quinta-feira, fevereiro 28, 2013

As últimas horas de um papa sobrevivente


Algures, em Castel Gandolfo, já sem os sapatinhos vermelhos, sem tiara nem camauro, mantem ainda a vida e o pseudónimo de Bento XVI, Joseph Ratzinger, um celibatário a quem alguém se encarregará de fechar hoje a conta do twitter.

Dentro de uma hora perde a infalibilidade e o alvará para criar santos e cardeais e no dedo nu vai sentir a falta do anel que estendia aos ósculos dos beatos e dos que agora se guerreiam pela sua sucessão.

O papamóvel e a guarda suíça deixaram de pertencer-lhe e quando regressar à boleia ao Vaticano vai para a clausura do convento sem crentes a quem dar a bênção nem poderes para confirmar milagres. É a vida. Preferiu ser papa emérito vivo do que defunto santo.

A esta hora andam os teólogos – cientistas de uma ciência sem método nem objeto –, a tentar justificar como se perde a infalibilidade e o alvará perpétuo de Papa porque, de ciência certa, se sabe que, depois de Avinhão, nunca mais houve papas excomungados nem clonados. Deus não se deixa representar por mais de um figurante.

Entre lágrimas dos que foram habituados a acreditar desde o berço e a estupefação dos incréus, na sombra manobram a Opus Dei, os Legionários de Cristo, a Fraternidade de Comunhão e Libertação e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), esta ainda na clandestinidade. A extrema-direita não dorme. Isso é para Deus que, depois de ter feito o Mundo – como acreditam os devotos –, nunca mais deu sinal de vida.

A Quaresma é longa e Cristo – estrela da Companhia – pode esquecer-se de ressuscitar.


CORRESPONDÊNCIA ENTRE SEGURO E LAGARDE

António José Seguro enviou uma carta a Christine Lagarde, presidente do F.M.I., que lhe respondeu.


Não vou pronunciar-me sobre o conteúdo dessas cartas, mas apenas sobre a língua em que foram escritas.

Sendo Mme. Lagarde francesa e Seguro de língua latina, e sendo o francês língua oficial da União Europeia e da O.N.U., porque cargas de água é que se correspondem em inglês?

Torna-se irritante ver todos os dirigentes da União Europeia, a começar pelo latino Durão Barroso, a falar sempre em inglês, como se este fosse a única língua oficial da União. Até os próprios franceses se sujeitam.

Ainda por cima, parece-me que tal acontece não por o inglês ser a língua falada pelos ingleses, mas por ser a língua falada nos Estados Unidos da América, portanto fora da Europa.

Nestes tempos de quase totalitarismo tecnocrático e mercantilista, há que revalorizar a língua de Voltaire!

Notas soltas: fevereiro/2013


Remodelação – Com a contratação do novo secretário de Estado, Franquelim Alves, ex-administrador da SLN, Passos Coelho há de julgar-se o Oliveira e Costa do Governo mas bastava-lhe o ministro Relvas para não precisar de justificação.

TGV – Já Durão Barroso, parco na ética e na coerência, usou o TGV como arma de arremesso eleitoral, para depois assinar com pompa e circunstância, cinco linhas. O atual sucessor, menos perspicaz e mais perigoso, segue a mesma estratégia.

Eleições autárquicas – A lei da limitação de mandatos é uma eloquente metáfora do sistema jurídico português. A aplicação depende dos interessados e das conveniências partidárias.

Espanha – A primeira vítima do escândalo político de subornos ao mais alto nível, o «caso Gürtel», foi o próprio juiz Baltasar Garzón. Os corruptos não puderam destruir as provas do El País mas conseguiram previamente demitir o investigador.

Tunísia – O funeral do líder da oposição ao governo saído da “primavera árabe”, transformou-se numa gigantesca manifestação contra o partido islamita que domina o país, responsável pelo seu assassinato. O Islão e a democracia continuam incompatíveis.

Alemanha – Uma ministra suspeita de ter plagiado parte da tese de doutoramento teve de demitir-se para preservar a confiança dos alemães no Governo da Sr.ª Merkel. Em Portugal ficaria no cargo ainda que tivesse obtido o doutoramento por equivalência.

Vaticano – A renúncia de Bento XVI ao pontificado, com efeitos a partir do dia 28, fez dele o primeiro papa, desde há 600 anos, a sair vivo do cargo.

Coreia do Norte – A obscura ditadura insiste em provocar o mundo com ameaças nucleares. O fim da monarquia dita comunista não é apenas urgente, é uma medida imprescindível para a higiene política e a sobrevivência do seu povo.

Desemprego – Portugal está a 77 mil do milhão de desempregados. São poucos os meios para inverter a dramática situação mas nunca se fez pior, nem tão depressa, e com tanto orgulho e insensibilidade. O desemprego real atinge os 22%.

PR – Cada vez mais sedentário e silencioso, refugiado no Palácio de Belém, não tem uma palavra de consolo, um gesto de solidariedade ou um sinal de esperança para o milhão de portugueses atingidos pela tragédia do desemprego.

Itália – A renúncia papal acabou por desinteressar muitos italianos das eleições em curso. O apoio do Vaticano, que tinha sido transferido de Berlusconi para Monti, foi um fracasso. A intriga ficou reservada à luta interna pela sucessão do pontífice.

Finanças – A exigência de mostrar faturas, sancionando os clientes que as não solicitem, revela o desespero do Governo e transforma um direito numa obrigação que arrasta a revolta, a fúria e o desprezo.

Emigração – Duzentos mil jovens poliglotas, altamente preparados, é a perda do país, incapaz de rentabilizar o investimento feito e cada vez mais afastado dos caminhos da recuperação económica, social e financeira. Perdemos os jovens e o futuro.

União Europeia – Verifica-se a metáfora da bicicleta: se parar, cai. Apesar da oposição, só o avanço federalista, rápido e decidido, evitará a desagregação económica, social e política do espaço europeu.

Lei do arrendamento urbano – Não espanta que a mais desumana lei contra os inquilinos e, em alguns casos, terrorista, chegue pela mão de uma ministra do CDS. O pequeno partido, que sabe infiltrar-se bem no aparelho do Estado, mostra a sua natureza.

Carlos Brito – A dimensão humana, cívica e patriótica do resistente à ditadura mereceu a homenagem de que foi alvo no seu 80º aniversário, homenagem que devia ter sido nacional se o sectarismo partidário não se confundisse com a ingratidão.

Fernando Ulrich – Antigamente os banqueiros mandavam nos governos mas guardavam silêncio. Hoje, já não se limitam a mostrar quem manda, insultam quem querem e decidem a austeridade que pretendem e o nível de sofrimento suportável.

Venezuela – O regresso do carismático presidente, cuja doença impediu o início regular deste mandato, pode permitir uma situação negociada que evite a tradição de discutir pelas armas as dúvidas constitucionais e as rivalidades partidárias.

PGR – A não recondução de Cândida Almeida à frente do DCIAP é um direito. Se o processo disciplinar se deveu a violações do segredo de Justiça foi um dever. Se  há interferência sindical ou política, expira a credibilidade que resta ao Ministério Público.

Irlanda – O pedido de perdão do primeiro-ministro, emocionado com o suplício de dez mil mulheres escravizadas em lavandarias da Igreja católica, entre 1922 e 1966, foi a reabilitação possível das vítimas de gravidez indesejada, deficiência, pobreza ou crimes como andar de autocarro sem pagar bilhete.

Itália (2) – O FMI impôs Mário Monti. Os eleitores desforraram-se do vexame com o cómico Beppe Grillo (25%) e a reincidência em Berlusconi. A excentricidade do voto deixou o país ingovernável e a Europa mais próxima do desastre.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Na hora da despedida...


Passos Coelho na Faculdade de Direito de Lisboa


Por mais incompreensão ou animosidade que suscite, repudio a coação física de foi alvo Pedro Passos Coelho. A tentativa de impedir a sua circulação é um atentado ao Estado de direito que ainda resta apesar do seu Governo.

A palestra esteve ao nível do autor e a mediocridade é a sua imagem de marca e a marca do Governo onde o colocaram a fazer de líder.

A contestação dos estudantes, cuja forma rejeito, esteve ao nível do seu merecimento e não espanta. O que surpreende é haver ainda quem o aplauda. A vida está mesmo difícil.


Irão - Paranoia islâmica

Na imagem da direita os ombros de Michele Obama foram cobertos para não melindrar Maomé.

terça-feira, fevereiro 26, 2013

ITÁLIA – Eleições 2013 (a primeira volta...?)

As últimas eleições lançaram a Itália na maior das incertezas e, com toda a probabilidade, não desenharam, nem clarificaram qualquer solução política para este País, assolado por uma grave crise económica e financeira.

A falta de sustentação democrática do ‘intermezzo tecnocratico’ protagonizado por Mario Monti - mas na realidade exigido por Merkel e abençoado pelos burocratas de Bruxelas – acabou por se desmascarar nestas eleições.
O 'interregno democrático', que caracteriza a ‘gestão Monti’, durou pouco mais de um ano e, como é possível hoje verificar, não deu quaisquer frutos. Antes pelo contrário.

