Ninguém os entende…

Há beatos que exoneram a inteligência e a credibilidade para estarem sempre de acordo com a sua Igreja. Por maiores tolices que diga o Antigo Testamento, é a palavra de Deus que não quer dizer o que diz, mas o que os exegetas dizem que quer dizer.

Quanto aos papas, já sabemos que são sempre santos por profissão e estado civil e que as suas posições são sempre excelsas, quer condenem o uso da pílula e do preservativo ou defendam o jejum e a abstinência. É difícil perceber que se atribua a defesa da vida a quem exalta a castidade, certamente a mais implacável atitude contra a natalidade.

Os beatos consideram de inspiração divina os lugares-comuns e os projetos de poder, as fogueiras e as Cruzadas, a evangelização forçada  e vida carcerária de freiras e monges.

João Paulo II foi o herói capaz de morrer no seu posto enquanto o exibiam na mais cruel decadência física e psíquica, tentando que a morte, em direto, provocasse uma comoção geral que convertesse os mais suscetíveis. Os que incensaram tão desumana impiedade são os mesmos que ora glorificam o desapego ao poder, a lucidez e generosidade do ato de renúncia de Bento XVI.

Venha o Diabo entendê-los. Pela primeira vez, o Vaticano vai ter dois papas. Os beatos, habituados a chorar cada Papa que morre, arriscam-se a perder um espetáculo. Ninguém chora um papa reformado.

Comentários

e-pá! disse…
Assente a 'poeira' sobre a 'mística' (ou mistificada?)resignação de B-16 é necessário começar a por questões mais mundanas, terrenas.

Joseph Ratzinger terá decidido abandonar a chefia da ICAR para não ficar prisioneiro da chantagem dos 'corvos'?
Explicando melhor: a fuga massiva de documentos secretos do Vaticano, um facto incontornável, cujo desfecho se resumiu a um singular julgamento e condenação de Paolo Grabrielle, logo seguida de indulto, não terá deixado os (nunca revelados) 'corvos' à solta, coartando a possibilidade de continuar a governar autocraticamente (como é a regra do Vaticano) uma vasta e complexa instituição de dimensão mundial.

Significativo será, também, o facto do seu porta-voz, o jesuíta Frederico Lombardi, num econtro com a imprensa ter referido - segundo julgo mais do que uma vez - a palavra 'governabilidade'.

E mais uma questão (muitas outras existirão):
Como está - de saúde financeira - o IOR (Banco do Vaticano) depois do intempestivo abandono [expulsão?] do 'seu' (e da Opus Dei) gestor Ettore Gotti?

Há, portanto, um conjunto de questões em suspenso, não sobre assuntos ou revelações sobrenaturais mas, concretamente, ligadas problemas bem terrenos...
E-Pá:

Isto não é um comentário, é um excelente post com uma anáçise lúcida.

Saia Post!
Também me parece que o comentário de e-pá devia sair como post!
e-pá! disse…
CE e AHP:

Já 'entrou' como comemtário e melhor será deixá-lo ficar...
Ou muito me engano ou até ao conclave ainda vamos descortinar muita 'miséria' no Vaticano, o que dará azo a novos 'post's'.

Ratzinger enquanto foi chefe da ICAR era o supra-sumo da coragem, da firmeza doutrinária e da inteligência e ao ter de resignar - por fragilidades não totalmente esclarecidas - mantem intactas as mesmas qualidades.
Há muita coisa neste enredo que não bate certo.
Pairará no Vaticano a 'sindrome João Paulo I' (o dos 33 dias)?
Mano 69 disse…
Eu acho que não deveria ser um post mas sim um livro!
Mas claro que esta é a minha humilde anáçise turvada da situação.

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