Passos Coelho: o ‘esgotamento’ e a síndroma das ‘cangas’…

Portugal é um dos poucos Países do Mundo que cultiva uma síndroma muito específica, de índole popular, que é denominado como ‘esgotamento’. 
Frequentemente, esta situação não passa de um quadro depressivo. Mas o ‘esgotamento’ pretende ter outra dimensão, relacionada com o excesso de trabalho, com a fadiga, fugindo à conotação de um quadro do foro psiquiátrico.

Ontem, Pedro Passos Coelho na discussão parlamentar de um projecto oriundo do seu partido para a criação de uma comissão eventual para a reforma da Segurança Social, acusou a actual maioria de estar ‘esgotada’, sem ‘disponibilidade para nada’, submetida a uma ‘canga dogmática’, etc. link, o que prefigura a emergência de uma situação enquadrável no suposto ‘esgotamento’ atrás referenciado.

Mas, tal como na vida prática, a utilização deste virulento arrazoado argumentativo visa iludir o quadro depressivo vivido no interior partido por a actual maioria impedir aquilo que o dirigente da Oposição defendeu na última campanha eleitoral relativamente à Segurança Social. 
Na altura, utilizou uma figura de travestismo político e designou por ‘plafonamento’ a proposta para a privatização parcial e progressiva da Segurança Social onde os que mais retribuições e rendimentos auferem se desvinculavam da contribuição plena para o sistema solidário e migravam, a partir de determinado patamar (plafond), para fundos privados.

Nessa altura, não vislumbrou qualquer ‘canga dogmática’ porque, na realidade, o dogma em carga foi o ultra-liberalismo, i. e., uma verdadeira ‘canga’ que suportamos 4 anos e meio. Convenhamos que, ontem, no Parlamento Pedro Passos Coelho resolveu representar o sketch de ‘virgem ofendida’.

Na verdade, os eventuais problemas da sustentabilidade da Segurança Social decorrem de uma dose selvática de austeridade que o Governo CDS/PSD aplicou ao País indutor de uma profunda recessão, um desemprego recorde, uma desvalorização do factor trabalho, uma emigração galopante, uma pobreza endémica, que consequentemente ditaram a obrigatoriedade – a contragosto do Governo de então - de um maior esforço no campo dos apoios sociais. Quando entra menos e sai mais o saldo deteriora-se.

O actual governo tem um programa que rejeita frontalmente esta rota de 'ajustamento' e aposta numa estratégia de alívio de austeridade e no crescimento económico o que não tendo sido fácil de acordar à Esquerda é a ‘sua’ opção política. Tem - não devemos ter vergonha em afirmá-lo - um substrato ideológico comum que, muito embora à mínima, foi capaz de congregar um novo rumo de governação.
Todavia, a actual Oposição parece acreditar que através de malabarismos conseguirá inverter a ‘canga’ (para usar o mesmo termo) pondo o carro à frente dos bois.

Neste caso, perante a realidade de um consenso da Esquerda que diariamente desvaloriza com cenas de captura e de reféns, tentou inverter o ciclo político e reeditar aquilo que sabe ser impossível desde a formação do actual Governo.

No presente, como se verificou no período imediato pós-eleitoral, não existe qualquer espaço político para a criação de um ‘Centrão’ e muito menos para tornar o PS prisioneiro da Direita.
Esta a lição que Passos Coelho devia tirar da rábula parlamentar que protagonizou ontem. O resto foi ‘gritaria’ provavelmente decorrente do peso da ‘canga oposicionista’, por estar amuado e sentir-se politicamente desfeiteado. Presentemente entretém-se numa descabida e improdutiva guerrilha diária, dominada pela 'síndroma das cangas', mas com ampla cobertura mediática. 

Seria oportuno relembrar ao ressabiado dirigente do PSD que, nas Beiras, a canga é, também, designada por ‘jugo’. E que ‘jugo’ é substancialmente diferente de ‘jogo’.

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