Mario Monti – um professor de Economia, ex-funcionário da Goldman-Sachs e ex-comissário europeu – foi apresentado aos italianos, em Novembro de 2011, como uma resposta sensata e qualificada para os desvarios e irresponsabilidades de Berlusconi que, entretanto, parecia ter perdido o apoio dos italianos e conquistado a desconfiança do eurocratas e, o que seria mais importante, a rejeição de Angela Merkel.
Foi então possível ‘concertar’ uma solução híbrida em que a Democracia aparecia mitigada, para não dizer pervertida. Um governo chefiado pelo tecnocrata Monti politicamente dependente de um parlamento (Câmara de Deputados e Senado) não dissolvido por estratégia europeia e onde a coligação de Berlusconi – em riscos de desagregação – continuava a deter a maioria.

Cozinhou-se’ – deste modo – uma resposta condicionada para uma situação difícil e complexa que afectava (e ainda afecta) a 3ª. maior economia da UE (dívida excessiva, juros a dez anos já superaram os 7,4% e um diferencial de risco face ao ‘bund’ alemão dobrou a barreira dos 500 pontos link) que se apresentava como verdadeiramente atípica, apesar o exemplo grego (Governo de Lucas Papademos). Paralelamente, é importante recordar, os italianos, nessa altura, estavam a ser “humilhados pelos mercados” - um conceito vago e depreciativo que enlameia os Países do Sul da Europa (os denominados PIIGS) – facto que colocaria a Itália sob a ‘supervisão do FMI’, na verdade, o detonador da ‘queda’ do Governo Berlusconi.
Deste modo, um técnico com aura de 'super' entra, pela porta do fundo, nos meandros da política italiana. Um incursão atípica, a prazo, para contornar eleições que as forças partidárias julgavam ‘inconvenientes’, ‘prematuras’ e desestabilizadoras da ‘coesão europeia’. Mas tendo ficado os demónios à solta seria o próprio Berlusconi, que quando julgou ‘oportuno’, se apressa a provocar eleições – em Dezembro de 2012 link- esvaziando o Governo Monti do ‘necessário’ apoio parlamentar, pondo fim a esta ‘experiência’.
Desta maneira, é mais uma vez Silvio Berlusconi, a desfazer uma ‘artificial e frágil frente’ que segurava Monti e que, na prática, envolvia os dois principais partidos italianos: PDL (Povo da Liberdade, de direita) e PD (Partido Democrata, de centro-esquerda).

Berlusconi aproveitou a confusão reinante para tentar voltar à ribalta política. Mario Monti, depois de pungentes hesitações, decide submeter-se ao veredicto popular em busca conseguir uma legitimidade que nunca sentiu durante o ano de 2012. Tenta, então, impor aos eleitores e aos partidos uma ‘agenda Monti’. centrada em planos técnicos de austeridade (negociação de um pacto fiscal e cortes na despesa).
Ninguém, quer a direita populista de Berlusconi, quer o centro-esquerda liderado por Pier Luigi Bersani, aceita partir para eleições condicionado por essa ‘agenda’, na verdade, um fatal compromisso com a 'linha popular europeia' que comanda Bruxelas. Pelo meio, à boleia da confusão e do descrédito, aparece um candidato anti-europeísta e ‘anti-políticos’ (partidários), de nome Beppe Grillo.
Os resultados são conhecidos: maioria do PD na câmara de deputados; maioria da direita no Senado, Grillo com 25% dos votos e, em resumo, uma Itália ‘ingovernávellink.

A ‘experiência italiana’ imposta por Bruxelas e Berlim como ‘estabilizadora’, perante a pressão dos mercados sobre a Itália, revelou-se ontem como absolutamente desastrosa. Colocou um País a fervilhar à volta de ‘populismos’ de diversos matizes e fachadas (de Berlusconi a Grillo). Mostrou que o centro-esquerda (PD) foi incapaz de capitalizar a vaga de descontentamento popular porque se deixou envolver em ambiguidades políticas, económicas e sociais.

De reter: contornar questões políticas com soluções técnicas pode funcionar como terapêutica paliativa, mas agrava as maleitas (políticas, económicas e sociais) e perturba o regular funcionamento dos sistemas democráticos.
Fica, então: a necessidade de regressar à política. Sem ‘oportunismos’, sem ‘populismos’, sem ‘anti-partidarismos’ e sem a silenciosa tutela dos mercados (que mais uma vez mostrou ser contraproducente).

A Itália, uma referência cultural do Ocidente e um dos Estados fundadores da União Europeia, um País caldeado por inúmeras crises políticas internas, deverá ter aprendido alguma coisa com as eleições deste fim-de-semana.
Veremos qual o saldo real e objectivo deste acto eleitoral porque resta a convicção de que o próximo já vem a caminho.

Vaticano - O Papa, a teocracia e a liturgia


No bairro de 44 hectares – o Vaticano – abre, dentro de 48 horas, uma vaga para Papa. O atual, apesar de se encontrar em Governo de gestão, portou-se como soe acontecer com líderes profanos: continuou a proceder a exonerações e nomeações. Substituiu o titular do cargo mais importante – o gerente do IOR, aceitou a resignação de cardeais pouco recomendáveis, nomeou o novo bispo de Lisboa, futuro cardeal, e antecipou o consistório.

Sendo o primeiro Papa a sair vivo do cargo, em quase 600 anos, criou alguns problemas à monarquia cujo sucessor, perdida a tradição dos Bórgias, deixou de ser filho. Serão os cardeais a eleger o sucessor, tendo sido a maioria criados (este é o termo canónico) pelo “Papa emérito”, título em linha com o dos bispos que terminam o prazo de validade mas que demorou vários dias a encontrar.

Há mordomias que liminarmente perde. Fica sem o anel, que será destruído, poupando o dedo; fica proibido de usar a batina de peregrino mas deixam-no continuar a vestir-se de branco; a interdição absoluta atinge também os sapatinhos vermelhos e o camauro.

Antes das 20H00 (19H00, em Lisboa) vai para Castel Gandolfo onde ficará dois meses, até à conclusão das obras do convento, no Vaticano, onde ficará até que o ciclo de vida se cumpra. A euforia provocada pela eleição do novo Papa rapidamente o fará esquecer.

Manterá, contudo, o título de Santidade, título que designa a profissão e o estado civil, e o pseudónimo de Bento XVI.

MANIFESTAÇÕES NO DIA 2 DE MARÇO

Estão marcadas para o próximo dia 2 de março manifestações em todo o País contra a política antipatriótica e antipopular da coligação neoliberal que detém o poder.

Tais manifestações foram há muito convocadas e estão a ser preparadas como o foram as de 15 de setembro, que se revelaram um grandioso momento de protesto contra essa política.

As de 2 de março prometem ser ainda mais grandiosas, quer pelo precedente criado pela anterior, quer por outro facto importantíssimo: a CGTP já manifestou a sua adesão.

Parece-me assim que todos os democratas, todos os patriotas, todos os que estão contra a política do governo, devem participar ativamente nessas manifestações.

Há muito que se chegou à conclusão que este governo já não tem qualquer legitimidade democrática. Está isolado – e mesmo até certo ponto dividido – e mantém-se agarrado ao poder unicamente para aproveitar a crise económica e financeira e o apoio de certos países estrangeiros para levar a cabo as suas intenções, cada vez mais evidentes, de “reformar o Estado”, isto é, de subverter a ordem constitucional, destruir o Estado Social e as conquistas do 25 de Abril, instaurando um regime ultraliberal de capitalismo selvagem.

Nestas circunstâncias, está afastada a possibilidade de qualquer partido democrático colaborar com o governo no que quer que seja. Afastada está também qualquer possibilidade de com ele negociar. As propostas de “negociação” hipocritamente feitas designadamente ao Partido Socialista mais não são do que tentativas de obter a cobertura deste partido para a concretização daquelas intenções.

Assim, as forças democráticas só podem ter, relativamente ao governo, uma postura de rutura total e combate frontal, e um objetivo: derrubá-lo.

Por outro lado, é patente a falta de vontade do Presidente da República para se fazer porta-voz do povo que o elegeu e fazer respeitar a Constituição que jurou defender.

Resta assim ao povo a possibilidade de lutar na rua, de manifestar a sua rejeição das políticas do governo em todos os lugares onde os seus membros apareçam, de aproveitar todas as ocasiões para demonstrar a sua vontade de pôr termo à deriva contrarrevolucionária e anticonstitucional.

Também só assim é possível demonstrar à Troika e aos seus patrões que não somos tão “pacientes” como pensam.

As manifestações previstas para 2 de março são um momento importantíssimo dessa luta.

A CGTP já manifestou a sua adesão. De que estão à espera a UGT e os partidos de esquerda?

Momento de poesia



A dança dos astros

Para a “poeta” Maria Azenha

foi quando os átomos
ensaiaram a dança onírica das valências
que a matéria perseguiu o rasto da luz
que inspirou a “poeta”
as lágrimas de uma nuvem
criaram os mares e as águas
e o hálito quente da sua boca ardente
desenhou na Terra a primeira metáfora
com que inventou a Vida…
depois, muito depois, gozando as delícias da eternidade
e as da infinitude da palavra,
esperou pelo Homem para inventar o amor
… e os átomos continuaram a dançar…

Alexandre de Castro

Lisboa, Fevereiro de 2013

Momento zen de segunda 25_02_2013


João César das Neves (JCN) é um arrebatado devoto cujas homilias de segunda (feira) hilariam e confundem os leitores. Chega-se a pensar que JCN pensa o que diz e diz o que pensa, embora não seja radioso o que pensa nem o que diz.

