23 de Junho: a antecâmara de um cenário apocalíptico?

Os recentes ‘avisos’ aos ingleses acerca do Brexit subscritos por múltiplos organismos internacionais inundam os espaços mediáticos [ link; link] . Desde a recessão económica a funestos espectros de isolamento existem diagnósticos e previsões para todos os gostos e feitios.

É óbvio que a saída do Reino Unido da UE terá inevitáveis consequências internas e um forte rebate em toda a União cujos contornos oscilam entre as previsões mais pessimistas (o desmembramento) e as mais levianas (a manutenção do status quo).

Politicamente, todos pressentimos que o passo que se ensaia no Reino Unido poderá acarretar o fim do ‘Unido’, tal como ficou definido após a última Guerra Mundial e do processo de descolonização daí decorrente. A Escócia – com uma maioria de eleitores fortemente europeísta – não deverá ficar indiferente a esta convulsão. E fica por esclarecer qual será a atitude futura do País de Gales, bem como a da Irlanda do Norte.

Para além das ondas de choque que atingirão o espaço geográfico europeu será avisado questionar, ainda no plano interno, qual do futuro da Commonwealth e em que medida a sua subsistência está dependente da presença britânica na UE. O desmantelar do ‘império vitoriano’ avançou de modo inexorável com o fim da II Guerra Mundial e, neste momento, prepara-se uma definitiva sepultura.

O Reino Unido ao longo do processo de construção da Europa, i. e., a Comunidade Europeia do Carvão e Aço em 1951, a CEE, em 1957, e, finalmente, a UE que arranca em 1993,  ou primou pela ausência, ou pela distância. Pouco ou nenhum esforço fez a Grã-Bretanha para uma integração no espaço europeu como se pode verificar no processo de criação da eurozona quer ainda por pormenores, como o sistema métrico, a condução pela esquerda, etc.
O distanciamento foi-se acentuando com base em conceitos nacionalistas misturados com um lastro de receios quanto à soberania (perante hipóteses avulsas de federalismo). Continua a vigorar em Londres um conceito tão ‘british’ como o seguinte: quando há neblina no canal da Mancha dizem os ingleses que existe um continente isolado.

Acresce a este quadro distanciador os mais recentes problemas derivados da crise económica e financeira mundial com pesados reflexos na Europa e das dificuldades que uma moeda única gerida no exterior coloca na resolução das crises internas.

Contribuíram ainda de modo determinante para a exacerbação destas difíceis condições de coesão uma permanente e altiva deriva burocrática de Bruxelas que exorbitando nas suas funções ‘administrativas’ ameaçou (e continuará a ameaçar) não só a Grã-Bretanha, como os restantes Países membros da UE, actuando com interferências de toda a ordem, à revelia de qualquer mecanismo de controlo democrático.

O referendo que terá lugar no próximo dia 23 vai considerar todos estes itens. Mas há um se mantém marginal (na exposição mediática) e que ressaltou na recente visita de Obama a Londres link: O Reino Unido afigura-se como indispensável para a conclusão do Tratado Transatlântico, o misterioso TTIP.
 
Mas o pior ainda poderá estar para vir, i. e., a junção do Brexit, a uma profunda convulsão europeia e a eleição do Donald Trump.
Então, estaremos perante um cenário apocalíptico…

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