A decadência ética da UE e dos seus dirigentes

O projeto europeu foi a mais aliciante ambição da minha geração, o fim do isolamento a que o fascismo condenou Portugal, da política do «orgulhosamente sós» e do espaço concentracionário aberto a um continente integrado, económica, social e politicamente, onde os nacionalismos dariam lugar à solidariedade, ao progresso e à paz, e o espírito provinciano ao cosmopolitismo.

A moeda única acentuou o sonho de países que recusam ser satélites e exigem tornar-se parceiros federados numa comunhão de interesses, cultura e projetos, mas não há moeda que resista às rivalidades políticas, económicas, fiscais e à geometria variável dos níveis de progresso e bem-estar dentro do mesmo espaço geográfico que lhe serve de suporte.

Nem sequer na política externa e segurança a União Europeia encontrou o cimento para a sua unidade. Goste-se ou não – e eu gostaria –, o espaço europeu devia ser paradigma civilizacional da Humanidade. Não custa partilhar a soberania, rebaixa prescindir dela a troco de precárias ajudas financeiras e de perpétuas humilhações políticas.

Quando olho para os atuais dirigentes políticos da UE e para a multidão de funcionários cuja capacidade de decisão não tem legitimidade política e lhes falta em dimensão ética o que lhes sobra em poder de facto, lembro-me de uma grande figura – Jacques Delors –, que daria lugar aos últimos pigmeus.

Quando o cúmplice da invasão do Iraque, mitómano compulsivo, foi a Londres ‘ver’ as armas de destruição maciça de Saddam Hussein, e acabou premiado como presidente da CE durante dois mandatos, preparou-nos para o sucessor, Jean-Claude Juncker, ex-PM do Luxemburgo que isentou as empresas multinacionais do pagamento de impostos e para o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, capaz de ornamentar o currículo com um mestrado que não possuía.

Não sei se é a decadência ética da Europa que promove estes dirigentes ou se são estes que conduzem a UE ao pântano em que se encontra. Ou uma coisa e a outra.

Comentários

e-pá! disse…
O 'presidente do Eurogrupo', Jeroen Dijsselbloem, é - em termos da orgânica da UE - um fantasma, como o mestrado que figurou no seu curriculum até ser desmentido pela University College Cork.
Todavia, este personagem exibe-se nos antros europeus e internacionais como um membro do partido do Trabalho que se posiciona no espectro político neerlandês como pertencendo ao 'centro-esquerda'.
É uma espécie de António Barreto dessas paragens...
Boa comparação. O António Barreto europeu. O AB é o Jeroen Dijsselbloem de Vila Real, com mais habilitações.
É uma coisa e a outra, amigo! Porque uma desgraça nunca vem sozinha.
É uma pescadinha de rabo na boca, com mercúrio dentro.
Uma espécie de Ouroboros, esse cão.

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