Cita a Bíblia como referência histórica rigorosa e acredita nela como o ministro Gaspar nas previsões financeiras que faz. A diferença é Vítor Gaspar demorar apenas um mês a apurar o engano e JCN a vida inteira convencido de que acerta.

Na homilia desta segunda feira repete as tolices habituais e, na pressa, acrescenta algumas novas. Diz, por exemplo, que o fator decisivo da renúncia do Papa «foi Deus», o mesmo suspeito que apontou para justificar o martírio a que a Cúria sujeitou João Paulo II.

JCN desconhece que este Papa teve de resignar em direto para poder sobreviver; que o relatório sobre o IOR e a fuga de documentos do Vaticano não são alheios à decisão; que a antecipação do conclave é necessária para manter cardeais em número suficiente antes de serem salpicados com nódoas do passado.

O exotismo do devoto está na facilidade com que acusa o seu Papa de mentir, ao afirmar: « Nem sequer foi por motivos de saúde, apesar de o próprio os ter invocado. O seu gesto só aconteceu porque ele está plenamente convencido ser essa a vontade de Deus».

Então o Papa católico invoca motivos falsos por estar convencido de ser essa a vontade do Deus de JCN? O bem-aventurado está cada vez mais desorientado.

«…toda a Igreja recebeu a notícia como vinda de Deus, e espera do Senhor a continuação desta história». JCN continua à espera do Armagedão.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Ao de leve’…


Para Marcelo Rebelo de Sousa, o falhanço do Executivo liderado por Pedro Passos Coelho no que diz respeito às previsões económicas para 2013 “estava na cara”. Até porque, ilustrou o comentador na sua habitual intervenção aos domingos à noite na TVI, “quando se bate com a cabeça na parede e a parede não muda tem de se seguir outro caminho”. Desta feita, considerou, restam apenas “dois caminhos ao Governo: disfarçar, como fez ao de leve o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, ou o da honestidade intelectual, assumindo o erro”. link

Marcelo continua igual a si mesmo. Não quer bater com a cabeça na parede. Pretendeu esconder-se atrás dela e ficar pela asserção de o ministro Vítor Gaspar exibiu no Parlamento, perante os representantes do povo, ao de leve, um disfarce. No oposto estaria uma desejada ‘honestidade intelectual’.

Enfim, presume-se que, na sua homília dominical, entreteve-se, pelo seu lado, a tentar disfarçar a falta de honestidade de um dos principais responsáveis pelo “falhanço”.
Passou ao lado da essência das coisas. Ficou pelo ‘ao de leve’. Esqueceu-se que o ‘falhanço’, segundo anunciou o ‘levemente’ prevaricador, nos vai custar novas ‘medidas de contingência’, o mais recente disfarce para anunciar ‘mais austeridade’… o que, no actual contexto, não pode ser julgado como coisa ‘leve’.
O dislate foi: Vítor Gaspar não bateu com a cabeça na parede. Incorporou-se nela. Deste modo, para (honestamente) ouvir a verdade e fazê-lo 'assumir o erro', torna-se necessário derrubá-la(o).

A longevidade de Cavaco

Depois do caso das escutas, Cavaco só se aguentou no cargo porque está num país que não dá cavaco a ninguém.

Governo - Passado, presente e futuro


A inépcia do primeiro-ministro, sem experiência nem preparação para o cargo, reuniu medíocres alunos, com larga experiência nos piores expedientes, e doutos professores sem o menor contacto com a realidade. Em comum parecem ter a obsessão neoliberal e uma sólida aversão à Constituição da República. Em conjunto, conseguiram formar o pior e mais desolador Governo da democracia, sem ética, sensibilidade ou pudor.

Esgotou-se rapidamente, sem honra nem glória, o capital de esperança com que tomou posse, ajudado pela central de intoxicação que demonizou o governo anterior e pelo PR que estava em dívida para com o partido que transformou «um mísero professor» [sic] no político mais longevo da democracia, exceção feita ao sólido talento madeirense.

Hoje estão ambos pelas ruas da amargura. O PR recolheu-se ao Palácio de Belém, como os beatos aos retiros da Quaresma, em profunda catalepsia donde apenas sai para impor alguma venera ou presidir a cerimónias públicas, obrigado. Basta o faceboock para fazer prova de vida junto da Segurança Social que lhe abonar as reformas na suposição de que está vivo.

O Governo, por imperativos funcionais, é obrigado a deslocar-se, mas, para evitar ouvir a «Grândola», prefere usar as portas traseiras e os monta-cargas para penetrar nas salas onde o aguarda a plateia previamente selecionada e alguns aplausos de quem agradece o lugar que lhe deve.

Com previsões económicas sucessivamente falhadas e o desemprego dramaticamente descontrolado, perdida a confiança dos próprios correligionários e acicatada a antipatia dos desempregados a quem o PM reincide em dizer que vamos no bom caminho, custe o que custar; com banqueiros que se furtam aos impostos, defraudam bancos e decidem o que podem os desgraçados aguentar, não há brandos costumes que iludam a revolta com canções.


domingo, fevereiro 24, 2013

A verdade acima de tudo

O líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, afirmou hoje, em entrevista ao DN, que «Miguel Relvas é tão responsável como qualquer outro membro do Governo».

Para quem pensava que havia diferenças, aqui fica o cabal desmentido.

As lições (ilações) dos últimos tempos…

Começa a fazer-se tarde para balanços que teimam em ser postergados para quando a situação atingir o irremediável.

O recente malabarismo (‘grande pirueta’ no dizer do deputado Pedro Marques link) protagonizado pelo ministro Vítor Gaspar no Parlamento (Comissão de Orçamento e Finanças) foi um exercício da mais alta irresponsabilidade política travestido de um insuportável chico-espertismo de matriz aparentemente tecnocrata link. Mas o grave, o trágico, serão as consequências deste dogmático e inconsequente ‘exercício’ que, mais uma vez, corre o risco de ser, ingloriamente, suportado pelo povo português.

É isto que significa o despudorado anúncio feito pelo ministro de ‘medidas contingentes no valor 0.5% do PIB’ link (leia-se novas medidas de austeridade no valor de 800 milhões de euros) que vão obviamente provocar ainda mais recessão e tem como corolário o completo afundar do País num brutal empobrecimento (de cada vez mais difícil reversão).
O Governo mostra ter tomado as rédeas nos dentes e como um animal desembestado corre alucinado em direcção ao precipício sob o signo do ‘custe o que custar’.

Tem como suporte a Comissão Europeia (o 'frio' Olli Rehn), o BCE ( o ‘super Mario’) e a 'intocável' maestrina destas políticas, a senhora Merkel.
O FMI dada a sua natureza ‘global’ não figura nesta abordagem. O que não significa de esteja isento de culpas no cartório.

Quer para o ‘funcionário’ Gaspar e o amanuense Coelho, quer para os ‘dinamizadores’ destas políticas instalados em confortáveis gabinetes em Bruxelas ou em Frankfurt, deve ser demonstrado (exigido) que estamos na hora das (nossas) avaliações. E que não há mais espaço para ‘corrigir tiros’. Já existem demasiadas vítimas. Na realidade – e o confronto deve ser feito aqui - estas ‘políticas’ desembocaram num dantesco quadro de catástrofe, não sendo necessárias mais ou melhores evidências. O visível e o palpável é a absoluta inutilidade de todo um profundo sofrimento imposto a alguns povos europeus (apelidado de ‘ajustamento’), que – sejamos realistas - não admite mais contingências, nem correcções ou acertos. Chegou-se ao fim da linha. A ‘receita’ tem de ser questionada, avaliada e como é desde já previsível, rejeitada. Está – e hoje temos a certeza que sempre esteve – errada. E os responsáveis – são muitos! – devem ser liminarmente afastados por ‘indecente e má figura’. O ‘rumo actual’ já não é passível de qualquer tipo de correcção. Tem de ser invertido e a insana ‘cavalgada’ travada, por todos os meios se, de facto, quisermos salvar alguma coisa (p. exº. ‘a pele’) no meio deste tremendo descalabro.

É verdade que Portugal está à beira de uma eminente ruptura social mas o mais grave é que a ‘coesão’ europeia não passa de uma inultrapassável miragem. O ‘índice de mau-estar’ (terá outras designações técnicas), nomeadamente nos Países do Sul (da Europa), atingiu as raias do insuportável e do inconcebível (há poucos meses atrás). Mas a tragédia, hoje, atinge toda a União Europeia ( Zona Euro e restantes países europeus). A recessão apoderou-se de toda a Europa e está a chegar aos Países do Centro e Norte - as celebradas ‘locomotivas do desenvolvimento europeu’ – dão sinais de estarem ‘gripadaslink.

A queda do Governo búlgaro (de centro-direita) foi o mais recente sinal link . Amanhã, com toda a probabilidade, termos outro: a Itália.
O debate político – necessário a qualquer ‘ambiente democrático’ - está paulatinamente, por todo o lado, a ser substituído pelo protesto, pela indignação, pela deriva.
As constantes ‘previsões’ de que a austeridade conduziria a uma renovação económica e ao crescimento (‘sustentado’ à sombra das miríficas ‘reformas estruturais’), sob a sombra tutelar das instituições financeiras, revelaram-se um total fracasso e uma grosseira mistificação. Geraram recessão em cima de recessão (a tal ‘espiral’ que se tenta esconder). Uma fantasiosa compatibilidade entre consolidação fiscal e desenvolvimento económico revelou-se desastrosa. O leque de opções começa a estreitar-se e não oferece saídas felizes.

