As lições (ilações) dos últimos tempos…

Começa a fazer-se tarde para balanços que teimam em ser postergados para quando a situação atingir o irremediável.

O recente malabarismo (‘grande pirueta’ no dizer do deputado Pedro Marques link) protagonizado pelo ministro Vítor Gaspar no Parlamento (Comissão de Orçamento e Finanças) foi um exercício da mais alta irresponsabilidade política travestido de um insuportável chico-espertismo de matriz aparentemente tecnocrata link. Mas o grave, o trágico, serão as consequências deste dogmático e inconsequente ‘exercício’ que, mais uma vez, corre o risco de ser, ingloriamente, suportado pelo povo português.

É isto que significa o despudorado anúncio feito pelo ministro de ‘medidas contingentes no valor 0.5% do PIB’ link (leia-se novas medidas de austeridade no valor de 800 milhões de euros) que vão obviamente provocar ainda mais recessão e tem como corolário o completo afundar do País num brutal empobrecimento (de cada vez mais difícil reversão).
O Governo mostra ter tomado as rédeas nos dentes e como um animal desembestado corre alucinado em direcção ao precipício sob o signo do ‘custe o que custar’.

Tem como suporte a Comissão Europeia (o 'frio' Olli Rehn), o BCE ( o ‘super Mario’) e a 'intocável' maestrina destas políticas, a senhora Merkel.
O FMI dada a sua natureza ‘global’ não figura nesta abordagem. O que não significa de esteja isento de culpas no cartório.

Quer para o ‘funcionário’ Gaspar e o amanuense Coelho, quer para os ‘dinamizadores’ destas políticas instalados em confortáveis gabinetes em Bruxelas ou em Frankfurt, deve ser demonstrado (exigido) que estamos na hora das (nossas) avaliações. E que não há mais espaço para ‘corrigir tiros’. Já existem demasiadas vítimas. Na realidade – e o confronto deve ser feito aqui - estas ‘políticas’ desembocaram num dantesco quadro de catástrofe, não sendo necessárias mais ou melhores evidências. O visível e o palpável é a absoluta inutilidade de todo um profundo sofrimento imposto a alguns povos europeus (apelidado de ‘ajustamento’), que – sejamos realistas - não admite mais contingências, nem correcções ou acertos. Chegou-se ao fim da linha. A ‘receita’ tem de ser questionada, avaliada e como é desde já previsível, rejeitada. Está – e hoje temos a certeza que sempre esteve – errada. E os responsáveis – são muitos! – devem ser liminarmente afastados por ‘indecente e má figura’. O ‘rumo actual’ já não é passível de qualquer tipo de correcção. Tem de ser invertido e a insana ‘cavalgada’ travada, por todos os meios se, de facto, quisermos salvar alguma coisa (p. exº. ‘a pele’) no meio deste tremendo descalabro.

É verdade que Portugal está à beira de uma eminente ruptura social mas o mais grave é que a ‘coesão’ europeia não passa de uma inultrapassável miragem. O ‘índice de mau-estar’ (terá outras designações técnicas), nomeadamente nos Países do Sul (da Europa), atingiu as raias do insuportável e do inconcebível (há poucos meses atrás). Mas a tragédia, hoje, atinge toda a União Europeia ( Zona Euro e restantes países europeus). A recessão apoderou-se de toda a Europa e está a chegar aos Países do Centro e Norte - as celebradas ‘locomotivas do desenvolvimento europeu’ – dão sinais de estarem ‘gripadaslink.

A queda do Governo búlgaro (de centro-direita) foi o mais recente sinal link . Amanhã, com toda a probabilidade, termos outro: a Itália.
O debate político – necessário a qualquer ‘ambiente democrático’ - está paulatinamente, por todo o lado, a ser substituído pelo protesto, pela indignação, pela deriva.
As constantes ‘previsões’ de que a austeridade conduziria a uma renovação económica e ao crescimento (‘sustentado’ à sombra das miríficas ‘reformas estruturais’), sob a sombra tutelar das instituições financeiras, revelaram-se um total fracasso e uma grosseira mistificação. Geraram recessão em cima de recessão (a tal ‘espiral’ que se tenta esconder). Uma fantasiosa compatibilidade entre consolidação fiscal e desenvolvimento económico revelou-se desastrosa. O leque de opções começa a estreitar-se e não oferece saídas felizes.

Hoje, verificamos conjugarem-se duas situações, ambas desastrosas: o insucesso dos ‘ajustamentos’ (todos e não só da Grécia) e o desabar da ‘União Europeia’.
Um imenso capital de esperança e a perspectiva de futuro foi miseravelmente delapidado por tecnocratas e políticos neoliberais e colocou a Europa [desses senhores] incompatível com qualquer promessa de ‘amanhãs que cantam’. A Comissão Europeia pode continuar a enganar-se a si própria mas dificilmente convence a Europa. Está simplesmente a destruir a 'União'. 

Este o triste fim de uma (encapotada) experiência neoliberal que a História registará e cujas consequências (próximas e futuras) estão longe de estar avaliadas ou sequer delineadas. Sabemos, todavia, sobre quem as mesmas recairão. Essa a tragédia do presente que continua à espera de uma ‘resposta europeia’. O Sul ao claudicar sucumbindo às políticas desastrosas arrastará o resto da Europa que tem pretendido sair incólume desta profunda crise (depressão). Cairemos juntos e, portanto, só conseguiremos sair daqui, também, juntos. Esta a lição fundamental. E que condicionará todas as necessárias - e urgentes - ilações.

Comentários

Excelente análise.
A Europa, devido ao dogmatismo neoliberal, está a caminhar para o abismo.De dirigentes como os portugueses nada há a espera; continuam teimosamente a acreditar nas suas desastrosas teorias. Haverá outros capazes de reconhecer o erro e inverter a direção?

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