A UE, o BREXIT e gestão de danos ….


O impacto do Brexit na política comunitária europeia é incontornável. Muito embora a união política seja um arremedo não é possível avançar numa integração económica e financeira sem o mínimo sustentáculo político. E a fuga a este pressuposto poderá estar na origem dos múltiplos problemas europeus. Esta é uma das constatações directas, um pouco ao estilo lapalissiano, do Presidente da República numa recente deslocação a Mafra link.

A entourage que corteja Angela Merkel e o Sr. Schäuble e está aboletada em Bruxelas vai – muito embora contrariada – tomar consciência que andar a tramar ‘soluções’ nos gabinetes acaba por chocar com a realidade política das nações que lhes pagam o ordenado.

Um exemplo carismático dessa situação é a (di)gestão de conflitos e a manutenção de aparências de equidade para justas soluções. 
Há cerca de 1 ano, Julho de 2015, na Grécia, o Governo recém-eleito promoveu um referendo sobre a aceitação das condições que estavam a ser impostas por Bruxelas por interpostos figurantes armados em representantes dos ‘credores’. 
O resultado foi um expressivo Não [!] link e a partir daí desenvolveu-se uma clamorosa chicana política que desembocou em severas medidas de retaliação sobre o povo grego. O staff europeu pretendeu, sob a batuta de Schauble, o estímulo do FMI e a colaboração da Comissão Europeia (presidida pelo obscuro Durão Barroso), castigar exemplarmente as ditas ‘ovelhas negras e tresmalhadas’. 

Por cá, Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, tentaram passar incólumes a esta vergonhosa cilada a um ‘parceiro europeu’, transformado em ‘inimigo’ (dos mercados?), em que colaboraram silenciosa e vergonhosamente. Um dia Varoufakis terá oportunidade de esclarecer cabalmente esta situação. 

O referendo grego não foi um plebiscito à permanência na UE, bem pelo contrário, foi – simultaneamente - uma reacção popular contra os métodos de resgate que a UE estava a impor, dentro de um quadro de integração da comunidade europeia. 
A reacção dos líderes europeus foi simplesmente vergonhosa e num ápice espezinhou-se o veredicto popular contrapondo uma informe ‘vontade europeia’, nunca sufragada.

Hoje, a União, confrontada com mais um referendo, este de outra amplitude e motivações, acaba por dar conhecimento a Bruxelas de uma rejeição que ultrapassa os insidiosos métodos e as soluções (económicas e financeiras) que têm sido desenvolvidos para os países em dificuldades, sendo que o patamar decisório tinha por objecto uma questão fundamental: o divórcio frontal do projecto europeu. Se fossemos ‘centristas’ não deixaríamos de sentir o misterioso incenso das coisas ‘irrevogáveis’.

No período pós referendo imediato começaram já a soar as trombetas dos adeptos de uma punição exemplar à Grã-Bretanha. Mais uma vez Wolfgang Schäuble a encabeçar os habituais algozes link. Todos sabemos que a Grã-Bretanha não é propriamente um país em dificuldades. Ser a 5ª. potencia económica mundial, ter assento e direito de veto no CS da ONU, possuir o maior centro financeiro europeu, dispor das mais operacionais e bem equipadas forças armadas europeias, entre outras coisas, não facilita a pretensão de novas vindictas vindas de Bruxelas.

Aliás, uma retaliação em força e dura contra o reino de Sua Majestade link, não sossegaria os cidadãos europeus, nem teria a virtude de resolver os prementes problemas que transitaram - desde 5ª. feira passada - da nebulosa e confusa saga de construção europeia, sempre postergada, para uma concreta, imediata e abrupta luta pela sua sobrevivência.  Deixou de fazer sentido um jargão recorrente na boca dos burocratas europeus que a cada nova crise (que não controlavam ou provocavam) bradavam seraficamente por ‘Mais Europa’. De vitória em vitória esses burocratas chegaram a ‘Menos Europa’, quando não ao seu desmembramento.

O que se impõe é procurar as causas remotas deste ‘exit’, obviar - se possível – a novos abandonos. E começa a existir a consciência de que o ‘olho do furação’ poderá não estar localizado no canal da Mancha mas provavelmente assombrará os céus de Bruxelas. 
O primeiro ‘toque’ (ou remoque) já foi publicamente expresso ao Telegraph pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Checa (Lubomír Zaorálek) link .

A confusão e indefinição gerada pelo pós-referendo britânico não deverá servir para isentar de culpas (‘salvar’) os eurocratas.
Depois das negociações de Fevereiro 2016 entre David Cameron e Jean Claude Juncker para adornar e condicionar o referendo link  link, violando regras comuns europeias, parece muito estranho que só o primeiro venha anunciar a sua demissão.

Comentários

MR disse…
Claro, a Alemanha é a causa dos problemas da Grécia, de Portugal, da Espanha e da Itália (PIGS).
Pois até invejam o nosso sol. A cupa é sempre dos outros.
Não varrendo diante de nossas portas, nada será feito para resolver os problemas com que nos deparamos.
e-pá! disse…
MR:

A Alemanha não é a causa de todos os problemas. Mas os interesses germânicos são o motor de muitos problemas.
A culpa da deterioração da comunidade de nações europeias é colectiva (dos membros da UE) mas as políticas não têm uma geração espontânea, nem caiem do céu. Hoje, como sucedeu ontem (no passado), o poderio económico e financeiro 'fabrica' diktats que condicionam política, económica, social e culturalmente os povos. A UE conformou-se com isso (tem contemporizado com esse estatuto de observador atento e obrigado) e perante cada nova crise olha ansiosa para Berlim à espera de 'instruções'.
Não vale a pena varrer este lixo para debaixo do tapete.

Mensagens populares deste blogue

Nigéria – O Islão é pacífico…

A ânsia do poder e o oportunismo mórbido

A desmemória e a dissimulação