Hoje, verificamos conjugarem-se duas situações, ambas desastrosas: o insucesso dos ‘ajustamentos’ (todos e não só da Grécia) e o desabar da ‘União Europeia’.
Um imenso capital de esperança e a perspectiva de futuro foi miseravelmente delapidado por tecnocratas e políticos neoliberais e colocou a Europa [desses senhores] incompatível com qualquer promessa de ‘amanhãs que cantam’. A Comissão Europeia pode continuar a enganar-se a si própria mas dificilmente convence a Europa. Está simplesmente a destruir a 'União'. 

Este o triste fim de uma (encapotada) experiência neoliberal que a História registará e cujas consequências (próximas e futuras) estão longe de estar avaliadas ou sequer delineadas. Sabemos, todavia, sobre quem as mesmas recairão. Essa a tragédia do presente que continua à espera de uma ‘resposta europeia’. O Sul ao claudicar sucumbindo às políticas desastrosas arrastará o resto da Europa que tem pretendido sair incólume desta profunda crise (depressão). Cairemos juntos e, portanto, só conseguiremos sair daqui, também, juntos. Esta a lição fundamental. E que condicionará todas as necessárias - e urgentes - ilações.

sábado, fevereiro 23, 2013

Humor - Cartoon de José Vilhena

José Vilhena, cartoon 1987 - Premonição do génio

O Vaticano e a Itália


Poucos se dão conta de que a Itália vai amanhã a eleições e que os resultados, a menos de quatro dias do prazo de validade do atual Papa, são determinantes para a Europa.

Qualquer cardeal dará um papa que fará exultar a multidão de crentes e figurantes que se extasiam com o fumo na Praça de S. Pedro, mesmo agora que o Espírito Santo já foi exonerado dos consistórios, por desinteresse dos cardeais ou da 3.ª pessoa da Trindade.

Preocupante é a falta de qualidade dos políticos que disputam as eleições. Quanto aos cardeais apenas se sabe que andam com a cabeça à roda à espera que lhes caia a tiara no cocuruto.

No fim do mês o Vaticano fica sem Papa e não vem daí mal ao mundo. A Itália fica sem possibilidades de formar Governo e a União Europeia tem mais um problema insolúvel.

É a vida, como dizia um saudoso engenheiro de que sinto a falta.


Visita aos Açores 8/23_02_2013 – Religiosidade no meio do Atlântico


Cheguei numa tarde de sol a Ponta Delgada. Durante 15 dias, a chuva, que é frequente, poupou-me nos passeios pela ilha. O basalto é o material de construção que sobressai nas casas e denuncia a origem vulcânica de S. Miguel e restantes ilhas do arquipélago dos Açores. S. Miguel é uma sucessão de prados verdejantes, povoados de vacas e rodeados de uma vegetação paradisíaca que acompanha a orografia até ao mar.

Saltaram à vista do viandante os azulejos que decoram as frontarias das casas modestas, reproduzindo o Senhor Santo Cristo dos Milagres ou, apenas, perdido o último apelido, o Senhor Santo Cristo, numa iconografia profusamente repetida sem grandes alterações. Há outras imagens pias, em menor abundância, e apenas deparei com uma dedicada a Santa Catarina (mártir) com um apelo que revela a falta de devoção: «dai juízo a todos os que vos louvem».

Entre casas de habitação, exíguas capelas, imaculadamente limpas e com alvas toalhas, prestam culto ao «Divino Espírito Santo», o elemento da Trindade que foi abandonado no Continente e que ainda persiste por essas paragens, em todas as povoações da ilha.

A devoção é um arcaísmo que permanece no meio do oceano quando o Espírito Santo, até em Roma, onde rumava aos consistórios para iluminar os cardeais na eleição de cada novo papa, já foi comutado pela influência da  Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei, mais expedita na atribuição das tiaras e com dois pontífices de experiência.

Algumas Senhoras de Fátima, sobre azulejos, na frontaria das casas, ainda advertem os transeuntes que percorrem os passeios estreitos, com o pedido: «Não ofendam mais a Deus». Sem elas, dir-se-ia que da Trindade, que a Igreja católica substituiu pela virgem Maria, só faltava o deus-pai cujo culto nunca foi promovido e de quem restam queixas residuais de ter criado o mundo e feito, do barro, o primeiro casal.

A fé e a pobreza caminham a par. Há pessoas que  saem de casa em pijama e com ar de se terem furtado ao banho. A ilha é lindíssima e o aeroporto, apesar de não registar já os fluxos turísticos de há anos, foi crismado com o nome o de João Paulo II. Deve ter sido mau olhado pois o número de visitantes, ao que sei, não parou de diminuir desde então.

Gostava de assistir à procissão do Senhor Santo Cristo, não porque me impressionem as manifestações pias, para tentar descobrir o que levava a atual PGR a frequentar o evento com a beca vestida e em representação do Ministério Público, num flagrante atentado ao Estado laico que a Constituição preceitua.

Quem sabe se não foi o desígnio divino que a investiu nesse cargo, graças às ave-marias rezadas com a beca encharcada!

Nesta quaresma, mantendo a tradição, mais de dois mil homens saíram para a estrada no primeiro sábado, dia 16. Os romeiros, partindo das suas aldeias, dão a volta à ilha com mantos garridos, dormem em igrejas, cantam, rezam e, não raro, são atropelados nas curvas dos caminhos. Nas povoações aumentam o tom das preces e dos cantos pios.

Apesar das rezas, o culto é profano e desobedece à vontade da diocese que lhe pretende impor regras. Não sei se deus os ouve mas eu acordei sempre com a algazarra.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Chama-se a isto: ‘marrar contra a parede’

As novas previsões da Comissão Europeia para Portugal não são as melhores: a recessão deverá ser o dobro do previsto, o desemprego vai disparar e o défice vai derrapar. Pelas contas de Bruxelas, a economia deverá cair este ano 1,9%. O dobro do que estava previsto antes, mas a previsão fica agora mais perto da mais recente estimativa do governo que é de 2%. Também o desemprego continuará a subir e deverá atingir este ano 17,3% contra os 16,4% previstos pelo Governo. A acontecer significa que mais de um milhão de portugueses estarão sem trabalho no final do ano. Quanto ao défice, tudo indica que o Governo não conseguirá cumprir a meta definida com a troika de 4,5%. Bruxelas acredita que o esforço da austeridade não produzirá grandes resultados práticos: o défice português deverá ficar nos 4,9%. O primeiro-ministro desvaloriza os números. Em Viena, Passos Coelho diz que vai manter a estratégia de consolidação orçamental seguida até agora.link.

Nota: O sublinhado é da autoria do ‘postador

Um enigma pouco ‘recomendável’…

Nas jornadas do PSD dedicadas à "consolidação, crescimento e coesão” coube a vez a Vítor Gaspar falar sobre um tema onde a sua acção política tem sido verdadeiramente desastrosa. Era de supor que para justificar-se perante os insucessos em catadupa, (consolidação orçamental, endividamento, recessão, desemprego, etc.), o ministro apresentasse complexas justificações técnicas sobre os mercados e rebuscadas análises (hiper)valorativas dos efeitos da recessão europeia sobre o nosso País. Não tendo a noção dos seus limites lançou, na referida reunião, para o auditório uma proposta aparentemente ‘revolucionária’. Propôs: "alterações profundas do sistema político" (no período pós troika) link.
E mais não adiantou. Trata-se de uma devastadora 'bomba política' que foi tratada displiscentemente pelos partidos, comunicação social e foruns de debate cívico.
Estas reuniões entre membros do Governo e militantes do principal partido que o suporta na AR destinam-se a ‘justificar’ a celerada ‘Reforma do Estado’. Ora, para os portugueses a tal reforma do Estado não passa de um corte de 4.000 milhões de euros no Estado Social e nas funções de soberania, que ameaçam a nossa sobrevivência (por mais malabarismos que se teçam à volta deste assunto), mas o que ontem o ministro adiantou foi muito mais além e de um modo extremamente gravoso em termos democráticos, já que e tratou de uma 'facada' no regime.
Alterações profundas do sistema político” não são questões de ‘lana caprina’. A proposta é, nem mais nem menos, de alteração do regime.

Duas interpretações são possíveis:
Uma, a de menor malignidade, o ministro sente que não tem espaço constitucional para desenvolver as suas experiências neoliberais e necessita de ‘preparar’ uma ‘revisão da Lei Fundamental’ o que, no actual contexto, é uma pura utopia.
A outra, intolerável, o ministro está a defender a necessidade de um ’golpe de Estado constitucional’ para promover em toda a plenitude sua política do ‘ajustamento’ sob o lema do famigerado ‘custe o que custar’…

Não existiram explicações concretas sobre esta inusitada proposta mas conhecendo o pragmático percurso governativo deste ministro é legitimo suspeitar que o que estava inerente à proposta era a segunda hipótese.
Um motivo mais do que suficiente para provocar a imediata exoneração deste ministro. Se acaso existisse, neste País, um Presidente da República atento e determinado a ser o garante da Constituição.

DE NOVO A ORDEM DOS ADVOGADOS (COMENTÁRIO)

Só agora me é possível pronunciar-me sobre o post de Rui Cascão [ link] com o mesmo título deste. Trata-se, como habitualmente, de uma peça muito bem escrita e fundamentada; porém, discordo dela em quase tudo.

