BREXIT e as alucinadas visões de Montenegro e Passos Coelho…

As declarações do PSD acerca do resultado do Brexit são espantosas. O líder parlamentar Luís Montenegro faz um escabroso aproveitamento político dos resultados e chega a uma fantasiosa conclusão para consumo paroquial. 
A cantilena repetida à saciedade pelo seu partido, quando tinha responsabilidades governativas, exaltando a tónica dos compromissos do País com os nossos ‘parceiros europeus’ afinal poderá não ser bem assim. 
Quem o ouve será levado a supor que, também, saímos da UE e tão somente “estamos dependentes de nós próprios” link. Em que ficamos?

Passos Coelho entrou na 'diarreia comunicativa' sobre o Brexit com considerações generalistas do tipo não me quero comprometer porque tenho muitos amigos em Bruxelas, Berlim e Frankfurt link
À margem do Brexit e para sossegar os portugueses, invocou o Tratado Windsor (séc. XIV) que consagrou a aliança do reino português com a Inglaterra como parte integrante do dote de um casamento entre a casa de Avis com a família inglesa de Lencastre. Mas esqueceu-se que quando se envereda por uma deriva histórica convém abranger uma plêiade de situações e não ignorar, por exemplo, o Ultimatum de 1890, onde a dita aliança foi liminarmente substituída pela brutal imposição dos interesses britânicos.

Nada na Europa incomoda Passos Coelho em termos estratégicos. Fica-se por tacticismos imediatos do tipo “sem dramatismos ou intenções de punição”. Na realidade, percebemos agora porque este dirigente existiu durante o auge da crise económica e financeira europeia como um ‘bom aluno’. As mais recentes declarações revelam-nos que essa imagem foi criada para exibir na praça pública como alguém capaz de vergar a espinha servilmente sempre que confrontado com qualquer tipo de problemas.  

As tonitruantes declarações de amor à UE destes dois políticos não convencendo os cidadãos pelo contrário mostram como é frágil a situação europeia.

Na verdade, o referendo britânico abriu uma profunda ferida na União que este lídimos delegados nacionais do ‘populares europeus’ (e não o inverso) pretendem cicatrizar atirando para a 'União' mais ‘statu quo’. Quando o fim desta 'entente' – que deixou de ser 'cordiale' - é sentido por todo o lado aparecem os arautos de que tudo deve ficar na mesma (numa perversão do conceito de estabilidade).

O espectro europeu, em termos de representatividade parlamentar, está, aberto e exposto a um vasto e diversificado quadro político onde são praticamente impossíveis quaisquer tipos de consensos. 
Desde o imobilismo assente no PPE querendo perpetuar as políticas neoliberais, aos desejos nacionalistas avulsos de uma Extrema-Direita com uma já volumosa fracção representativa no parlamento europeu, passando pelas hesitações dos reformistas e liberais, para desembocar nos ímpetos de reforma de uma Esquerda variegada representada Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas e pelos grupos à sua esquerda, existem soluções para todos os gostos.

Se excluirmos a hipótese de uma convergência suicida entre o PPE e a Extrema Direita temos a noção que os ventos de mudança são imparáveis. 
A mudança pode ainda demorar algum tempo – provavelmente o mesmo que demorará a concretização do ‘exit’ britânico - mas não é mais possível a Europa continuar indiferente a essa necessidade. Sem menosprezar os 27 membros da União existe a noção de que o motor da mudança passa pelo 'eixo franco-alemão' com outra configuração. O Brexit evidenciou isso mesmo só que as preocupações assentam na fragilidade económica da França acrescida de uma galopante debilidade política que a presidência de Hollande não pára de acrescentar. As opções políticas no horizonte da UE passam por este dilema. Um reposicionamento que contempla a 'convocação' de França para um realinhamento e a integração da sua posição na Europa do Sul e periférica. Esta mudança de estratégia carece, contudo, de um bolus de credibilidade mas o susto decorrente do resultado do 'Brexit' poderá ser um factor estimulante e congregador. 

E sabemos que esta mudança é ampla e passa pela revisão dos Tratados que têm estado em vigor, pelo questionar das ditas ‘regras de ouro’ que foram impostas, pela imposição de disciplina e regulação ao sector financeiro, pelo esvaziamento do poder dos burocratas e finalmente pela reforma e democratização do espaço político e instituições colegiais introduzindo mecanismos representativos equilibrados (justos e equitativos).

Enfim, será necessário pôr em marcha a transição da Europa dos credores para a Europa dos cidadãos.
Mas sobre isto a Direita portuguesa não fala nem quer que se discuta. Prefere, numa declarada situação de crise e de pré-ruptura, ficar por platónicas juras de amor (que tanto na política, como na vida, não são eternas).

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