagens. Será cedo para fazer um balanço concreto deste passo e  tirar ilações para o futuro, todavia, a noite eleitoral, no mínimo, conseguiu ‘arrumar a casa’.

Tudo correu bem apesar das primárias terem nascido de uma manobra dilatória (4 meses) promovida pela anterior direcção quando confrontada por António Costa.

As últimas eleições europeias fizeram soar as campainhas no seio da ‘família socialista’ o que não foi entendido por toda a gente. De facto, em Portugal não existiu um total ‘crash’ (como em Espanha e na Grécia) mas o aviso acerca da incapacidade de a demissionária direcção partidária funcionar com alternativa não poderia ser por mais tempo ignorado.
A resposta de Seguro quando pressionado para facilitar mudanças e confrontado com a pública e directa disputa da liderança foi um arremedo de 'reforma política' através do recurso a veículo consultivo alargado ('primárias') que se extendia a um (ab initio) desconhecido número de ‘simpatizantes’ e ‘apoiantes’. Um esquema decalcado de países que giram à volta do sistema bipartidário para enxertar em outros em evidente crise partidária. Nada de inovador e um modelo de extensibilidade com alguns riscos.

Um outro factor tem estrictamente a ver com o aparelho partidário que frequentemente se deixa aprisionar por dirigentes e interesses concelhios, federativos ou nacionais. As primárias poderão ser um caminho para enfrentar a crise de confiança que assola os partidos dificultando os diktats do aparelho, mas não um expediente (como na realidade foi esta primeira experiência). 
A urgência de organizar diálogos frutíferos e esclarecedores bem como o apuramento das metodologias de escolha, sem tempo para estudar e controlar o ‘ambiente’ político só poderia – como se verificou durante o duelo Seguro/Costa – resultar numa lamentável crispação, acusações gratuitas e intoleráveis, revisionismos históricos que, felizmente, o desfecho de domingo esclareceu e sanou. Mas correram-se alguns riscos.
Não parece ser claro e óbvio (líquido) que a figura do ‘simpatizante’ compartilhe com o militante os mesmos direitos (electivos) quando não acarreta as mesmas responsabilidades organizativas, de financiamento e de ‘militância’. Há aqui algum grau de desequilíbrio muito pouco confortável. Por outro lado, o simpatizante aparece imerso numa larga fluidez ideológica – sem exigências de definição - difícil de separar da casualidade e da oportunidade. Aliás, um bom indicador do sucesso da inciativa será verificar – no futuro próximo – o número de simaptizantes que passarão a militantes.

Os dados actuais (a clarificação por uma esmagadora maioria de votos em António Costa) mostram que esta ‘experiência’ foi um sucesso. O ‘apelo  mobilizador’ que se quer vasto e confluente, quando o partido está desmotivado não proporcionou, como alguns esperavam, mais-valias ao poder instalado. Porque o importante na situação actual situa-se ao nível das expectativas. Nas primárias o fundamental não seria conquistar (contabilizar) novos apoiantes mas, acima de tudo, tornar efectivo e participado o exercício da política através de uma actividade partidária eficaz (na conquista de vitórias nacionais, regionais e locais).

E quanto a mudanças nas opções políticas, formas de enfrentamento da actual maioria e requalificação de caminhos políticos (não substancialmente diferentes dos actuais) é muito cedo para vaticinar qualquer coisa que não se confunda com os lugares comuns. 
Para além da mudança de protagonista (e foi demorado) nada ficou explicitado quanto a uma nova maneira de fazer oposição ao actual Governo que consiga congregar os portugueses a unirem-se contra o evidente desastre da presente governação. Existiu - foi notório durante a noite eleitoral - uma visível inflexão do PS para a Esquerda. Vamos ver quais as consequências políticas. O render da guarda perante uma direcção incapaz não chega. Para já a noite de ontem revelou a tremenda vontade de subsituir a suspeitada inépcia pela necessidade (esperança) de o País poder contar com uma oposição digna desse nome.

Foram, ainda, 4 meses de impasse quando o tempo urgia e o desespero rondava impiedoso o espírito e a vontade dos cidadãos. Decorrente da elevada participação nas primárias, António Costa, dispõe de uma legitimidade acrescida para enfrentar e dirimir as querelas internas no partido e, o mais importante, ganhou força (e carisma) para enfrentar a actual Governo.

Voltando às primárias, o receio é que se trate – como sucede nos jogos de azar – de um caso onde a sorte favorece os principiantes. Existe um cenário que não pode ser liminarmente afastado, nomeadamente, em relação ao futuro. Se acaso o resultado fosse muito aproximado, muito semelhante, como estaria, no ‘day after’, o PS?  E os portugueses???…

Comentários

Há questões interessantes suscitadas neste texto que valem para outros partidos.

A forma como correram estas primárias não são garantia de que, no futuro, corram tão bem.

Não vai ser fácil para os militantes passarem a valer tão pouco.

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