1. Não conheço os sistemas judiciais sueco e finlandês, mas, a ser como diz Rui Cascão, não tenho dúvidas em afirmar que, no âmbito da Europa e creio que também dos países da América, se trata de sistemas ultraminoritários, para não dizer exóticos.
Parece-me aberrante que, num Estado de Direito, qualquer “curioso” possa, sem ser formado em direito, exercer a consulta jurídica e patrocinar causas em Tribunal. Para que servem então as Faculdades de Direito? E que garantia se pode ter de que esse indivíduo tem um mínimo de conhecimento das normas jurídicas com que tem de lidar? É como se um cidadão pudesse exercer medicina sem ser médico ou construir pontes sem ser engenheiro. É como se voltássemos ao tempo dos barbeiros-cirurgiões!
Por outro lado, perante um juiz licenciado em Direito e uma parte contrária representada por advogado, o cidadão representado pelo tal “habilidoso” ficaria certamente em desvantagem.
Por outro lado ainda, e como já disse no anterior artigo, a nossa justiça funciona de forma dialética. Num processo-crime, por exemplo, o juiz só fica habilitado a julgar bem se tiver havido uma boa acusação e uma boa defesa.
Se o juiz e o procurador têm de ser licenciados em direito e de ter feito um exigente estágio, porque não há de o defensor ter as mesmas habilitações?
Não há nisto qualquer “paternalismo”, mas um normalíssimo recurso a um profissional qualificado. Se quando se está doente se recorre a um médico, porque não há de recorrer-se a um advogado quando se precisa de apoio jurídico?

2. Em Portugal a função dos advogados está constitucionalmente consagrada. Na parte da Constituição relativa ao poder judicial, o artigo 208, epigrafado de “Patrocínio forense”, preceitua que “A lei assegura aos advogados as imunidades necessárias ao exercício do mandato e regula o patrocínio forense como elemento essencial à administração da justiça.”
Estas “imunidades” não são “privilégios” e não são estabelecidas no interesse dos próprios advogados mas sim no dos seus constituintes. Por exemplo: não pode ser apreendida a correspondência entre advogado e cliente (exceto se respeitar a facto criminoso relativamente ao qual o próprio advogado tenha sido constituído arguido), porque o cliente tem o direito de se abrir com o advogado livremente e sem qualquer receio; pela mesma razão, têm os advogados o direito de comunicar, pessoal e reservadamente, com os seus constituintes presos (mais corretamente se diria que os presos têm o direito de comunicar pessoal e reservadamente com o seu advogado, pois se trata manifestamente de um direito instituído em benefício do constituinte e não do advogado).

3. O “formalismo judiciário”, que tanto desagrada a tanta gente – a começar por alguns juízes – é, no essencial, uma defesa para os cidadãos a contas com a Justiça. É que, no nosso sistema judiciário – como em quase todos – quem tem, em geral, a condução do processo é o juiz. Mas este – e muito bem – não tem um poder discricionário ou inquisitorial; e não o tem justamente porque a lei processual impõe certas formalidades por cima das quais o juiz não pode passar e que portanto limitam o seu poder, deixando margem ao exercício dos direitos dos cidadãos perante o tribunal.

                                                                  xxx

No seu artigo Rui Cascão levantou ainda outras importantes questões. Mas essas terão de ficar para outro post.

A laicidade é a vacina contra as guerras religiosas


As guerras religiosas são um flagelo devastador no dealbar deste novo milénio. A orgia de horror e crueldade deve ser contida onde quer que tenha lugar, seja qual for o credo.

A evidente fragilidade no combate aos crimes religiosos resulta da conivência entre Governos e Igrejas maioritárias. A separação é insuficiente e a laicização – único remédio eficaz – não foi ainda conseguida. O proselitismo é a expressão da vocação totalitária e o poder temporal uma obsessão clerical.

O processo de globalização em curso acirrou ódios inter-religiosos. Cada religião aspira à globalização e à exclusão da concorrência. Compreende-se assim a virulência das que se sentem mais ameaçadas. É no auge da crise que se atinge o apogeu da fé e a vertigem do martírio.

O XV Congresso do PPE, há mais de uma década, aprovou no Estoril a alusão à defesa do património cristão no projeto de Constituição da Europa. Era um erro e uma provocação às outras religiões do livro. Se a abolição de fronteiras for o objetivo, criar fronteiras religiosas é um paradoxo.

A Europa não tem de ser católica, protestante ou ortodoxa, tem de ser tolerante e humanista. No genocídio de seis milhões de judeus pelo nazismo, embora de origem secular, pesaram preconceitos cristãos.

A democracia é filha do combate à origem divina do poder. É na impossibilidade deste combate que reside a apoteose do fascismo islâmico.

A imprescindível neutralidade religiosa enjeita o relativismo moral do Estado. O laicismo recusa a pusilanimidade e combate com veemência qualquer atentado aos direitos do homem e à igualdade entre os sexos, quer sejam pregados numa sinagoga, igreja ou mesquita.

A liberdade religiosa é uma conquista civilizacional incompatível com a impunidade dos crimes que possam cometer-se à sombra de qualquer livro sagrado. Decorei o
catecismo católico terrorista que ensinava a odiar judeus, infiéis, comunistas e maçons e fiz a comunhão solene vestido de cruzado.

 Deus talvez tenha sido uma ideia interessante, mas tornou-se um pesadelo.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Notícias do dia




PANACEIAS E DESPAUTÉRIOS

Os “governantes” que nos desgovernam, como se não bastasse agredirem os portugueses das mais variadas formas, agridem também barbaramente a língua pátria.

No último “Expresso”, Clara Ferreira Alves escreveu um excelente artigo sobre as notórias dificuldades do primeiro-ministro no uso das preposições.

Hoje noticia o “Diário de Coimbra” que o Secretário de Estado do Emprego, Pedro Roque, discursando na Faculdade de Economia de Coimbra sobre as medidas do governo para alegadamente relançar o emprego, declarou que tais medidas “não deixam de ser panaceias”.

Ora, como toda a gente – menos o referido secretário de Estado – sabe, e pode ver-se no Dicionário da Porto Editora, “panaceia” é uma “planta imaginária a que se atribuía a virtude de curar todas as doenças”, e, em sentido figurado, um “remédio para todos os males”.

Não foi certamente isto que  Sua Excelência quis dizer; e o que ele quis dizer não chegou obviamente ao conhecimento dos ouvintes.

O que não percebo é que se convidem indivíduos destes para discursar numa Universidade.

Humor...


Não acredito em bruxas


A não recondução de Cândida Almeida à frente do DCIAP é um direito. Se o processo disciplinar se deveu a violações do segredo de Justiça foi um dever mas, se há motivos sindicais ou políticos, é o fim da credibilidade que resta ao Ministério Público.

A decisão sobre os pedidos para que seja levantada a imunidade a Alberto João Jardim e a Miguel Relvas determinarão a forma como a opinião pública julgará a independência da nova PGR de que os portugueses apenas conhecem a intensa devoção às festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, nos Açores, e a simpatia sindical de que goza.

A Jardim pretende averiguar-se a sua ligação aos erros nas contas da Região e a Relvas prosseguir com o inquérito-crime pela ajuda à empresa Tecnoforma, uma empresa que teria sido ajudada em 2002 pelo então secretário de Estado Miguel Relvas quando a dita empresa estava ligada a… Pedro Passos Coelho.

Nos ouvidos dos portugueses ainda ecoam as palavras do discurso de Pinto Monteiro, na cerimónia em que foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, sobre «uma menor transparência na separação de poderes».

A política, a economia, a ecologia e o futuro


Enquanto, em nome de uma certa visão de desenvolvimento, se delapidam recursos que encurtam a sobrevivência do Planeta, há quem persista no caminho do abismo e impeça a procura de novas soluções.

Não há neste assunto, como em nenhum outro, unanimidade de opiniões, mas há já um largo consenso sobre o que não pode ser feito. Desde a bomba demográfica, que ameaça deflagrar antes de qualquer medida séria para a contrariar, até à obstinação em exaurir os combustíveis fósseis e ao envenenamento dos recursos hídricos, tudo aconteceu no espaço de duas gerações.

As soluções, se as há, serão políticas e percebe-se mal a falta de um amplo movimento que as procure, seja através de um partido político ou de um movimento autónomo de opinião pública.

O PEV tem refletido sobre alguns destes problemas mas a sua captura pelo PCP retira-lhe autonomia e atrai preconceitos. À direita houve, da parte do Eng.º Carlos Pimenta, o que parecia um genuíno entusiasmo pela ecologia mas, tal como muitos dos dirigentes de associações ambientais, desapareceu na voragem de alguma empresa de consultores ou no desalento de quem parte a tratar da vidinha.

Enquanto milhares de desempregados políticos procuram fundar novos partidos à espera de lugar em algum que nasça dos escombros dos atuais, não diviso autêntico interesse, na sociedade portuguesa, na criação de algum que percorra transversalmente todos os partidos e que tenha vocação de poder.

Um Governo com ecologistas no seu seio não seria tão permeável às pressões com que os sucessivos governos destruíram os solos de melhor aptidão agrícola, a orla marítima e as paisagens naturais. Os ecologistas não podem pautar-se por alianças pré-eleitorais, devem ser vigilantes e exigentes todos os dias e aguardarem a oportunidade para exigir acordos governamentais que defendam um desenvolvimento sustentável.

Bem sei que as provações do momento são pouco compatíveis com estas preocupações e que as ambições individuais estão mais viradas para a conquista do poder e a partilha das suas prebendas.

No entanto, é uma exigência ética urgente e um objetivo republicano procurar soluções ecológicas para o nosso futuro coletivo.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Anda o mundo ao contrário


Já deixei expressa a minha indignação pela coação à liberdade física do ministro Relvas. Um governo derruba-se mas um ministro não se agride, porque o primeiro é, neste caso, uma tragédia para o país e o segundo continua a ser, no pior dos casos, um cidadão. Ainda que reles.

Já o convite ao ministro Relvas para palestrante no Clube de Pensadores, ainda que o de Gaia, um convite feito a quem tem instrução rudimentar e débil preparação intelectual, é um atentado à inteligência e um ultraje à cultura. Não sei se o auditório estava ao nível do palestrante mas é tão estranho convidar tal criatura, como luminária do pensamento, como seria convidar Eduardo Lourenço para falar de chinquilho.

Dada a baixa cotação da inteligência e da cultura, já não surpreende que Miguel Relvas seja a única autoridade disponível para fazer uma conferência sobre jornalismo numa escola superior prestigiada – ISCTE –, nas comemorações dos 20 anos de jornalismo da TVI, ele que pode ter muitas informações de serviços secretos mas carece de elementar formação em jornalismo.

Podendo os motivos ser posteriores aos atos, vislumbro uma explicação para o anómalo convite a Miguel Relvas, na comemoração do 20.º aniversário da TVI. Trata-se do canal vergonhosamente atribuído à Igreja católica pelo Governo de Cavaco Silva, canal que, como bem o definiu o saudoso Mário Castrim: «nasceu na sacristia e acabou na sarjeta».

O GOVERNO FOI CORRIDO !

Não se entusiasme, caro leitor. O título é metafórico. Por enquanto foi só o Relvas. E só foi corrido do ISCTE. Mas já é alguma coisa!

O caso é que ontem Relvas teve o desplante de se apresentar no ISCTE - um Instituto Universitário – para participar numa conferência. Os estudantes, indignados, correram com ele. Puseram-no na rua.

Sei que muitos irão dizer que “isso não se faz”, que os estudantes se portaram mal, que foi uma falta de respeito por um governante, etc.

Sendo embora defensor da luta política pacífica e democrática, não partilho dessa opinião. É que este governo não é pacífico nem democrático. Apenas baseado numa maioria eleitoral que conseguiu há mais de um ano, prometendo o contrário daquilo que depois vem fazendo, tem vindo a governar antidemocraticamente e sujeitando o povo português às mais inauditas violências, designadamente económicas e sociais.

A atitude dos estudantes é perfeitamente compreensível. Foi a legítima resposta a uma provocação. É que a simples presença do Relvas em qualquer sítio onde haja povo é uma provocação. Mais: é um insulto a esse mesmo povo. Relvas “não se enxerga”. Se tivesse um mínimo de vergonha, não aparecia em parte nenhuma.

Como lapidarmente disse, já no século XVIII, o Cardeal de Retz, que já aqui citei, “quando os governantes perdem a vergonha os governados perdem o respeito”. É o que está a acontecer em Portugal. O governo, a começar pelo primeiro-ministro, perdeu toda a vergonha; toma medidas terroristas, mente descaradamente, e insulta os portugueses. Em consequência, o povo perdeu o respeito; onde quer que um ministro se desloque, é vaiado e insultado.

Este governo não merece respeito.

É por isso saudável que a juventude estudantil saia da apatia em que inexplicavelmente tem andado e se mostre digna das suas tradições. Relvas foi recebido ontem como Américo Tomás foi recebido em Coimbra em 1969. Não merece mais.

Os “desgovernantes” que se cuidem.

Como se dizia nas jornadas de Maio de 68 em França, “CE N´EST Q´UN DÉBUT !”

Um artigo de Fernando Dacosta


terça-feira, fevereiro 19, 2013

Advertência

Hoje e a propósito disto link vamos assistir a um chorrilho de lições de (bom) comportamento nas redes sociais, blogs, etc.

Como se o ‘problema Relvas’ não fosse político…

Factos e documentos

«Homenagem» da Pide a Miguel Torga

De novo a Ordem dos Advogados

Começo por me desculpar perante os leitores e os colegas deste blogue pela tardia réplica aos excelentes posts de António Horta Pinto e E-pá relativamente ao meu post em que questionei a actualidade e a necessidade das ordens profissionais, com especial enfoque na Ordem dos Advogados e a intervenção do seu bastonário na abertura do ano judicial.

Existem países, que são estados de direito democráticos com credenciais inquestionáveis nessa matéria, em que não existem associações de inscrição obrigatória para o exercício profissional da consulta jurídica e do patrocínio judiciário. Refiro-me nomeadamente à Suécia e à Finlândia. Nesses países, qualquer cidadão ou residente em pleno gozo dos seus direitos cívicos e que conheça uma das línguas oficiais pode legalmente exercer a actividade de consulta jurídica e patrocinar qualquer causa em qualquer tribunal, ainda que não licenciado em direito. As "ordens" dos advogados locais- a Advokatsamfundet na Suécia e a Suomen Asianajajaliitto- são associações de inscrição facultativa e que, no essencial, conferem uma espécie de certificação de qualidade aos seus associados- que recebem o título de Advokat e Asjanajaja/Advokat. Esta "originalidade" corresponde a um menor paternalismo judiciário e a um elevado grau de desformalização do direito processual, que na óptica do pensamento jurídico escandinavo deverá levar à justiça do caso concreto.

A arquitectura institucional de uma qualquer sociedade não poderá ser irrevisível. Não estamos no aflorar das sociedades post-liberais recém-emancipadas (como referiu o e-pá), nem nos lúgubres tempos do fascismo salazarento, consuetudinariamente invocado pela OA para justificar a sua permanência. É perfeitamente concebível um paradigma pós-corporativo de regulação da profissão através de comissões paritárias com ampla participação da sociedade (e é o interesse da sociedade no seu todo que consubstancia o interesse público das ordens profissionais, sociedade essa que não se encontra minimamente respresentada no paradigma corporativo da auto-regulação profissional) e um paradigma pós-corporativo da certificação profissional dos advogados (e desculpem o desabafo, mas a meu ver o estágio da OA, reminescente dos aprendizados de feiticeiro, desempenha pessimamente o seu papel).

Quanto às outras questões que havia referido no meu post, ou seja, a posição do bastonário quanto à resolução alternativa de litígios e a agilização processual, parece-me que há muito conservadorismo e alguma demagogia quanto à questão.

A resolução alternativa de litígios é a peça charneira da justiça contemporânea. Há abusos? Há. Como qualquer artefacto desenhado e aplicado por humanos, é intrinsecamente falível. Como o é a justiça togada. Não tomemos a parte pelo todo! Ora a justiça togada é lenta, cara e formalista. Tanto mais quanto mais intermediários houver- e o intermediário advogado é perfeitamente dispensável nas pequenas causas  facilmente resolúveis por mediação ou arbitragem- aí está a pedra no sapato corporativo da OA. Faz sentido ter os tribunais a resolver causas bagatelares? Não será melhor reservar uma justiça togada célere e qualificada para as causas com verdadeira relevância social?

Quanto à agilização processual, é preciso entender que o bem justiça é, como todos os bens, um bem escasso. E é preciso compreender isto sem preconceitos: a justiça togada não pode responder a tudo e tem que seleccionar prioridades. E o frequentemente denominado "garantismo" da justiça portuguesa, e é preciso dizê-lo,  caracteriza-se frequentemente pela porta aberta a uma profusão de recursos fúteis que só aproveitam aos mais ricos e poderosos. Basta passar os olhos pela legislação processual dos países mais desenvolvidos para constatar que o abuso dos recursos e incidentes fúteis é seriamente penalizado.


Em resumo: é possível e desejável superar o paradigma da auto-regulação profissional de algumas profissões que conseguiram, num determinado contexto histórico, alcançar determinados privilégios.


A informática, essa espécie de bruxaria


Antigamente  a bruxaria era apanágio feminino que alimentava fogueiras e medos coletivos. Aproveitavam a calada da noite para os conciliábulos e a vassoura para transporte até às encruzilhadas dos caminhos onde desembocavam fantasmas e se rogavam pragas. Era aí que a tradição judaico-cristã domiciliava a origem das desgraças que semeavam o pânico na plebe e a loucura nos inquisidores.

Hoje, os feiticeiros têm o nome impresso à entrada dos gabinetes que acendem as luzes à sua chegada, ar condicionado que evita às pituitárias a náusea do odor corporal e computadores onde escondem o saco dos sortilégios.

Circulam sem cerimónia no Windows, deslocam-se em confortáveis automóveis que deixam aprisionar no inferno do trânsito. Vivem num mundo de luzinhas, textos esotéricos que refletem a cabala matemática em sequências de 0 e 1, linguagem binária inacessível a profanos e que estarrece os basbaques. Foi-se o pacto com o demónio.

Os informáticos rezam com o teclado e devassam as trevas do ciberespaço, incapazes de lançar mau olhado. Há bruxos estabelecidos por conta própria  e outros que trabalham em multinacionais donde saem programas de várias gerações, informação para todos os gostos e links* à espera de um clique.

Não sei como conseguiu Bill Gates evitar ao exorcista oficial da Igreja católica, o padre Gabriele Amorth, a tentação de lhe esconjurar os demónios.

Que sorte para os informáticos, terem morrido Jaime I e Inocêncio VIII. O primeiro, em Inglaterra, mandava pagar prémios em dinheiro aos denunciantes de suspeitos de bruxaria e o segundo mandou os inquisidores descobrir e eliminar bruxas, incumbência que desempenharam a preceito.

 *Link – Feitiço que transforma a seta do rato numa mãozinha de beato a bater no peito.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

CRÓNICA DE DUAS MORTES ANUNCIADAS

Noticiou ontem a TVI que nos últimos três dias se suicidaram no Porto dois pequenos empresários da restauração, por não terem possibilidades de fazer face aos seus compromissos e se verem na iminência de terem de encerrar os seus estabelecimentos. Ouvidos vários outros empresários do ramo, todos concordaram em que as dificuldades que os levaram a esse ato extremo resultaram das medidas do governo para o setor, designadamente da desastrada subida da taxa do IVA da restauração de 13 para 23%.


Na notícia foi dito também que nos últimos meses sete empresários da restauração algarvios fizeram o mesmo pelas mesmas razões, e que em 2012 encerraram 11.000 restaurantes, lançando no desemprego 37.000 trabalhadores.

Nada que não se esperasse. A “fatwa” contra esses empresários já havia sido lançada pela coligação governante, em pleno Parlamento, pelas bocas dos deputados Hélder Amaral, do CDS, e Virgílio Macedo, do PPD, que declararam que há em Portugal estabelecimentos de restauração a mais.

Aqueles dois empresários estavam pois “a mais”.

Possivelmente, durante várias décadas não estiveram a mais, e os seus estabelecimentos foram o ganha-pão das suas famílias e das várias famílias dos seus empregados. Mas, com a política de “ajustamento” que este governo vem aplicando – com os resultados que estão à vista – para tornar a nossa economia “mais competitiva”, ficaram a mais. Não eram “competitivos”.

Na ótica do primeiro-ministro, estes dois empresários eram uns “piegas”. Pois se, como disse esse pilar do sistema financeiro que é o competitivo banqueiro Ulrich, “até os sem-abrigo aguentam” eles também podiam ter “aguentado”.

Mas não aguentaram. Mataram-se.

Agora já não estão a mais.

O país, sem eles, ficou mais “ajustado”.

Entretanto Passos Coelho, como ele próprio publicamente confessa, “dorme descansado”.

Taxation without representation

           

         

Cavaco Silva - o sedentário silencioso


Longe vão os tempos em que o PR se insurgia contra o Governo e a AR, com raiva ao líder do primeiro e fúria contra as decisões da última. O discurso da tomada de posse do último mandato foi uma manifestação de ressentimento contra o PM e as declarações sobre o Estatuto dos Açores uma colérica ostentação de azedume contra a unanimidade da decisão parlamentar. Foram os momentos mais altos da sua mais baixa intervenção.

Eram tempos em que Cavaco tinha da colaboração institucional e respeito pelos outros órgãos da soberania, um particular entendimento. Depois dos maus momentos da casa da Coelha e do caso das escutas, esperava-se do PR o cumprimento mínimo das funções e uma atitude de solidariedade para com o povo sofre.

Logo que a exiguidade das pensões que recebe, somadas ao subsídio de representação presidencial, passaram a ser exíguas para os encargos, tornou-se lacónico e sedentário.

Afastou-se do Faceboock, desinteressou-se do desemprego, da emigração dos jovens, da raiva que cresce, das malfeitorias do Governo, da boçalidade dos banqueiros, da miséria que grassa e da revolta que sai à rua.

Apareceu na tomada de posse dos ajudantes de ministros e na abertura do ano judicial com o mesmo ar dos gatos-pingados que acompanham as cerimónias fúnebres. Por este andar vai acabar por transformar o Palácio de Belém no sarcófago dourado de um morto-vivo.

A última bênção de B16 no Vaticano


A nomeação do barão Ernst Von Freyberg, cavaleiro da poderosa Ordem de Malta e construtor de tanques de guerra, como novo presidente do Banco do Vaticano, revela que a maior preocupação de B16 não era a teologia, era a tesouraria.

Que o burro ou a vaca fossem afastados do presépio é um mero detalhe da mitologia católica, mas que o cardeal Bertone se mantivesse à frente do IOR, era um perigo para as finanças do obscuro Estado.

Foi coerente com a tradição católica a última atitude relevante do papa demissionário. Ninguém se interessa pelo passado da Igreja mas todos os cardiais e bispos se torturam com as finanças do Vaticano e temem as consequências da lavagem de dinheiro e das eventuais conexões com a máfia.

Não foram os casos de pedofilia que abalaram o Estado criado por Mussolini, foram as contas opacas do IOR e a luta do Opus Dei pelo seu controlo. Este Papa era agente da prelatura que protegeu JP2 e o arcebispo Marcinkus. Tarcisio Bertone tinha mais poder. Deus nunca foi visto no Vaticano mas o único deus de que há provas, o dinheiro,  anda alheio à teologia mas atento ao poder das sotainas.

B16 pode dar-se por feliz por poder prescindir da tiara e do camauro, vivo. Valeu-lhe ter anunciado em direto a sua decisão. Doutro modo teria morte natural. Sem autópsia.

domingo, fevereiro 17, 2013

Basta!


O meteoro que explodiu sobre a Rússia, com uma potência destruidora superior à bomba de Hiroxima, feriu mais de mil pessoas e deixou um rasto de destruição. Apesar das tragédia, podemos dizer que o poder destruidor do meteoro era muito superior às consequências  que provocou. E de uma catástrofe natural ninguém está a salvo.

Em Portugal, um simples primata, devolvido de uma ex-colónia e oriundo da JSD, tem provocado desgraças bem mais devastadoras do que o meteoro que atingiu o Planeta.

A incompetência com que decide, a insensibilidade com que empurra portugueses para a miséria e o desespero, a indiferença perante os currículos devastadores para a honra de governantes, incluindo o seu, mostra um primeiro-ministro que, custe o que custar, não pode permanecer no poder. Vamos a caminho de um país sem empregos e sem pensões.

Que saberão dele os que o aguentam ou o que saberá ele de quem já devia ter dissolvido o Parlamento antes de Portugal atingir o ponto de não retorno duma tragédia pior do que a queda de um meteoro de colossal poder destruidor?

Passos Coelho não é um governante, é a cabeça visível de poderes ocultos que tentam destruir a economia, as finanças, o emprego e a felicidade de um País. Sobre a ruína do Estado desmantelado, erguerão o império da clique que conspira contra o Estado de direito e não pode ouvir falar em justiça social.

Basta! É preciso mudar

O bispo, as hóstias e a bruxaria


Li no DN de sexta-feira, dia 15: bispo de Bragança denuncia o roubo de hóstias para bruxaria, hóstias que no mercado negro podem valer 250 euros, se consagradas por um padre, ou 5000 se for um bispo o autor da consagração. Veio na 1.ª página.

O que me surpreende é o olfato dos bruxos para a consagração. Como é que distinguem uma hóstia consagrada de outra normal, sem um ensaio duplo-cego ou um laboratório alquímico que confirme a transubstanciação.

Basta ao padre colocar pão ázimo, sem fermento nem sal, no sacrário, e lá vão os ímpios iludidos com o placebo em vez do corpo e sangue que só a fé descobre depois dos sinais cabalísticos de quem tem alvará para a consagração.

Há até paroquianos – diz um padre – que «não engolem a hóstia para depois a poderem utilizar em rituais», o que deixa a suspeita de que os avençados da eucaristia podem ter pacto com o diabo.

O bispo de Bragança e Miranda, José Cordeiro, está muito preocupado pelo roubo das hóstias que, ao que lhe dizem, se destinam à bruxaria.

Quem julgava o Inferno uma metáfora pia e o diabo uma espécie extinta, verifica que o demo continua a perturbar a fé e a viajar para os meios rurais quando abandona o habitat – o Vaticano.

Não pensem, devotados leitores que a afirmação é escárnio de um ateu. Foi o exorcista oficial da Igreja, o padre Gabriele Amorth,  com 25 anos de experiência, a dizer que o demónio está no Vaticano, mas, dado o roubo de hóstias consagradas, também percorre o Brasil, Peru, Itália, Espanha e Portugal.

Em Portugal, “a vaga de furtos de hóstias para bruxaria preocupa bispos e padres”. Só há uma solução, consagrar na hora as rodelas de pão ázimo e enganar os sacrílegos com hóstias sem valor espiritual.

A Idade Média regressa lentamente através do clero e da superstição dos crentes. 

sábado, fevereiro 16, 2013

Coelho e a 'filosofia' da cordoaria..

Participando nas ‘Jornadas da Consolidação, Crescimento e Coesão’ do PSD, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, defendeu na noite desta sexta-feira, no Porto, que: “os portugueses estão num momento em que devem estar confiantes de que os objectivos podem ser cumpridos sem que a corda que está esticada possa partir”. link

O recurso a esta 'filosofia' da corda vai dar pano para mangas. Todos pressentimos a corda esticada mas ainda vai dando para ‘bambolear’ em Jornadas (partidárias e só nessas).

O ‘equilibrista’ que sobre ela quer continuar a transitar parece, subitamente, aperceber-se que lhe terão retirado a rede. Desapareceu o chão que deveria estar por debaixo.

No meio do percurso vê do outro lado, no palanque, os mercados (onde esteve há poucos dias) acenando-lhe com glórias e aplausos, mas o agora ‘malabarista’ que andou este tempo a tecer uma entrelaçada teia verifica que lhe falta o ‘pé’. Começou a ser sugado por uma violenta ‘espiral’ (que nega),  que o está a ‘desequilibrar’ (e a atirar borda fora - da tensa 'corda').

Passos Coelho trouxe à memória um conhecido aforismo: “O caminho certo passa sobre uma corda esticada pouco acima do chão. Parece antes destinado a fazer com que as pessoas tropecem do que levá-las a um bom fim…Franz Kafka. (Franz Kafka. Aforismos. Portugal: Ed. Ulmeiro, 2001, pp.7).

A corda (esticada) não terá necessariamente de partir (porque isso seria catastrófico) mas é cada vez mais nítido e certo que, mais cedo do que tarde, 'alguém' vai tropeçar nela.

Carta a Galileu Galilei (n. 15-02-1564)


"Eppur si muove!"

Galileu, ontem foi o teu dia de anos. Na sabedoria dos teus 449 anos deves agradecer ao Papa a missa com que celebrou o teu 445.º aniversário. Não sejas ingrato, repara que foi a primeira em séculos de defunção, foi de borla, e talvez em latim, para não atrapalhar o teu entendimento com o italiano moderno. Foi missa solene, daquelas que só se rezam por mortos poderosos. Quem sabe se essa missa não lhe custou a tiara, 4 anos depois.

Foste um felizardo, Galileu Galilei, não foste queimado vivo como Giordano Bruno que também escreveu heresias e a quem ainda querem derrubar a estátua. Não, eu não falei da estátua, daquela horrível tortura a que o Santo Ofício, a PIDE e outras polícias recorriam, referia-me à figura inteira, em pleno relevo, que representa um homem, pode ser em bronze, granito, terracota ou mármore, sim, ou dessas que o Santo Ofício usava para queimar quando lhe fugia o herege.

Eu sei que não sabes, como pode um cadáver saber, mas 350 anos depois da morte, o teu processo foi reaberto e bastaram sete anos para te reabilitarem. Hoje a Terra já é redonda, até para o Vaticano, e gira, mesmo com este Papa, e passas a ter uma estátua nos jardins do Vaticano. Não digas que não é grande a misericórdia dos ungidos do Senhor!

Já te absolveram há mais de uma década e tu, ingrato, não curas um cancro a uma freira nem a moléstia da pele a um médico do Opus Dei, és mal-agradecido, podias chegar aos altares, não faltaria quem te rubricasse um prodígio nem padre postulador para te elevar à santidade, podias até virar colega de S. José Maria Escrivà.

Não rias, é vulgar importar do Inferno um excomungado e exportá-lo para o Paraíso. A agência de viagens celeste faz mudanças, não calculas como evoluíram os transportes, o ex-prefeito da Sagrada Congregação da Fé, como agora se designa o santo Ofício, será o Papa até ao fim do mês e já nomeou uma escolta para transferir Monsenhor Lefebvre.

Hoje, Galileu Galilei, já não há incompatibilidade entre a ciência e a fé, esta é que ainda abomina a primeira, mas já se sabe que deus, na sua infinita sabedoria, no desenho inteligente que concebeu no estirador celeste, andou a espalhar fósseis para pôr à prova os que duvidam que, há exatamente 6017 anos, criou do barro Adão e Eva e do nada fez todas as coisas.

Galileu Galilei, larga o túmulo e, da tua Florença, corre a Roma e agradece ao papa a missa solene e a estátua e diz-lhe que há séculos que deixaste de incomodar a fé com as tuas heresias e que nunca mais farás uma descoberta que prejudique o brilho da tiara e o conforto do camauro.  Mas apressa-te, tens 12 dias.

Gasparices à moda do relvas


Vá lá um homem ser prior nesta paróquia

A amantíssima esposa, que me conhece as manhas e os hábitos e mantém a bonomia de quatro décadas de casamento, com papelinho passado e uma afeição que me surpreende, admoestou-me hoje quando ia meter-me as calças na máquina de lavar.

- Estás maluco ou quê?

Dos dois ou três papeis que era costume devolver-me, retirados dos bolsos, encontrou dezenas de faturas de pequenas despesas que a paranoia fiscal me obrigou a solicitar. Parecia o Atílio, uma personagem de uma telenovela brasileira, que vi há muitos anos, e que, na sua demência, guardava o lixo.

Em três dias tinha nos bolsos faturas de uma dúzia de cafés, uma barba, dois envelopes de correio azul, quatro jornais, duas revistas, um corta-unhas, um pente para carecas, o carregamento do telemóvel, duas águas de marca, o combustível do carro, três recibos de estacionamento, um livro impio e dois jantares num restaurante de 3.ª categoria.

E mal ela sabe o susto que apanhei quando bebi uma água numa dessas máquinas que servem bebidas e não dão recibo. Já basta as vezes em que não dão o troco e ainda nos põem a olhar para os lados, não vá aparecer um fiscal que nos multe por não podermos exigir à máquina o recibo que o Gaspar exige.

Raios parta a sorte. Só me faltava acabar a colaborar com o bando de estarolas a quem falta competência e sobra imaginação.


sexta-feira, fevereiro 15, 2013

A dica da semana: “Razoavelmente”…

O primeiro-ministro afirmou que o desemprego está "razoavelmente" de acordo com as previsões… link

Um ‘relvítico’ folclore…

Miguel Relvas andou uns tempos foragido da praça pública para tentar fazer esquecer as charadas pessoais e dissimular que ainda pertence a um Governo que está a conduzir este País para uma anunciada catástrofe.
Resolveu ‘ressuscitar’ no final de um conselho de ministros para comentar duas desastrosas situações que tinham sido reveladas pelo INE: a taxa de desemprego atingiu o histórico ‘pico’ de 16,9% e a economia portuguesa continua a cair acima do estimado verificando-se em 2012 um ‘recuo’ de -3,2% link.

Eis senão quando, muitos portugueses atingidos por uma incrédula estupefacção e cilindrados pela eminência do desastre, ouviram este abstruso espécime apregoar que “todos os objectivos definidos pelo Governo para 2012 foram alcançados"… link
Não merece a pena digladiar argumentos contra tamanho dislate. A evidência de vida e os dolorosos resultados, acabam invariavelmente por ‘despir’ os inveterados amadores de retóricas fáceis e populistas, transformando-os naquilo que efectivamente são: pantomineiros em trânsito pela (na) política.

Na verdade, a caracterização do 'estado da Nação' começa a ser muito linear quando confrontada com ‘objectivos reais': a situação económico-social a um passo do descalabro e a política à beira de um oportunismo indigente.
Os [ainda] ‘crentes’ nas soluções corporizadas por esta clique que insiste em nos governar (‘ajustar’ dizem eles) são quantitativamente menos e, por outro lado, qualitativamente mais titubeantes, menos convictos. 

O País – por enquanto – encolhe-se, está paralisado, desnorteado e temeroso perante a eminência da catástrofe que inexoravelmente se anuncia. A situação económico-social está a um passo do descalabro e não se vislumbram soluções políticas (nacionais e/ou europeias).
Mas como nos vamos habituando, no meio das hecatombes, aparece sempre alguma avantesma que anuncia ‘vitórias’, um pouco ao estilo do patético ex-ministro da informação do regime de Saddam Hussein. Estes andarilhos da política não devem ser tomados (esta a palavra!)por ‘optimistas’ (inconscientes ou mal informados) porque, na verdade, são 'outra coisa'. Trata-se de um vicioso e insuportável tipo de charlatanismo. Pior, padecem de uma grave doença: o ‘autismo político’ (salvaguardado o respeito que me merece a situação dos doentes autistas).
Nesse mesmo bate-papo, em final de tarde, depois de um plenário de ministros que “não esteve particularmente virado para os dados económicos” (Marques Guedes dixit link) os jornalistas presentes na sala estenderam-lhe uma capciosa armadilha questionando-o sobre as palavras do ex-secretário de Estado da Cultura (relativa às multas pela não exigência de facturas) e o ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, sempre lesto a perorar sobre qualquer coisa disse não ter tido oportunidade de ler as críticas de Francisco José Viegas, mas sublinhou que respeita "qualquer e todas as opiniões que são assumidas”. link. Um autêntica ‘arara’ (mal amestrada).
Não supôs Miguel Relvas que o ex-Secretário de Estado Viegas poderia ter usado a expressão ‘tomar no culink com outras (segundas) intenções?
Na verdade, no português corriqueiro usa-se levar, ou apanhar, no dito. A expressão ‘tomar’ para além de ser um evidente recurso a um fácil brasileirismo poderá ser 'tomada' como uma vaga referência à cidade onde Relvas se iniciou na mirabolante carreira política e onde foi presidente da Região de Turismo dos Templários e da Assembleia-Geral da Associação de Folclore da Região de Turismo dos Templários. Deste modo, Relvas poderá ter sido submetido a um episódio da ‘praxe de gozo’ (na gíria coimbrã), tendo gratuitamente oferecido (ao País) um espectáculo de ‘relvítico’ folclore…